São Tiago está em Compostela?

Hoje, a Igreja celebra a festa de São Tiago, um dos doze apóstolos de Jesus de Nazaré. Segundo a tradição, São Tiago está sepultado em Compostela, na Galiza, na cidade que recebeu o seu nome e que é, desde há já muitos séculos, o destino de milhares de peregrinos de todo o mundo. Os caminhos europeus que conduzem à suposta sepultura do apóstolo criaram uma rede viária de extraordinária importância, não apenas religiosa, mas também cultural e social.

Este São Tiago é designado Maior para o distinguir do seu homónimo, também apóstolo de Cristo, São Tiago Menor, filho de Alfeu e parente de Jesus. O nome de ambos é de origem bíblica – Jacob era o filho de Isaac e neto de Abraão (Mt 1, 2) – e muito comum. Não estranha, portanto, que, entre os doze apóstolos, houvesse dois Tiagos, como aliás também havia dois Simãos – o que depois passou a chamar-se Pedro e o cananeu – e dois Judas: o Iscariotes, que foi o traidor, e o Tadeu, que é santo (Mt 10, 1-4).

Tiago Maior tinha um irmão igualmente apóstolo: João, o autor do quarto Evangelho, de três epístolas e do Apocalipse, o mais novo dos doze e o último a morrer, já em finais do século I. Ambos eram filhos de Zebedeu e, como seu pai, pescadores no lago de Tiberíades, o mar da Galileia, tal como os irmãos André e Simão, filhos de Jonas. O chamamento dos quatro pescadores deu-se em Cafarnaum, onde viviam (Mt 4, 18-22) e Cristo foi morar, talvez na casa de Pedro, cuja sogra Jesus curou (Mc 1, 29-31).

Entre os apóstolos já havia uma hierarquia, pois só a Pedro foi dada a chefia e representação da comunidade cristã: é sobre esta ‘pedra’ que Jesus constrói a única Igreja que reconhece como sua (Mt 16, 18). Desde então, o Papa é o sinal visível da Igreja de Cristo e a união ao sucessor de Pedro é condição necessária para a ela pertencer. Os filhos de Zebedeu, Tiago e João, também se distinguiram, porque foram, com Pedro, os únicos apóstolos que testemunharam a ressurreição da filha de Jairo (Mc 5, 37), a transfiguração de Cristo no Tabor (Mc 9, 2) e a oração de Jesus em Getsemani (Mt 26, 37).

Tiago e João deviam ser de temperamento forte, o que explica que o Senhor lhes tenha dado um cognome (ou, melhor dizendo, ‘alCunha’, como se verá…) que, a bem dizer, parece mais próprio de peles-vermelhas do que de prosaicos pescadores da Galileia: filhos do trovão (Mc 3, 17)! Não era exagerada a designação, pois eles, indignados por não terem sido recebidos numa povoação de samaritanos, quando iam para Jerusalém, quiseram que o fogo do céu consumisse aquele inóspito lugar (Lc 9, 54). Jesus reprovou o seu desejo de vingança, como também censurou que, por mediação de sua mãe, lhe pedissem os dois principais lugares no reino dos Céus (Mt 20, 20-23). (Esta atitude, tão portuguesa, deveria equivaler a um visto gold, para efeitos de obtenção da nossa nacionalidade, com o óbvio direito ao uso do apelido Cunha).

Havia muitos motivos que justificavam a especial relação de Jesus com o primeiro Papa e com o mais novo dos doze, mas, por que razão Tiago fazia parte deste pequeno grupo?! Talvez por ter sido o primeiro dos doze a sofrer o martírio – mas não a morrer, pois o Iscariotes, embora já não fosse apóstolo, faleceu antes (Mt 27, 5) – como lhe tinha sido profetizado por ocasião da sua malograda ‘cunha’ (Mt 20, 23). Com efeito, por altura da Páscoa do ano 43, ou 44, Herodes Agripa I “mandou prender alguns membros da Igreja para os maltratar. Matou à espada Tiago, irmão de João” (At 12, 1-2).

É breve a história do protomártir dos apóstolos, mas a lenda encarregou-se de a completar. Atribui-se a este Tiago uma vinda à Península Ibérica, para a evangelizar. Parece que o apóstolo esteve prestes a desistir desse seu propósito e, para lhe dar ânimo, a Mãe de Jesus ter-lhe-ia aparecido, ainda em seu corpo mortal, em Saragoça, sobre uma coluna, dando assim origem à devoção a Nossa Senhora do Pilar. No entanto, São Paulo, que não anunciava “o Evangelho onde já tinha sido nomeado Cristo, para não edificar sobre o fundamento de outro”, manifestou a intenção de pregar o Evangelho na Hispânia (Rm 15, 20.28), porque ainda nenhum apóstolo o tinha feito. E o Papa Inocêncio I, em 416, e São Julião de Toledo, em 686, negaram a presença de São Tiago na península.

Mais extraordinária é, contudo, a tradição que respeita à sua sepultura em Compostela, que tanto pode significar compostum, ou cemitério, dada a existência, nesse lugar, de uma necrópole romana; como campus stellae, ou campo da estrela que teria anunciado a presença do corpo do apóstolo. Tendo ocorrido o martírio de São Tiago em meados do século I, consta que foi sepultado em Cesareia da Palestina, ou em Jerusalém. No entanto, por volta do ano 830, descobriu-se na diocese de Iria Flávia, na Galiza, uma sepultura romana, que o bispo Teodomiro afirmou ser a de São Tiago o Maior. Vinte anos depois, em 850, redigiu-se um texto em que, para justificar essa surpreendente descoberta, se afirmou que ‘sete santos’, discípulos do apóstolo, o tinham trasladado para aquele recanto galego. No século XI, uma nova versão do relato reduziu os ‘sete santos’ a apenas dois: Teodoro e Atanásio, que com ele teriam sido enterrados, pois, na dita sepultura, foram encontrados três corpos decapitados. Entretanto, Compostela começou a ser a meta de muitas peregrinações, rivalizando com Roma, onde jazem, com fundamento histórico, os apóstolos Pedro e Paulo, na base das respectivas basílicas maiores.

Em 1986, recém-ordenado sacerdote, fui a Santiago de Compostela, onde rezei com muita devoção ao apóstolo, cuja imagem abracei, segundo a tradição, na companhia de dois amigos padres galegos. Manifestei-lhes então as minhas dúvidas quanto à presença do corpo de São Tiago naquele lugar, tendo em conta a ausência de documentos históricos fidedignos que a comprovassem e os oito séculos decorridos até aos primeiros rumores de que aí estaria sepultado. Ainda hoje recordo que me olharam… como se eu fosse o anticristo! Mas nada foram capazes de dizer a este propósito: há silêncios que são mais eloquentes do que muitas palavras. Graças a Deus, há muitas relíquias cuja autenticidade histórica está cientificamente comprovada, mas nem todas as lendas piedosas têm fundamento histórico: à fé, o que é de fé; e à História, o que é da História.

Seja qual for o paradeiro do seu corpo mortal, é certo que São Tiago Maior não está em Cesareia da Palestina, nem em Jerusalém, nem em Compostela, mas no Céu! Espero que o ‘filho do trovão’, não obstante a sua lendária agressividade, não se vingue deste meu razoável atrevimento e, nas vésperas do 40.º aniversário da minha ordenação sacerdotal, acolha o meu pedido de beber o mesmo cálice de que ele foi, por especial graça de Deus, o primeiro apóstolo a provar.