Um ‘Cavalo de Troia’ chamado drone?

A decisão de financiar componentes chineses para drones destinados à Ucrânia revela que a autonomia estratégica europeia continua mais ambição do que realidade.

Ainda não foi desta que Donald Trump anunciou o ‘grande adeus’ do Tio Sam à NATO e, para os padrões recentes de tensão entre os dois blocos dos dois lados do Atlântico, Ancara foi até uma cimeira ‘tranquila’. Mark Rutte e os aliados europeus desdobraram-se em anúncios de parcerias e, com um Fórum de Indústria de Defesa a decorrer, não faltaram contratos de muitos milhões a serem fechados com a indústria europeia e norte-americana: 50 mil milhões.

Portugal levou um investimento de 2,01% do PIB na Defesa e saiu de lá com o compromisso assumido por Luís Montenegro de atingir já este ano 3,1%, com investimento militar, mas também em infraestruturas. E com o anúncio de um ‘cheque’ de 50 milhões para apoiar a Ucrânia e os seus esforços de defesa contra a invasão russa.

A Ucrânia, apesar de não ser país NATO, ganhou um novo élan com a sua participação na cimeira. Promessas de Trump para licença de produção de mísseis Patriot e compromissos de apoio e contratos para a produção de drones não faltaram. E o ímpeto de apoio continuou pós-Ancara. Macron reuniu em Paris uma coligação da boa vontade de países dispostos a avançar com uma defesa europeia anti-aérea, incluindo a Ucrânia, e pouco depois foi a vez de Von der Leyen, na sua 11.ª visita a Kiev, anunciar esta semana um acordo de coprodução de drones entre a UE e o país, um reconhecimento da experiência ganha pela Ucrânia na sua luta de quatro anos com Moscovo.

“Na Europa, já dispomos de uma enorme capacidade tecnológica e industrial que pode ser mobilizada, bem como de instalações de produção seguras e confiáveis ​​que podem ajudar a ampliar a escala. No entanto, não possuímos o conhecimento e a experiência de combate que a Ucrânia adquiriu”, justificou a presidente da Comissão Europeia.

Nesse mesmo dia foi feito um novo desembolso de mil milhões de euros, a juntar-se aos 3,9 mil milhões de junho, a segunda tranche de um total de 6 mil milhões dedicados à compra de drones. Foram ainda aprovados 10 mil milhões para financiar drones adicionais, mísseis e caças, “sublinhando o compromisso a longo prazo da UE com a defesa da Ucrânia com uma mais forte e integrada base industrial de defesa europeia”.

O que Bruxelas não disse, mas foi noticiado, é que, exatamente para assegurar a produção de drones que a Ucrânia tanto necessita, terá sido dado luz verde à compra de componentes de drones à China usando parte da tranche de seis mil milhões. Que valor foi permitido gastar fora da indústria europeia e que componentes são esses não é claro, apenas que são considerados como essenciais para travar os avanços russos e atingir alvos estratégicos em território russo, avançou o Financial Times.

Na Europa a tecnologia chinesa tem sido objeto de escrutínio, com receios de que a sua utilização em infraestruturas críticas como telecomunicações possam trazer consigo risco de segurança. Parece que neste caso isso já não acontece. Mas mais do que uma mudança de visão, o que este carimbo de exceção torna evidente é o quão longe está a Europa de uma verdadeira autonomia de defesa. É o chamado choque de realidade.

Esperemos apenas que a decisão não se venha a revelar uma espécie de ‘Cavalo de Troia”. Ninguém está interessado numa repetição da história contada por Homero.

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