Professores fazem denúncia à Comissão Nacional de Proteção de Dados sobre tratamento de dados pessoais

Movimento cívico MetaProf diz que novo modelo de classificação digital levanta dúvidas quanto às garantias de proteção dos dados pessoais de alunos e professores classificadores e exige "intervenção urgente"

Um movimento de professores apresentou uma denúncia à Comissão Nacional de Proteção de Dados (CNPD) pedindo a abertura de um inquérito ao processo de classificação digital dos exames nacionais e provas finais por acreditar que existem irregularidades.

Na queixa, a que a Lusa teve acesso, o movimento cívico MetaProf sustentou que o novo modelo de classificação digital levanta dúvidas quanto às garantias de proteção dos dados pessoais de alunos e professores classificadores, defendendo por isso uma "intervenção urgente" da CNPD.

A MetaProf pede à CNPD que abra um inquérito ao tratamento de dados pessoais no âmbito da digitalização, distribuição e classificação eletrónica dos exames nacionais e provas finais do 9.º ano, alegando existirem "irregularidades, indícios e omissões" que podem configurar violações do Regulamento Geral sobre a Proteção de Dados (RGPD).

Após analisarem documentos e com base em relatos de professores classificadores, o movimento identificou oito grupos de irregularidades.

Um deles diz respeito à empresa externa contratada para tratar da plataforma de distribuição e classificação de exames e que a queixa entende ter sido uma "subcontratação crítica sem garantias de segurança demonstradas".

A denúncia sublinha que a empresa responsável desde 2018 - a Blat - Creative Powerhouse - tinha em 2024 apenas 14 funcionários e uma faturação inferior a 580 mil euros, o que "a qualifica como microempresa por dimensão".

Os professores recordam dois episódios: Uma notícia que revelava que, em tempos, a empresa teria sido alvo de um alegado ciberataque e o facto de, já no início deste mês, a plataforma ter estado suspensa por recomendação da Deloitte e após detetarem "uma fragilidade de segurança cuja natureza não foi esclarecida publicamente".

O movimento conclui assim que se levanta "uma questão objetiva de proporcionalidade entre a dimensão e a maturidade de segurança do subcontratante e a criticidade da função que lhe foi confiada".

A denúncia acrescenta ainda não ser do conhecimento público que tenham sido exigidas à Blat certificações de segurança da informação, auditorias independentes ou cláusulas contratuais de resposta a incidentes.

O movimento considerou por isso que a CNPD deve verificar se os contratos com os subcontratantes cumprem as exigências do RGPD e garantem a segurança adequada.

A denúncia esta sexta-feira apresentada aponta também alegadas falhas de integridade e autorização na Plataforma de Classificação e Supervisão (PCS), da responsabilidade do EduQa, lembrando que os próprios serviços reconheceram haver problemas com a contagem de respostas atribuídas aos classificadores e citando relatos de provas que desapareceram e voltaram a surgir classificadas por outros professores.

Os outros problemas passam pela ausência de qualquer referência ao RGPD nas normas que regulam a confidencialidade e operacionalização dos exames, que não mencionam o regulamento, a CNPD nem a expressão "dados pessoais", lê-se na queixa.

O MetaProf pede ainda à autoridade que apure se ocorreu exposição de dados relativos às Medidas de Suporte à Aprendizagem, esclareça qual o modelo de controlo de acessos implementado nas plataformas, identifique formalmente o responsável pelo tratamento dos dados e o encarregado de proteção de dados e determine os prazos de conservação e eliminação da informação.

Este foi o primeiro ano em que a maioria dos exames nacionais, cerca de 300 mil, passou a ser corrigida em formato digital. Embora as provas continuem a ser realizadas em papel, são digitalizadas e distribuídas aos professores através da PCS e de uma segunda plataforma gerida por um fornecedor externo.

O documento questiona ainda a ausência de uma avaliação de impacto sobre a proteção de dados, dúvidas sobre os mecanismos de autenticação utilizados pelos classificadores e a eventual exposição de informação constante das Fichas A e das Medidas de Suporte à Aprendizagem, que podem conter dados pessoais de categoria especial.