A reação do vereador paulistano Carlos Bezerra Jr. (PSD) ao episódio de Duque de Caxias é um bom ponto de partida para pensar o que o Estado tem ensinado às crianças sobre laicidade. Em 3 de julho, durante a abertura de um fórum de conselheiros tutelares no município, o instrutor de um projeto social leu o poema "O abraço de Deus" antes de uma apresentação de dança infantil.
Na plateia estavam crianças, conselheiros tutelares, militantes da área da infância e autoridades públicas. Convidada para a mesa de abertura, a promotora de Justiça Elayne Christina da Silva Rodrigues afirmou ter sido "assolapada por uma oração evangélica", sustentou que a fé seria um "direito privado" e declarou ser "inconstitucional" falar de Deus naquele contexto.
Em seguida, respondeu de forma ríspida a uma mulher que a contestou, ameaçou se retirar e enfatizou que falava ali em nome do Ministério Público. A cena viralizou e gerou representações contra a promotora, além de manifestações de apoio que defenderam sua atuação em nome da laicidade.
Carlos Bezerra questiona: o que aquelas crianças sentiram ao ver adultos discutindo, aos brados, se um poema sobre Deus pode ou não ser lido num evento dedicado a elas? Do ponto de vista sociológico, essa pergunta é decisiva, afinal, a laicidade não é apenas um arranjo constitucional, é também uma pedagogia pública.
Por meio de gestos, interrupções, aplausos e constrangimentos, o Estado e seus agentes ensinam, cotidianamente, o que é aceitável crer e expressar na vida social. Num fórum voltado à garantia de direitos da infância, o modo como uma autoridade reage diante de crianças a um texto religioso torna-se uma aula prática sobre religião e espaço público.
Quando crianças testemunham a fé de suas famílias sendo tratada como algo impróprio naquele espaço, sua própria identidade é deslegitimada. Ao indagar "quem pensou nas crianças?", o vereador não desvaloriza a importância do Estado laico, tampouco prega em favor de um Estado confessional. O que ele contesta é a forma pela qual a salvaguarda da laicidade é encenada diante de cidadãos que ainda se encontram em fase de formação.
Para aquelas crianças, o que se inscreve na memória não é um debate sobre liberdade de consciência, mas a cena de uma representante do Ministério Público dizendo que mencionar Deus naquele espaço é errado. É a experiência vivida, não o argumento jurídico, que molda o imaginário delas sobre religião e esfera pública.
Outra atitude significativa de Carlos Bezerra Jr consiste em rejeitar a cultura do "cancelamento" direcionada à promotora. Divergindo de demais figuras políticas que exigem sanções severas, o vereador propõe aprofundar o debate sobre tolerância democrática e laicidade, evitando convertê-la em adversária a ser banida da discussão pública.
Isso desloca a controvérsia do terreno punitivo para a área formativa. Em vez de responder à intolerância com mais intolerância, trata-se de criar condições para que agentes públicos revisem interpretações e práticas sem serem sumariamente expulsos da esfera pública.
Numa sociedade religiosa como a brasileira, a laicidade pode ser vista menos como exclusão e mais como arranjo de convivência: um Estado que não impõe uma fé, mas também não hostiliza a presença pública das crenças de sua população. A intervenção do vereador lembra que a questão não é expulsar Deus da praça, nem capturá-la para uma fé; é aprender a sustentar, nos espaços públicos, o desacordo civilizado sobre Deus, o Estado e nós mesmos.
As crianças nos obrigam a reexaminar que modelo de laicidade estamos praticando diante delas. Quando a defesa do Estado laico se traduz em humilhação pública de expressões religiosas, perde-se não apenas a sutileza constitucional, mas a chance de educar uma geração para uma democracia capaz de suportar as diferenças.