Os supercomputadores, concebidos para cálculos complexos a velocidades incomparáveis, são frequentemente utilizados para descobrir e desenvolver novos medicamentos, para previsões meteorológicas, para treinar modelos de IA e realizar uma vasta gama de simulações
A China conquistou o primeiro lugar na lista dos supercomputadores mais potentes do mundo, ultrapassando os Estados Unidos pela primeira vez desde 2017 com um modelo alimentado por chips desenvolvidos internamente, no contexto de uma intensa corrida pela supremacia tecnológica entre as duas superpotências.
A máquina LineShine, localizada no Centro Nacional de Supercomputação em Shenzhen, o polo tecnológico da China, substituiu o detentor do título americano, El Capitan, no mais recente ranking bianual TOP500, que acompanha os supercomputadores mais potentes do mundo.
A classificação divulgada no final de junho mostrou que o LineShine atingiu uma velocidade de computação 20% superior à do El Capitan, que está localizado no Laboratório Nacional Lawrence Livermore, na Califórnia.
Os supercomputadores, concebidos para cálculos complexos a velocidades incomparáveis, são frequentemente utilizados para descobrir e desenvolver novos medicamentos, para previsões meteorológicas, para treinar modelos de IA e realizar uma vasta gama de simulações.
O sucesso do LineShine surge numa altura em que os EUA e a China intensificam a sua rivalidade tecnológica e em que Washington está a tentar restringir o acesso de Pequim a tecnologias de ponta, desde a inteligência artificial a chips que poderiam alimentar as suas forças armadas.
Desde o primeiro mandato do presidente Donald Trump, os EUA intensificaram os controlos e as restrições à exportação, visando abrandar o avanço da China nestas tecnologias.
O Centro Nacional de Supercomputação da China afirmou, em comunicado online, que o LineShine é o “resultado dos avanços numa série de estrangulamentos tecnológicos essenciais”.
As conquistas do LineShine “marcam um salto histórico para o setor de supercomputação da China, ultrapassando as restrições às tecnologias estrangeiras e construindo um ecossistema de hardware e software controlado de forma independente”, adiantou no mesmo comunicado.
Notavelmente, o LineShine depende inteiramente de CPUs – chips de computação convencionais, frequentemente encontrados em electrónica de consumo – em vez de GPUs especializados – os chips altamente cobiçados que alimentam a maioria dos supercomputadores da atualidade e que são dominados por fornecedores americanos como a Nvidia.
Através de uma série de medidas que tiveram início em 2022, Washington cortou o acesso da China aos GPUs de alta gama, limitando os esforços das empresas chinesas para competir pelos melhores modelos de IA com os gigantes tecnológicos dos EUA.
As medidas obrigaram as empresas chinesas a inovar em torno das restrições. No ano passado, a startup de IA chinesa DeepSeek lançou um modelo que oferecia um desempenho próximo do líder do setor com muito menos chips avançados, surpreendendo Silicon Valley e o setor em geral.
Falando na cerimónia de entrega dos prémios TOP500 em Hamburgo, Alemanha, o designer-chefe da LineShine, Lu Yutong, disse que a máquina rompeu com a arquitetura híbrida convencional de utilização de CPUs e GPUs para supercomputadores.
O sistema aproveita a infraestrutura de computação completa desenvolvida internamente, incluindo CPUs e memória de alta largura de banda (HBM), para fins de cargas de trabalho científicas, de engenharia e de IA, disse Lu, de acordo com a declaração citada pelo Centro Nacional de Supercomputação da China.
Desde o lançamento do LineShine, o supercomputador tem sido utilizado para aplicações que vão desde a modelação climática e simulações de engenharia até à descoberta de medicamentos, neurociência e IA, indica o mesmo centro.
Apesar do marco, os especialistas alertam que o novo ranking não deve ser sobreinterpretado como uma medida das capacidades de IA de um país.
"É uma conquista técnica impressionante", assume Andrew Rohl, diretor da Infraestrutura Nacional de Computação da Austrália. "[Mas] não é relevante se está a perguntar 'quem tem a melhor capacidade de IA?' ou 'quem tem a melhor infraestrutura para fazer bem a IA?'. A TOP500 não é um bom indicador disso.”
Rohl explica que o ranking TOP500 se baseia numa base de referência de há décadas, concebida para medir as cargas de trabalho tradicionais de computação científica, em vez da IA moderna. Além disso, muitos dos sistemas de IA mais poderosos construídos por gigantes americanos, como a xAI e a Google, ou supercomputadores operados por importantes instalações de defesa, não entram no ranking, seja por questões de confidencialidade ou por razões económicas, adianta.
Depois de El Capitan, que ocupa o segundo lugar na lista Top500, estão outras duas máquinas americanas em bibliotecas nacionais do Tennessee e do Illinois, bem como uma na Alemanha.
Além dos supercomputadores de topo da lista, países como Itália, Suíça e Japão continuam a ocupar lugares entre os dez primeiros do ranking.