Quem foi Olivia Guedes Penteado - 16/07/2026 - Andanças na metrópole - Folha

Os encontros no palacete de dona Olívia Guedes Penteado (1872-1934), na esquina das ruas Conselheiro Nébias e Duque de Caxias (hoje avenida), no bairro Campos Elíseos, foram os mais badalados e frutíferos de São Paulo na década de 1920.

Por ali circulavam escritores como Oswald de Andrade, Mário de Andrade, Menotti del Picchia e o suíço Blaise Cendrars, artistas plásticos como Tarsila do Amaral, Anita Malfatti, Lasar Segall e Victor Brecheret e compositores como Heitor Villa-Lobos.

Olívia ficou para a história como uma das principais incentivadoras do modernismo no Brasil. Fez o que pode para estimular a chama criativa dos novos talentos locais. Criou um ambiente fértil para a troca de informações e a revolução estética.

Especialmente para receber seus convidados, instalou um pavilhão na antiga cocheira de seu palacete. Chamado de salão moderno, tinha o teto pintado por Segall e funcionava como um espaço de convivência e debates para os artistas e intelectuais, muitos deles participantes da Semana de 1922. Nele, Olívia também expunha seu acervo pessoal de telas, desenhos e esculturas, que incluía obras de Pablo Picasso e Fernand Léger.

Olívia fez o pavilhão porque considerava que sua mansão em estilo clássico, construída por volta de 1900 com projeto do arquiteto Ramos de Azevedo, não era adequada para a turma modernista e destoava da nova arte que ela procurava promover.

A importância de Olívia pode ser medida pelo apelido que recebeu dos frequentadores do seu espaço: Nossa Senhora do Brasil. Ela comprava obras dos artistas e organizava saraus e expedições culturais pelo país. Uma dessas expedições teve como destino as cidades históricas mineiras e Cendrars como participante ilustre. Outra foi para a Amazônia com a presença de Mário de Andrade.

Olívia era filha do cafeicultor José Guedes de Sousa, o poderoso barão de Pirapitingui, e descendente do bandeirante Fernão Dias Paes Leme. Tinha uma vasta fortuna. Passou longos anos de sua vida em Paris. Sua primeira temporada na capital francesa começou em 1888, quando se casou, aos 16 anos, com seu primo-irmão Ignácio Penteado. Só voltou ao Brasil em 1894, já com duas filhas.

A segunda temporada na França começou em 1914, depois da morte de Ignácio. Nessa fase de grande agitação social, envolveu-se com círculos intelectuais e artísticos na cidade. Teve contato com vários mestres da pintura, como o próprio Picasso.

Era uma mulher cosmopolita. Quando voltou para São Paulo, em 1923, aproveitou a efervescência que havia na cidade para atuar como uma aglutinadora de forças criativas. Foi fundamental para aumentar a conexão dos brasileiros com as vanguardas europeias.

Trazia na bagagem um conhecimento e a comovente escultura "La Mise Au Tombeau" ou "O Sepultamento", de Victor Brecheret, premiada no Salão de Outono de Paris naquele mesmo ano. A obra, uma Pietà esculpida em granito, adorna o seu túmulo e o do marido no cemitério da Consolação.

Além de mecenas, Olívia teve uma importante atuação política. Destacou-se na campanha sufragista e conseguiu eleger a primeira mulher deputada constituinte, a médica Carlota Pereira de Queiroz. Também se engajou firmemente na Revolução Constitucionalista de 1932. Ela morreria dois anos depois, vítima de uma apendicite.

Seu emblemático palacete e o pavilhão modernista foram demolidos em 1944 por causa das obras de ampliação da avenida Duque de Caxias. Posteriormente foi erguido em parte do terreno o luxuoso hotel Comodoro, cujo prédio continua de pé e abriga hoje um condomínio residencial.

LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul abaixo.