Não quero que ninguém mande em mim, e não quero mandar em ninguém. Tudo o resto é rodapé.
Escrevi há tempos porque não sou de esquerda. Fiquei a dever a outra metade: dizer o que sou, e porquê. Este é o artigo mais pessoal que publico aqui, porque começa com uma confissão: o meu liberalismo não começou num livro; começou no estômago.
O temperamento
Tenho, desde que me lembro de existir, uma necessidade visceral de ser independente e autónomo. Não é uma posição filosófica; é quase uma condição médica. Tenho uma dificuldade enorme com a autoridade — não com a competência, que respeito e procuro, mas com a autoridade enquanto tal, a que exige obediência pelo posto e não pela razão. Desde muito novo que persegui a independência financeira, porque percebi cedo que quem depende obedece, e eu não estava disposto a obedecer. Trabalhei e comecei a investir no segundo ano da faculdade e nunca parei; a poupança nunca foi, para mim, prudência contabilística — foi compra de liberdade a prestações.
E o espelho disto, que considero a parte mais importante: detesto mandar. Detesto o “porque eu digo” na boca dos outros e detesto-o ainda mais na minha. Como pai, como professor, como gestor, sempre que me apanho a invocar o galão em vez do argumento sinto que perdi. Exigir que alguém acate sem discutir parece-me uma pequena violência — e uma confissão de fraqueza: quem tem razões apresenta-as; quem não tem, manda.
O meu liberalismo inteiro nasce aqui, e cabe em duas frases: não quero que ninguém mande em mim e não quero mandar em ninguém. Quero viver numa sociedade de adultos, em que cada pessoa é dona da sua vida, das suas escolhas e das consequências delas, e em que o único limite legítimo à liberdade de cada um é não prejudicar os outros — o velho princípio que Stuart Mill fixou em 1859 e que continua a ser a regra de trânsito mais civilizada alguma vez escrita. Deirdre McCloskey diz que o liberalismo é, no fundo, a teoria de uma sociedade de adultos — nem senhores nem tutores nem pupilos. É a melhor definição que conheço. Tudo o que se segue neste artigo são as razões que fui encontrando, ao longo de sessenta anos, para confiar no meu estômago.
A razão
Estudei economia, e a economia fez-me uma coisa curiosa: não me tornou liberal — explicou-me porque é que eu tinha razão em sê-lo. Aprendi que o facto central da história material da humanidade é o crescimento económico: durante milénios, quase toda a gente viveu na miséria, e de repente, há dois séculos, o rendimento do homem comum multiplicou-se por trinta. Aprendi que esse milagre não caiu do céu nem saiu de um plano: dependeu de instituições que protegem a propriedade e cumprem contratos, de ideias que dão dignidade a quem cria, e de políticas que deixam a experimentação acontecer. E aprendi os dois teoremas que sustentam tudo: que o conhecimento está disperso por milhões de cabeças e não pode ser centralizado — pelo que os preços são um sistema nervoso, não uma conspiração — e que os incentivos mandam, sempre, em toda a parte, mesmo quando fingimos que não.
E aprendi, pela mesma via, porque é que o socialismo falha. Não por azar, não por maus executores, não por ainda não ter sido “bem tentado”, mas por desenho. Mises demonstrou-o em 1920, antes de qualquer experiência soviética madura: sem propriedade privada não há preços verdadeiros, e sem preços verdadeiros é impossível calcular — o planeador central não é malvado, é cego. O resto do século XX limitou-se a confirmar a demonstração com uma amostra trágica: dezenas de milhões de mortos de fome e de fuzilamento, sempre em nome do homem novo e do amanhã radioso. Insisto num ponto que me parece essencial e que os meus amigos de esquerda levam a mal: concedo de bom grado a boa intenção. É precisamente isso que me assusta. Um sistema que parte de intenções nobres e chega, uma vez após outra, em geografias e culturas diferentes, ao racionamento e ao arame farpado, não está a ser traído — está a funcionar. A guilhotina não foi o acidente da Revolução; foi a sua conclusão lógica. Quando se acredita que o homem é naturalmente bom e as instituições o corrompem, quem toma o poder em nome da bondade natural fica autorizado a tudo — e quem resiste não é adversário, é inimigo da própria natureza. O meu liberalismo é, também, a recusa dessa autorização.
