Publicidade
Para muitos historiadores, o passado funciona como um grande preditor do futuro, a partir da ideia de que a história inevitavelmente se repetiria em ciclos. Para Sir Niall Ferguson, porém, poucas coisas na história se apresentam de forma cíclica e, portanto, previsível. Ainda assim, se o futuro pode ser iluminado por alguma experiência do passado, é para a Guerra Fria que o mundo deveria olhar em busca de lições.
Em painel que encerrou o primeiro dia da Expert XP 2026, o historiador afirmou que, antes, o confronto era entre Estados Unidos e União Soviética em torno de Cuba; agora, é entre Estados Unidos e China em torno de algo para o qual poucos estariam olhando de fato: Taiwan.
Leia também
Na visão dele, seria importante que as pessoas falassem menos de 1914 e 1939 e mais de 1962, por estarmos mais próximos da crise dos mísseis em Cuba do que de uma guerra mundial.
“É o problema mais perigoso do mundo hoje. Falam muito do estreito de Ormuz, quando deveriam falar sobre o estreito de Taiwan”, disse.
A comparação, segundo ele, faz sentido porque, se mais de 20% do petróleo mundial passa pelo Estreito de Ormuz, Taiwan concentra a produção de semicondutores indispensáveis para grande parte da tecnologia atual — de carros a chips usados em inteligência artificial.
Levando em conta que uma invasão militar direta de Taiwan não seria simples para a China, Ferguson considera possível que Pequim tente dominar a ilha sem disparar um tiro. Um cenário que permitiria isso, por exemplo, seria o controle chinês sobre as negociações envolvendo Taiwan.
Em um caso como esse, afirmou o historiador, seria difícil para os Estados Unidos reunir apoio para reagir a um eventual “controle pacífico” de Taiwan. Na avaliação dele, uma possível “crise de Taiwan” poderia acontecer nos próximos dois anos, justamente durante o governo Trump, o que criaria condições para que a situação ganhasse proporções ainda maiores.
“A China diria: só queremos manter o ‘business as usual’, enquanto os EUA querem explodir a TSMC”, afirmou, em referência à gigante de semicondutores.
IA é desconhecida, mas natureza humana não
O historiador também afirmou que não é possível saber exatamente o que a tecnologia produzirá no futuro, mas que a natureza humana permanece a mesma. Por isso, as dinâmicas de política e poder continuam seguindo padrões conhecidos.
Continua depois da publicidade
“Não importa o que aconteça com a tecnologia, ainda vamos enfrentar dificuldades, porque algumas coisas não mudam”, disse.
Nesse campo, Estados Unidos e China também aparecem como os principais competidores, enquanto a Europa, segundo ele, ficou para trás.
“Não há nenhuma companhia de IA significativa na Europa”, afirmou.
Continua depois da publicidade
Na avaliação de Ferguson, a Europa está tecnologicamente atrasada de forma desastrosa. Embora diferentes regiões do mundo falem em soberania digital, ele argumenta que não há como alcançá-la sem modelos próprios de LLM e sem a infraestrutura necessária para sustentá-los.