À medida que nos aproximamos da meta de 2030, há uma questão incontornável que cada vez mais temos de colocar: se o mundo que deu origem aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) – multilateralismo, consenso global e paz – já não existe, o que é que esta realidade significa para o futuro do desenvolvimento sustentável?
Esta discussão foi o foco do nosso mas recente (e terceiro) webinar da série de conversas What Comes After 2030?, organizadas pelo Center for Responsible Business and Leadership na Católica-Lisbon SBE. Esta conversa explorou como as crescentes tensões geopolíticas, as mudanças de prioridade económica global, e a crescente fragmentação internacional estão a alterar, de forma profunda, as condições para a prosperidade global. Em vez de perguntar se os ODS falharam, a discussão desafiou um pressuposto ainda mais interessante. Potencialmente não são os ODS que já morreram, mas foi, sim, o contexto em que esperavámos que fossem concretizados, que ficou completamente desajustado a uma realidade onde a prosperidade possa emergir, como mencionou Xue Ng, investigadora da Universidade Monash em Melbourne, Australia.
No mundo empresarial esta discussão traz uma mudança importante. Enquanto os dados nos mostram que os negócios incorporam cada vez mais a sustentabilidade na sua estratégia corporativa, estes usam cada vez menos a linguagem dos ODS e usam com mais frequência linguagens como o ESG, resiliência e mitigação de risco, competitividade e criação de valor. Este “silêncio ESG” não é visto apenas nos negócios, mas em várias áreas da sociedade. Organizações como a OCDE, por exemplo, estão “proibidas” de utilizar a linguagem dos ODS, ou mesmo a palavra “sustentabilidade” nos seus reportes.
Isto acontece porque os ODS são menos importantes? Provavelmente não. Os desafios ambientais (ODS 12, 13, 14,15), sociais, (ODS 1, 2, 3, 4, 5, 6, 7), económicos (ODS 8, 9, 10, 11) e de governança (ODS 16 e 17) são hoje cada vez mais urgentes e importantes. No entanto estes estão cada vez mais silenciados.
Na verdade, os ODS ofereceram uma agenda e direção comum a muitos stakeholders na última década. No entanto, esta agenda, per si, não foi suficiente. A transformação real exige algo mais: condições e incentivos que fomentam a ação. Boa governança, e mudança efectiva. Neste sentido, é importante distinguir entre implementação e transformação. Implementar metas, falando acerca destas, e reportando-as não é o mesmo que transformar a realidade social, económica e ambiental na qual vivemos. Para que isto aconteça, precisamos das condições certas, que são cada vez mais escassas nos dias de hoje. Como Xue Ng mencionou, as empresas podem continuar a mapear os ODS e alinhar as suas estratégias com estes objetivos, mas um impacto significativo vai apenas acontecer se houver uma boa governança mundial que permita a mudança acontecer. Enquanto que os negócios podem, e devem, efetivamente contribuir para esta mudança de forma significativa, as agendas governamentais têm de criar condições que permitam as empresas atuar e contribuir para um futuro melhor. De outro modo, em vez de criarem real valor para todos, as empresas estarão apenas a gerir riscos e remediar as consequências de um ambiente que jamais suportará um progresso de longo prazo para a sociedade.
Perante este cenário, Stephen Klingebiel, diretor de investigação do instituto alemão de desenvolvimento, realçou que para o futuro do ODS temos basicamente três possibilidades: (1) extender o framework atual (o que parece, neste momento, improvável), (2) desenvolver uma agenda com menos objetivos que sejam mais focados, ou (3) um novo sistema que funcione com menores coligações de países, regiões, ou até industrias e que avancem as suas agendas específicas. Na verdade, ainda não sabemos o que irá acontecer, mas temos de nos colocar uma questão fundamental: “como criaremos as condições que possam motivar as organizações, não apenas a implementar iniciativas de sustentabilidade, mas a transformar a forma como criamos valor?”
Num mundo com desigualdade digital crescente, catástrofes ambientais mais frequentes, mudanças demográficas profundas, e crescentes desigualdades sociais, algumas regiões, como África, por exemplo, poderão experimentar trajétorias de desenvolvimento completamente diferentes nas próximas décadas. Serif Kamel, Dean da Universidade Americana do Cairo, referiu ilustrativamente, a agenda ambiciosa de África com o seu plano para 2063 já totalmente definido. Será que este exemplo poderá representar uma possibilidade viável para a terceira hipótese definda por Stephen Klingebiel, como forma de escaparmos à crise de governança global presente?
Como Sherif mencionou, estamos muito melhor hoje do que estavamos em 2015, quando os ODS foram acordados. Mas a mudança deve continuar. Os ODS têm sido úteis, e os seus objetivos não estão mortos. No entanto, estes precisam de ser reconfigurados nas agendas privada, pública e da sociedade civil de formas inovadoras, tendo de, possivelmente, adotar uma nova linguagem, se necessário.
Uma coisa é certa. Nenhum destes objetivos será atingido sem grandes líderes. Mas são também estes líderes que parecem crescentemnte silenciados. Por isso, também precisamos de criar as condições para estes líderes emergirem e começarem a agir.
Como Winston Churchill mencionou, “Coragem é aquilo que nos leva a levantar e falar”. O mundo precisa de pessoas capazes de falarem alto, e mais Líderes Responsáveis que possam surgir. É por este motivo que o Center for Responsible Business & Leadership, na Católica-Lisbon SBE está a investir fortemente em dois novos projetos: um documentário internacional “When the Spotlight Fades”, realizado por Wim Vermeulen, e o Responsible Leadership Research Project, através do qual pretendemos clarificar o que significa Liderança Responsável e como a podemos fazer surgir dentro das organizações.
Os ODS estão longe de ser uma agenda obsoleta. A sua ambição é hoje ainda mais urgente. Deste modo, o que deve mudar é, não o destino, mas sim as condições que nos permitirão atingir esse mesmo destino. Uma transformação com sentido vai depender não de novos objetivos, mas sim da nossa coragem colectiva para criar um mundo onde as nossas metas comuns possam finalmente ser atingidos.
Dois líderes, bem diferentes, podem inspirar-nos neste caminho:José Teixeira, CEO do grupo DST e Winston Churchill.
O primeiro menciou no Reporte Anual do Grupo DST:
“Não é preciso mais. Não é preciso criarem mais documentos sobre as sustentabilidades. Basta começar a enfrentar o seu primeiro objetivo com determinação e, depois, prosseguir até ao décimo sétimo. Primeiro: erradicar a pobreza. Décimo sétimo: fortalecer os meios de implementação e revitalizar a parceria global para o desenvolvimento sustentável. É nesta missão que o grupo dst embarcou de corpo e de espírito”
O segundo lembra-nos:
“Um pessimista vê dificuldades em cada oportunidade; um otimista vê oportunidades em cada dificuldade”
A minha questão para si é: E no seu caso, em que posição fica – na do espectador, do seguidor, ou da liderança?