A história que me calhou ver
Tive a sorte de coincidir com a maior demonstração empírica do século. Cresci com Thatcher e Reagan na televisão — figuras de quem a inteligência oficial portuguesa fazia troça e que, vistas daqui, estavam simplesmente a ganhar a Guerra Fria e a reanimar duas economias moribundas. Na noite de 9 de novembro de 1989 assisti, incrédulo, à queda do Muro de Berlim: gente da minha idade, às marteladas num muro construído para a impedir de sair, enquanto os guardas — os guardas! — olhavam sem saber o que fazer. Quem viveu os anos que se seguiram sabe o que era aquela eletricidade: tudo parecia possível, o mundo abria-se, meio planeta saía da jaula ao mesmo tempo, centenas de milhões de pessoas saíam da pobreza extrema em cada década. Não foi uma promessa; aconteceu, e eu vi.
E depois vi o refluxo. O medo a ganhar ao entusiasmo, os muros novos — de betão nuns sítios, de tarifas e regulamentos noutros — os homens-fortes de regresso, o Estado a crescer em cada crise e a nunca devolver o que tomou, a vigilância a normalizar-se ao ponto de, no passado dia 9 de julho, a União Europeia ter aprovado a inspeção das mensagens privadas de todos os cidadãos contra a maioria dos votos expressos no seu próprio Parlamento. A lição que tiro das duas metades da minha vida é de que temos que combater a complacência: a liberdade não é o estado natural das coisas. É uma conquista improvável, recente e reversível. A minha geração viu-a ganhar e está a vê-la perder. É por isso que escrevo.
O trabalho que faço
As convicções que não custam nada, não valem nada, por isso deixem-me dizer onde pus os meus anos e os meus recursos.
Tenho dedicado boa parte da vida a projetos de educação — a transformação da Nova SBE e a contrusção do seu campus, a escola 42, os centros TUMO — e faço-o por duas razões que entendo serem profundamente liberais.
A primeira: uma sociedade de adultos precisa de cidadãos capazes de o ser — pensantes, autónomos, donos de si — e a escola que forma repetidores de matéria forma súbditos, não cidadãos.
A segunda, e mais funda: acredito que o talento está distribuído por toda a sociedade — nasce tanto em Campo de Ourique como em Campo Maior, tanto no filho do médico como no da empregada de limpeza — mas as oportunidades não estão. E um liberal consequente não se pode conformar com isso, porque a meritocracia em que acredito só é verdadeira se a partida for justa. Não acredito em igualdade de resultados, que só se fabrica cortando as pernas a quem corre mais, acredito ferozmente em igualdade de oportunidades — e um liberal que não trabalha por ela não está a defender o mérito, está a defender privilégios com vocabulário bonito. As escolas que ajudei a construir são a minha resposta: sem propinas, abertas a quem aparece e faz, indiferentes ao apelido. É o liberalismo em obra: dar a cada um a chave da sua própria vida — e depois sair da frente.
A tradição
Finalmente, li os clássicos — tarde, com a fome de quem descobre que a sua intuição tinha dois séculos e meio de bibliografia. E descobri que há duas tradições a disputar o nome “Iluminismo”, e que toda a política moderna descende da escolha entre elas.
A tradição francesa parte de Rousseau. O homem é naturalmente bom, as instituições corrompem-no; arrase-se o herdado e a razão desenhará, em folha limpa, a sociedade perfeita. A tradição anglo-escocesa parte da premissa oposta. O homem é o que é — capaz de simpatia e de egoísmo, falível, incorrigivelmente humano — e a arte da liberdade consiste em construir com esse material real, não com o material sonhado.
- Locke: os direitos à vida, à liberdade e à propriedade precedem o Estado, que é criado para os proteger e demitido quando os viola.
- Hume: a moral assenta na natureza humana como ela opera, não como devia operar. Smith: o interesse próprio, devidamente canalizado pela concorrência, serve quem nunca conheceremos.
- Burke, que em 1790 — antes do Terror — previu o Terror, porque percebia que as instituições herdadas guardam a sabedoria acumulada dos mortos, que não se recupera depois de destruída.
Os federalistas americanos, que leram todos estes e construíram um sistema para conter a natureza humana em vez de esperar pela sua correção — os pesos e contrapesos não são um defeito de desenho, são o que se constrói quando não se acredita em reis-filósofos. De um lado, 1776 e uma república constitucional que dura há 250 anos — escrevi sobre ela no aniversário. Do outro, 1789 e, em sequência, o Terror, Napoleão, a Comuna e, via Marx, a catástrofe inteira do século XX. O mesmo século, os mesmos livros, o mesmo vocabulário de razão e liberdade — e uma única diferença na premissa sobre a natureza humana, da qual tudo o resto decorre. Sou, sem hesitação nem nuance, do partido anglo-escocês: de Edimburgo contra Paris, da humildade contra o plano, de 1776 contra 1789.
Dentro dessa tradição, devo nomear os meus.
Bastiat foi a revelação — o panfletário genial que em meia dúzia de páginas ensina mais economia do que um semestre: o que se vê e o que não se vê, a janela partida, e a definição que devia estar gravada no frontão de São Bento: o Estado é a grande ficção através da qual toda a gente se esforça por viver à custa de toda a gente.
