Um mês após os sismos na Venezuela há ainda milhares de pessoas desaparecidas

Os sismos registados na Venezuela a 24 de junho causaram, segundo o último balanço das autoridades, pelo menos 5.398 mortos e 16.740 feridos. Vários países, incluindo Portugal e outros Estados da União Europeia, enviaram equipas de busca e salvamento para a Venezuela.

O Governo venezuelano não deu, para já, qualquer informação sobre quantas pessoas ainda estão desaparecidas, mas estima-se que o número chegue às dezenas de milhares. Mesmo depois de um mês da catástrofe, continuam no terreno os esforços humanitários e do executivo para tentar localizar pessoas desaparecidas, que iniciativas não-governamentais admitem que possam ultrapassar as 29 mil.

Naquele dia, os sismos de magnitude 7,2 e 7,5 ocorreram a 200 quilómetros de Caracas, com menos de um minuto de intervalo, e foram seguidos por centenas de réplicas, de acordo com o Serviço Geológico dos Estados Unidos.

Um mês após o duplo sismo que abalou a Venezuela, os luso-venezuelanos de La Guaira, a localidade mais afetada, vivem entre a incerteza e algum temor de que a ajuda seja insuficiente para retomarem ao quotidiano. Atualmente, cerca de 23.100 pessoas estão a viver em acampamentos temporários nesta localidade, em Miranda e em Aragua. 

Esta semana, o Governo de Delcy Rodríguez doou 200 habitações a famílias afetadas. No entanto, necessidade total pode ser 100 vezes maior. A reconstrução destas localidades levará anos e exigirá milhares de milhões de dólares em investimentos – o Banco Mundial estimou que os dois terremotos causaram 19,6 biliões de dólares em danos.

Número de mortos deve aumentar

Até à madrugada de quinta-feira, o balanço das autoridades venezuelanas dava conta de 5.398 mortos e de 16.740 feridos. Não são divulgados os números relativos aos desaparecidos, mas a iniciativa "Desaparecidos Terramoto Venezuela", um site onde são comunicados os casos de pessoas cujo paradeiro é desconhecido na sequência dos sismos de junho, regista mais de 29 pessoas com quem não foi ainda possível estabelecer contacto.

Entre os mortos, há pelo menos 133 portugueses e lusodescendentes, e outros 21 estão dados como desaparecidos, de acordo com os dados atualizados do Ministério dos Negócios Estrangeiros. As equipas de socorro, apoiadas por contingentes internacionais, conseguiram resgatar 6.462 pessoas com vida dos escombros, segundo a agência de notícias France-Presse (AFP).

O terramoto destruiu completamente 190 edifícios e deixou danos em outros 856, de acordo com o balanço oficial. Até agora, mais de 240 famílias receberam as primeiras habitações entregues pelo Governo às vítimas dos terramotos, numa cerimónia presidida pela Presidente interina, Delcy Rodríguez, no complexo militar de Fuerte Tiuna, em Caracas. 

Os registos apontam para 17.265 pessoas desalojadas e 23.335 pessoas estão atualmente a viver em 107 acampamentos temporários instalados em estádios, praças ou passeios, por vezes sem acesso a água corrente nem a instalações sanitárias. Acampamentos que têm sido fustigados por chuvas, uma vez que na Venezuela é inverno e a pluviosidade é muito intensa nesta região do globo.
Socorro internacional 
As Nações Unidas coordenaram mais de dois mil socorristas enviados por 27 países, dos quais 18 da União Europeia (UE), para procurar sobreviventes nos escombros deixados pelos fortes abalos. No total, mais de 40 equipas de busca e salvamento internacionais estiveram no terreno.

Após ter sido ativado o Mecanismo Europeu de Proteção Civil, foram mobilizados para o terreno cerca de 750 operacionais e especialistas oriundos de 18 países da UE.

Portugal enviou 63 elementos da Força Operacional Conjunta (FOCON) para a região afetada. A equipa portuguesa integrou operacionais da estrutura de Comando e da Força Especial de Proteção Civil da Autoridade Nacional de Emergência e Proteção Civil (ANEPC), Regimento de Sapadores Bombeiros de Lisboa, Instituto Nacional de Emergência Médica (INEM) e GNR.

Governo português prepara missão de apoio para reconstrução
O secretário de Estado das Comunidades Portuguesas, Emídio Sousa, disse na quinta-feira que o Governo está a preparar uma nova missão de apoio à Venezuela, na sequência dos sismos de 24 de junho, para ajudar na reconstrução do país.

“Estou a preparar agora uma nova missão, talvez em setembro ou outubro, ainda não tenho uma data precisa. Estarei em articulação com as autoridades venezuelanas para prestarmos apoio na reconstrução do país em setores que se revelem mais carenciados”, disse.

O secretário de Estado das Comunidades Portuguesas precisou que o novo apoio à Venezuela será executado através de empresas, no âmbito dos trabalhos de reconstrução das áreas mais afetadas.

“Aguardo também da parte das autoridades venezuelanas que nos indiquem quais são os setores prioritários, embora não tenha grandes dúvidas de que o setor da habitação, a reconstrução da habitação, será uma das grandes prioridades”, disse, acrescentando que o Governo vai agora “aprofundar” a forma de financiamento das empresas que venham a envolver-se no processo.

“Esse é um dos aspetos que eu terei de aprofundar, porque as empresas, normalmente, quando vão trabalhar têm de ser pagas pelo respetivo trabalho”, referiu.

Entretanto, os Estados Unidos disponibilizaram 386 milhões de dólares (377 milhões de euros) em ajuda de emergência. O Fundo Monetário Internacional (FMI) atribuiu uma primeira verba de 346 milhões de dólares (cerca de 304 milhões de euros) para ajudar a financiar a ajuda humanitária e a remoção dos escombros, bem como os primeiros esforços de reconstrução.

A 15 de julho, a Comissão Europeia anunciou o envio de 20 milhões de euros, verba que se somou aos cinco milhões de euros que já tinham sido aprovados no final de junho e a outros 52 milhões atribuídos "no início do ano para responder às consequências humanitárias da crise socioeconómica da Venezuela".

O Japão contribuiu com o envio de um pacote de ajuda humanitária, incluindo alimentos, bens essenciais e material médico, avaliado em 3,5 milhões de dólares (2,6 milhões de euros).

O secretário-geral da ONU, António Guterres, informou esta semana, através do seu porta-voz, que o plano de resposta humanitária da organização para a Venezuela recebeu 274 milhões de dólares (cerca de 240 milhões de euros).

A iniciativa, dirigida pela Agência das Nações Unidas para a Coordenação de Assuntos Humanitários (OCHA, na sigla em Inglês), pretende ajudar 5,5 milhões de pessoas. Outros países contribuíram com várias toneladas de ajuda humanitária, como foi o caso do Brasil e da Colômbia.

C/agências