Um acontecimento curioso se repete toda vez que um veículo publica qualquer conteúdo relacionado ao futebol feminino. Não importa se o assunto é sobre uma jogadora eleita a melhor do mundo ou a proximidade de uma Copa do Mundo. Antes mesmo que a discussão se volte ao esporte, ela é tomada por outro fenômeno: uma enxurrada de comentários tentando diminuir a modalidade.
“Quem assiste isso?”
“Ninguém liga.”
“É muito chato.”
A reação é tão cansativa e previsível que já parece fazer parte da pauta. E talvez seja justamente aí que esteja a questão mais interessante. Porque, se o futebol feminino fosse realmente tão irrelevante quanto afirmam seus críticos, dificilmente despertaria uma necessidade tão grande de ser desqualificado. A verdade é que a indiferença costuma ser silenciosa. O incômodo, por outro lado, faz barulho.

E é difícil encontrar outro esporte que provoque esse comportamento. Por exemplo, uma postagem sobre vôlei raramente é invadida por fãs de basquete dizendo que aquela modalidade não deveria existir. Notícias sobre ginástica artística não recebem centenas de comentários exigindo mais cobertura da natação. Mas basta uma publicação sobre mulheres jogando futebol para que muitas pessoas sintam a necessidade de reafirmar, quase como um mantra, que aquilo não é entretenimento, não é competitivo ou simplesmente não merece espaço.
A justificativa mais comum costuma ser a diferença de nível técnico em relação ao futebol masculino. À primeira vista, parece um argumento racional. Mas ele perde força quando observamos como o público consome esporte na prática. Milhões de pessoas acompanham campeonatos estaduais, divisões inferiores, categorias de base e equipes boas vivendo temporadas tecnicamente desastrosas. O interesse esportivo nunca esteve condicionado apenas à excelência técnica. Ele passa por identidade, pertencimento, narrativa, paixão e representatividade. Se a qualidade fosse, de fato, o único critério, boa parte do calendário esportivo simplesmente não teria audiência.
Há ainda um aspecto histórico que costuma ser convenientemente ignorado. Enquanto o futebol masculino passou mais de um século acumulando investimento, estrutura, categorias de formação, patrocínio, transmissão e desenvolvimento tático, as mulheres brasileiras foram oficialmente proibidas de praticar futebol durante quase quarenta anos. Entre 1941 e 1979, uma legislação impediu que elas jogassem modalidades consideradas “incompatíveis com sua natureza”. Ou seja, a modalidade feminina não começou atrasada por falta de interesse. Ela foi deliberadamente impedida de evoluir.
Ainda assim, cobra-se que apresente hoje o mesmo nível de um esporte que jamais enfrentou esse tipo de bloqueio institucional. Veja, é como comparar duas maratonistas exigindo que cruzem juntas a linha de chegada, ignorando que uma delas foi obrigada a permanecer parada durante boa parte da corrida.
Mas talvez o aspecto mais revelador dessa discussão seja outro. O futebol feminino incomoda porque ele desafia uma ideia que durante décadas pareceu incontestável: a de que o futebol pertence aos homens. E quando um espaço historicamente masculino deixa de ser exclusivo, a resistência raramente aparece assumindo sua verdadeira forma. Ela costuma vestir o discurso da “falta de qualidade”, do “desinteresse do público” ou da “liberdade de opinião” e outros blá-blás. São argumentos que, muitas vezes, escondem um desconforto muito maior: o de ver mulheres ocupando um território que durante muito tempo lhes foi negado.

O mais contraditório é perceber que parte dessa resistência também vem de mulheres. Mulheres que conhecem, na própria pele, os efeitos de estruturas que durante décadas limitaram sua presença em diferentes profissões, esportes e espaços de poder. Ainda assim, reproduzem o mesmo discurso que tantas vezes foi usado para afastá-las de outros lugares.
É evidente que ninguém é obrigado a gostar de futebol feminino. Da mesma forma que ninguém precisa gostar de tênis, hóquei ou automobilismo. Preferências esportivas são individuais. O problema começa quando a simples existência de uma modalidade passa a provocar um esforço coletivo para deslegitimá-la. Porque, nesse momento, a discussão deixa de ser sobre gosto. Ela passa a ser sobre quem acreditamos que merece ocupar determinados espaços.