No passado dia 24 de julho, encontrava-me em Dallas, Texas, após a conclusão de uma reunião com a minha equipa de trabalho e com resultados altamente positivos. Naqueles dias, a metrópole texana fervilhava com a simbiose entre a dinâmica corporativa e a efervescência desportiva do Mundial de Futebol. Na sequência do desfecho da nossa agenda, propusemo-nos desfrutar do início do jogo do Brasil, recolhendo ao complexo hoteleiro com a equipa. Contudo, a placidez do momento desvaneceu-se abruptamente quando os nossos dispositivos móveis começaram a tocar. A estupefacção plasmou-se nos nossos rostos à medida que convergiam chamadas, mensagens e registos visuais de eventos sísmicos de grande magnitude que acabavam de fustigar múltiplos pontos da Venezuela.
Os instantes imediatos exigiram uma reacção de contingência: a evacuação para zonas recatadas do hotel — onde coexistiam adeptos de diversas nacionalidades, da Argentina ao Japão e à Suécia — e a tentativa imediata de estabelecimento de contacto com os nossos círculos familiares de amizade e profissionais, por forma a aferir a integridade física dos nossos queridos.
Por desígnio da fortuna, o nosso círculo mais próximo logrou sobreviver incólume à catástrofe, registando-se exclusivamente danos materiais de diversa ordem. Exactamente um mês após o trágico acontecimento, foi-me possível regressar ao território venezuelano. A infra-estrutura aeroportuária nacional reflecte ainda os estragos e os subsequentes trabalhos de reabilitação; o Aeroporto Internacional de Maiquetía permanece condicionado, pelo que a aterragem ocorreu no Aeroporto de Valência — infra-estrutura de menor escala, situada a cerca de três horas de Caracas, mas que assume actualmente o ónus logístico de centralizar grande parte da conectividade aérea internacional.
A chegada a Caracas e a posterior inspecção ás infraestruturas afectas, tais como nos Palos Grandes, Los Teques e La Guaira, revelam um cenário de devastação comoventes. A força inexorável da natureza impõe uma reflexão profunda sobre a contingência da condição humana. Em escassos segundos, vidas foram truncadas, projectos existenciais aniquilados e comunidades inteiras confrontadas não apenas com a privação material absoluta, mas com o complexo desafio de encontrar alento anímico para conceber o dia amanhã — questionando o como, o quando e o com quem reiniciar a marcha existencial. Perante tal cenário, as palavras revelam-se manifestamente insuficientes.
Constitui uma matriz identitária da minha conduta analítica projectar o horizonte prospectivo com pragmatismo, por mais adversas que se afigurem as circunstâncias. Importa, pois, proceder a uma rigorosa localização espaciotemporal para discernir os vectores de auxílio e recuperação.
Recordemo-nos de que o alvor do corrente ano foi marcado por uma intervenção estrutural dos Estados Unidos na Venezuela, catalisadora de mutações graduais na arquitectura de governação e na abertura paulatina aos mercados globais, beneficiando do apoio diplomático e técnico de Washington. Paralelamente, dias antes do duplo sismo, assistiu-se a uma transição governativa na Colômbia. Cumpre igualmente sublinhar um factor amiúde relegado pela análise convencional: a colossal infra-estrutura da maior reserva petrolífera mundial permaneceu estruturalmente intacta.
O envolvimento concertado de governos norte-americanos e europeus, de organismos multilaterais de crédito e desenvolvimento — com destaque para o Banco Mundial, a CAF e o FMI —, bem como de agências humanitárias como a Cruz Vermelha e a Cáritas, consubstanciado no alívio de sanções direccionadas para a assistência humanitária, tem-se revelado instrumental para mitigar as agruras vividas no território bolivariano.
Quando interpelado sobre os vectores de assistência exequíveis, impõe-se decantar a análise estatística para além da vertente estritamente humanitária — por mais prioritária que esta se afigure. Urge direccionar o foco para o domínio macroeconómico e industrial:
-Indústria de Hidrocarbonetos: A titularidade da maior reserva petrolífera global constitui o fulcro da recuperação, preconizando a transição do actual patamar produtivo (situado ligeiramente acima de 1 milhão de barris diários) para uma meta de 4 a 5 milhões de barris diários. Esta expansão conta com a chancela estratégica e o apoio técnico dos Estados Unidos, integrando também a exploração de hidrocarbonetos adjacentes e recursos minerais de elevado valor estratégico.
-Reabilitação Urbana e Infra-estruturas: O parque edificado e as vias de comunicação exigem investimentos avultados, congregando milhares de edifícios a requalificar, estruturas a reconstruir integralmente e projectos habitacionais de cariz social a implementar.
-Sectores Emergentes: A indústria turística, longamente estagnada, aguarda uma reestruturação profunda consentânea com os padrões internacionais de competitividade.
A ponderação objectiva destes vectores conduz-nos a uma interpelação inevitável: não constituirá o momento presente a oportunidade ímpar para catalisar o ressurgimento da Venezuela, “País das Oportunidades”?!