Mais um dia de jogo, mais uma Assembleia Geral, mais um reunir de vários assuntos “pendentes” para serem discutidos com os sócios antes de passarem à prática em caso de aprovação. À semelhança do que tem vindo a acontecer nas últimas reuniões magnas, o Sporting (clube) voltava a aproveitar uma presença reforçada de associados em Alvalade, tendo em conta o encontro oficial de apresentação diante do Mónaco, para promover a habitual Assembleia Geral para apresentação e votação do Orçamento para o exercício de 2026/27, neste caso com um lucro projetado de 170 mil euros, depois dos 2,12 milhões apontados na temporada anterior. No entanto, a oportunidade foi aproveitada para olhar para outras matérias, entre parte financeira e não só.
Por um lado, e ainda num plano económico, seriam também apreciadas e votadas as contas consolidadas de todo o grupo Sporting referentes a 2024/25, neste caso com um lucro de quase 23,5 milhões de euros (23,3) que compara com os 36,4 milhões positivos referentes ao exercício consolidado de 2023/24. Ou seja, e na análise aos exercícios de clube, SAD e demais partes que fazem parte do universo empresarial dos verde e brancos, o saldo voltou a ficar no verde, com destaque para o aumento das “receitas operacionais” e de valores advindos das prestações em provas europeias, bem como, num montante mais pequeno mas com maior incremento em termos percentuais, do valor arrecadado com quotizações, que já passa os 14,5 milhões. A documentação entregue a todos os associados que passaram durante este sábado pelo Pavilhão João Rocha aponta também para os sete primeiros anos de vigência de Frederico Varandas, num total de 94,8 milhões de euros de lucro consolidado tendo apenas dois exercícios negativos, em 2018/19 (11,4 milhões) e 2020/21 (42,6 milhões, na temporada que ficou mais marcada em termos contabilísticos pelos efeitos da Covid-19).
Em paralelo, surgiam ainda mais três pontos na ordem de trabalhos. Um, “a título informativo”, referente ao novo símbolo adotado pelo Sporting, numa mudança que ficou a ser conhecida no dia do 120.º aniversário do clube, a 1 de julho, e que seria agora explicada aos associados. Outro, neste caso para ser sufragado, que dizia respeito a uma nova categoria de sócios a ser contabilizada. Em termos estatutários, o Sporting tem agora sócios efetivos, sócios auxiliares e sócios atletas, mas cada um desdobra-se de seguida em diferentes categorias entre efetivo A+, efetivo A e B, categoria C, juvenil, infantil e família. Por fim, e no ponto com mais peso na reunião magna extra contas, a Direção ia também pedir autorização para avançar com uma proposta de recompra do Holmes Place, continuando o seu projeto de modernização de Alvalade.
Um pouco à semelhança do que tem acontecido nas últimas Assembleias Gerais, e num sinal de um clima de estabilidade como há muito não se sentia, grande parte dos associados foi passando pelo Pavilhão João Rocha, votavam e seguiam depois para as imediações do recinto, fazendo tempo para o encontro frente ao Mónaco que seria antecedido pela apresentação dos jogadores. Antes, à chegada ao local com todos os restantes membros dos órgãos sociais, Frederico Varandas falou apenas de passagem sobre o dia que o clube teria pela frente. “Além do jogo, é muito importante a comparência dos sócios para virem votar mais um orçamento em linha com o que têm sido os últimos anos de governação. Esperamos um pontapé de saída feliz onde os sócios aprovem o Orçamento, e que o Sporting comece mais uma grande época”, destacou.
Em tudo o resto, o tema foi único e passou pelo futebol, nomeadamente pelo mercado de transferências de jogadores. “Não é uma nova era. Este mercado foi pensado e planeado, é para ir buscar um grupo para as próximas três épocas. Saíram grandes jogadores, juntamente com outros como o Viktor [Gyökeres], o [Pedro] Porro… O Sporting tem contratado jogadores de classe mundial nos últimos anos. Alguns saíram, outros ainda cá estão. Insubstituível só o Sporting”, referiu. “Tolerância zero para o treinador? Já ouvi que Rui Borges está fragilizado… Mas isso passa-nos ao lado. O Sporting tem um plano e para o ano estaremos novamente onde queremos, que é na decisão”, acrescentou ainda em relação à posição de Rui Borges.
“Entendemos que o [Francisco] Trincão e o Morten [Hjulmand]… Um fez quatro anos de Sporting, o outro fez três. São dois jogadores fantásticos que estão no lote dos grandes jogadores da história do Sporting. Chegaram, conquistaram títulos, tinham ambição pessoal. À exceção da Premier League, não vejo vendas superiores às nossas. Fica o eterno agradecimento, deram sempre tudo. É muito provável que saiam mais e entrem mais. Este mercado foi planeado com muito tempo, desde o início da época anterior. Estarão para sempre na história do Sporting, mas agora é tempo de preparar os próximos quatro anos. É um grupo forte que achamos que vai colocar o Sporting na luta por troféus”, voltou a garantir Varandas.