Hayek foi a arquitetura — o problema do conhecimento, a ordem espontânea, a estrada da servidão, a presunção fatal. E foi Hayek quem me explicou a mim próprio. A minha alergia à autoridade é, afinal, epistemologia — ninguém sabe o suficiente para mandar, e o meu estômago sabia-o antes de mim.
Sou liberal, também, por humildade. É a única filosofia política que começa por admitir que quem manda pode estar errado, e desenha tudo o resto a partir dessa admissão — nisso é irmã gémea da ciência de Popper, conjeturas e refutações, uma sociedade aberta onde os governos se substituem sem sangue como as teorias se substituem sem fogueira.
Dos vivos, leio Deirdre McCloskey — que documentou como o Grande Enriquecimento nasceu de uma mudança de ideias e de dignidade, e que escreve como os anjos escreveriam se tivessem lido Smith — e Thomas Sowell, o grande professor dos trade-offs: não há soluções, só compromissos, e a pergunta “comparado com quê?” desmonta metade das indignações do nosso tempo. E tenho o privilégio de ser amigo e co-autor de John Cochrane, cujo blogue, The Grumpy Economist, é o que a análise económica devia ser sempre: Rigorosa, impaciente e sem medo de ser impopular. São estes os meus mortos e os meus vivos. Reparem no que não está na lista: nenhum utopista, nenhum desenhador de sociedades perfeitas, nenhum dono da História. É deliberado.
E devo acrescentar à lista um vivo que não é autor, mas político — espécie rara nestas páginas, porque a política raramente perdoa as convicções. Admiro Javier Milei. Sei que é controverso, é em boa parte por isso que o admiro. Num ofício desenhado para limar as arestas de quem o pratica, escolheu ser inconveniente. É um político que acredita em ideias — cita Mises, Hayek e Bastiat no exercício do cargo, e governa a partir delas — que anunciou o que ia fazer, fez o que anunciou e aceitou pagar o preço da impopularidade pelo caminho. Não faço dele santo, nem subscrevo cada gesto ou cada palavra, faço dele o exemplo de que precisamos: contra a política dita “pragmática”, que segue as sondagens como um cão segue o dono, a demonstração de que ainda é possível ganhar eleições a dizer verdades desconfortáveis — e governar sem pedir desculpa por ter convicções. A Thatcher também chamaram “controversa”. É o nome que se dá aos corajosos enquanto estão vivos.
O que o liberalismo não é
Antecipo as objeções do costume, porque meio século de caricatura merece resposta.
O liberalismo não é anarquismo. Quero um Estado forte naquilo que só o Estado pode fazer — tribunais rápidos, defesa séria, regras claras, uma rede de segurança digna para quem cai — e ausente do resto. O Estado português é simultaneamente obeso e fraco, e as duas coisas estão relacionadas. Não é pró-mercado, é pró-empresas, o que é quase o contrário — o empresário instalado adora regulação que afogue o concorrente que ainda não nasceu, e o capitalismo de compadrio dos ajustes diretos e das rendas garantidas é o meu inimigo tanto quanto o socialismo. Escrevi as Confissões de um Boy sobre isso.
Não é egoísmo dos ricos. O Grande Enriquecimento foi, de longe, o melhor que alguma vez aconteceu aos pobres — quem vem de baixo tem mais razões, não menos, para amar o sistema que multiplicou por trinta a vida de quem trabalha.
E não é uma utopia de sentido contrário. O mercado falha, claro que falha — mas é o único sistema conhecido que corrige os próprios erros continuamente, por falência e não por fuzilamento, e a diferença entre corrigir por falência e corrigir por fuzilamento é, no fim de contas, toda a civilização.
O meu credo
Resumo, então, aquilo em que acredito, para que conste. Creio que cada pessoa é dona da sua vida, e que essa frase não tem asterisco. Creio na sociedade de adultos, liberdade com responsabilidade, escolha com consequência. Creio que a riqueza se cria, que quem a cria merece gratidão e não desconfiança, e que a inveja vestida de justiça continua a ser inveja.
Creio que ninguém sabe o suficiente para mandar — a começar por mim. Creio nas instituições que herdamos e melhoramos, contra os planos que arrasam e prometem.
Creio que o talento nasce em toda a parte e que a nossa obrigação é fazer com que a oportunidade também.
Creio que a liberdade é reversível, que a minha geração a viu ganhar e a está a ver perder, e que isso me obriga.
E creio, no fim como no princípio, no que o estômago sempre soube. Não quero que ninguém mande em mim, e não quero mandar em ninguém. Tudo o resto é rodapé.