Árbitro que se 'vingou' dos comunistas morreu no litoral de SP | G1

Nascido em Budapeste, na Hungria, em 1916, João Etzel naturalizou-se brasileiro ainda jovem. O g1 Santos teve acesso a documentos que comprovam que o ex-árbitro viveu em Guarujá, e se casou em Santos, em 1942, com Ieda Barbosa Etzel.

João Etzel Filho — Foto: Revista Placar / Jornal As

Etzel foi um dos principais nomes da arbitragem nacional nas décadas de 1950 e 1960, comandando clássicos e decisões estaduais no futebol paulista. Também está entre os cinco árbitros que mais apitaram Dérbis entre Corinthians e Palmeiras.

🏆Apitou competições como Copa América e Libertadores. Em 1962, foi um dos auxiliares da decisão da Libertadores entre Santos e Peñarol, vencida pelo clube da Vila Belmiro.

Figura influente na Federação Paulista de Futebol, era frequentemente escalado para confrontos internacionais e ficou conhecido por receber "prêmios" oferecidos por dirigentes, algumas vezes dos dois clubes envolvidos, para garantir, ao menos, uma arbitragem considerada imparcial.

O reconhecimento e o bom trânsito na Federação Paulista o levaram naturalmente à arbitragem da Copa do Mundo de 1962, no Chile.

Vingança contra os soviéticos

João Etzel Filho com os capitães de Colômbia e União Soviética — Foto: Jornal As

"Eu empatei aquela partida", disse Etzel em entrevista registrada pelo jornal As.

Seis anos após a morte de Etzel, a edição especial “100 Anos de Futebol Brasileiro”, da revista Placar, publicou, em uma seção dedicada a árbitros históricos, um relato atribuído ao ex-árbitro no qual ele afirmava ter influenciado o resultado do jogo, que chegou a estar 4 a 1 a favor dos soviéticos. Segundo o texto, a motivação seria uma vingança pessoal contra a União Soviética pela repressão à Revolução Húngara de 1956.

🩸 Naquele ano, tropas da União Soviética invadiram Budapeste para sufocar o movimento que buscava libertar a Hungria da influência soviética. Em 5 de novembro, cerca de mil tanques, apoiados por artilharia, aviões e tropas de infantaria, entraram na capital húngara. Aproximadamente 8 mil pessoas morreram e outras 200 mil deixaram o país rumo ao Ocidente.

Revolução Húngara, em 1956 — Foto: Acervo O Globo

Filho de húngaros, Etzel dizia guardar ressentimento pela invasão. Segundo outra reportagem publicada pelo jornal mexicano As, ele afirmava ter participado diretamente de dois dos quatro gols marcados pela Colômbia.

“Eu empatei aquela partida. Sou de ascendência húngara e odeio os russos desde a invasão soviética da Hungria em 1956”, disse Etzel em entrevista registrada pelo jornal As.

O 'esquema' para o Brasil ganhar a Copa

Garrincha foi expulso após acertar um pontapé no jogador do Chile — Foto: Reprodução / FIFA

Olten ainda afirmou que Etzel intermediou o pagamento de US$ 10 mil a Marino. "O João Etzel pegou 10 mil dólares, na época era muito dinheiro. Deu para o Esteban Marino (...) Depois ele me falou: 'Fui eu que ganhei a Copa do Mundo. Fui eu que peguei os 10 mil dólares e levei para o Esteban Marino’", disse. O ex-árbitro também alegou que Etzel reteve metade do valor destinado ao assistente uruguaio.

Décadas antes das acusações, Etzel já havia negado qualquer pagamento. Em entrevista ao Estadão, em 1979, afirmou que Marino recebeu apenas as diárias previstas pela FIFA. Na mesma entrevista, porém, admitiu que tentou convencer o bandeirinha a não registrar a expulsão de Garrincha. "Eu corri para o vestiário, peguei o Marino pelo braço e disse: 'Veja lá o que você vai botar no relatório'."

O capitão Mauro ergue a taça em 62 — Foto: Divulgação/CBF

"Tentaram, mas não puderam me derrubar"

A influência de João Etzel nos bastidores do futebol paulista voltou à tona em 1968, quando o árbitro e jornalista José Astolfi denunciou um suposto esquema de corrupção envolvendo dirigentes e árbitros e apontou Etzel como "o chefe" da organização. Segundo Astolfi, Etzel interferia nas arbitragens para favorecer clubes das divisões inferiores.  

Em entrevista ao Estadão, em 1979, o próprio Etzel admitiu a influência que exercia no futebol paulista. "Mandei, sim. Tive amigos e inimigos. Os inimigos eram poucos, incapazes de me fazer mal. Tentaram, mas não puderam me derrubar. Eram dirigentes ou simples puxa-sacos", afirmou.

Após encerrar a carreira na arbitragem, em 1963, Etzel trabalhou como comentarista esportivo e presidiu a Comissão de Arbitragem da CBF entre 1986 e 1987. Viveu os últimos anos no Guarujá, onde constituiu família e morreu em 1988.

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