No arranque da Assembleia Geral, o presidente dos leões voltou a falar, neste caso com um discurso, com uma primeira parte apontada à necessidade de evolução de todas as organizações (com uma subtil “bicada” nos rivais Benfica e FC Porto pelo ano de fundação), um segundo período em que resumiu a temporada de 2025/26 em termos desportivos no futebol e nas modalidades e um terceiro momento mais apontado para o que estaria em discussão, nomeadamente a questão da recompra do Holmes Place Alvalade.
“120 anos de Sporting, 120 anos reais de existência, 120 anos de ecletismo, 120 anos a formar atletas de excelência, 120 anos a engrandecer Portugal, 120 anos de esforço, de dedicação, de devoção e de glória. A nossa missão, entenda-se de todos os sócios, é preparar e cuidar do Sporting para mais 120 anos de existência e de glória. É perceber que todos nós estamos, e sempre estaremos, abaixo do clube. Nós só existimos enquanto sportinguistas porque existe o Sporting. Nada mais interessa além do Sporting. É perceber também que o mundo não pára. O mundo de 1906 era muito diferente do mundo de 2026. Como o mundo de 2026 será muito diferente do mundo de 2146″, começou por referir no discurso na Assembleia.
“Temos a obrigação de garantir a sobrevivência do clube. Como na natureza e na evolução das espécies, quem não tem a capacidade de se adaptar às mudanças do mundo, acaba por se extinguir. As únicas coisas que são intemporais são o amor pelo clube e os valores que este clube representa, que temos a responsabilidade de nunca defraudar. Muito mais importante que vencer é a forma como se vence e a nossa forma de estar na vida. E é por isso que o Sporting é tão atacado. Quantas vezes já ouvimos isto: ‘Eles julgam-se diferentes!’. Não, nós não somos ‘diferentes’, nós temos valores. Na vitória, na derrota e no exemplo para os mais novos sobre o que é cultura desportiva. Este ano ficou mais uma vez, bem vincado, o rumo do clube: competitividade das nossas equipas, sustentabilidade financeira, crescimento da nossa massa associativa, modernização do clube e das infraestruturas e recuperação de património que anteriormente tinha sido vendido por dificuldades financeiras”, prosseguiu, antes de fazer um resumo da época de 2025/26.
“No futebol fizemos a melhor campanha de sempre na Champions League. Internamente, e ao contrário das últimas épocas, não conseguimos conquistar títulos, apesar de mais uma vez termos estado na decisão e na discussão final dos títulos. Nas modalidades, foi um ano histórico. Foi o ano com mais títulos conquistados de toda a história. Destaco a nossa terceira Champions League no futsal, o título de campeões mundiais em hóquei patins, tricampeonato do andebol, bicampeonato do voleibol, as conquistas das Taças de Portugal no basquebol, no voleibol, no hóquei e no andebol. E ainda, entre muitos outros, os títulos de campeão no atletismo, no judo, no ténis de mesa e na ginástica”, apontou na vertente desportiva.
“Este ano ficou também marcado pelo recorde de receitas na quotização, ultrapassando os 15 milhões de euros. Estimamos ainda que, em 2026/27, continuaremos a crescer e atingiremos 16 milhões de receita. Estamos também a dias de atingir a marca histórica de 200.000 sócios. Isto é a maior prova do ativismo da massa associativa e a prova de como os sócios se reveem no clube. Depois da aquisição do Alvaláxia no ano passado, temos o objetivo agora de recuperar outro património estratégico do nosso estádio: o Holmes Place. Esta aquisição é muito importante para o plano de desenvolvimento do estádio que está em curso. Isto é a demonstração de robustez financeira que resulta na alteração de paradigma que nos permite adquirir património em vez de vender como se fazia no passado”, destacou, sobre o ponto 4 da reunião.
“Desde que esta Direção chegou ao Sporting tivemos como objetivo que os sócios se revissem nas suas equipas, se revissem e se sentissem em casa no seu estádio. E por fim, queremos que os nossos sócios se revejam no símbolo do nosso Sporting. Com esta proposta de alteração, acreditamos que todo o passado, como um próspero futuro, fica representado neste novo símbolo. O símbolo do Sporting Clube de Portugal. Continuemos a caminhar, continuemos a crescer, continuemos a vencer”, concluiu Varandas.
Já depois do encontro do futebol, que terminou com um triunfo dos leões para conquistar de novo o Troféu Cinco Violinos, Pedro Almeida Cabral, novo presidente da Mesa da Assembleia Geral do Sporting que “subiu” na hierarquia nas últimas eleições onde substituiu João Palma, comunicou os resultados que foram apurados na reunião. Em resumo, todos os pontos foram aprovados por maioria (ou larga maioria), com o ponto da criação da nova categoria de sócio, denominada de “sócio base”, a ser aquele que teve menor expressão em termos de votos (passou com cerca de 66% de votantes e pouco mais de 70% dos votos). De resto, entre o Orçamento, as contas consolidadas e a recompra do Holmes Place, todos passaram com quase 90% ou mais de 90%, com a particularidade de ter sido o último a reunir mais votos e votantes a favor.