O centro de São Paulo está em transformação. Uma população jovem passou a ocupar os antigos edifícios da região e novos negócios da economia criativa se instalam em espaços antes abandonados e deteriorados. É um movimento positivo, aparentemente irreversível, que traz para a região ares de modernidade e vitalidade urbana. Muita gente quer morar por ali e usufruir suas delícias.
Há, porém, um fantasma que atazana seus novos e velhos habitantes e frequentadores: os moradores de rua. Eles insistem em mostrar diariamente que o problema não está resolvido, que a cidade ainda é injusta e que a pobreza não pode ser apagada num piscar de olhos. Eles estão em todos os lugares, deitados na calçada, caminhando para pedir dinheiro e cigarros ou sentados em alguma praça.
Pesquisa do Datafolha de 2024 mostrava que essa era a questão mais crítica da região para 93% de seus moradores. Em segundo lugar vinha o problema dos usuários de droga.
A região central é uma síntese da cidade. Expõe num mesmo ambiente a desigualdade social e as virtudes e mazelas da metrópole. Não é um lugar para idealizações. Basta andar um pouco para esbarrar em alguém deitado na calçada sob um cobertor. Agora, com o frio do inverno, paira sobre essa pessoa a ameaça de mais doenças e morte.
A região é conveniente para os moradores de rua, embora a população que vive nos apartamentos retrofitados no local muitas vezes não se conforme. Há lixo abundante para os catadores, marquises para se abrigar, locais para observar a multidão e ver o tempo passar, distribuição de alimentos pela prefeitura e por organizações sociais e muita gente disposta a dar algumas moedas. É também um ambiente de sociabilidade para a população abandonada. A praça da Sé é um desses pontos de encontro, assim como a praça do Patriarca.
Na semana passada, tive duas conversas em que meus interlocutores reclamaram do excesso de "mendigos" na região. Falou-se deles com ojeriza, como se todos fossem potenciais criminosos. Destacou-se também o fato de eles mexerem nos lixos e o problema estético que representam para o centro, com seus corpos e roupas sujas. Essas falas foram demonstrações de aporofobia, aversão aos pobres.
O informe técnico do Observatório Brasileiro de Políticas Públicas com a População em Situação de Rua (OBPopRua), da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), com base nos dados de pessoas registradas no CadÚnico, dava conta de que 96 mil pessoas viviam nessas condições de penúria, em maio de 2025, na capital paulista, número equivalente ao da população de uma cidade brasileira média.
O último censo da prefeitura, feito em 2021, computava 31,8 mil moradores de rua na cidade, com maior concentração na região central. Mas diferentes métodos de levantamento e análise dificultam a comparação dos dados. A gestão atual promete para breve o recenseamento.
O problema é complexo. As políticas públicas dirigidas para essas pessoas são insuficientes para reinseri-las na sociedade. Os albergues também não comportam todos os desabrigados, além de serem rejeitados por muitos deles, que preferem a liberdade e a falta de regras das vias públicas. Mais triste ainda é ver o aumento da quantidade de famílias, casais com filhos, vivendo ao relento.
Resta saber como eliminar essa contradição de uma região que prospera com a proliferação de miseráveis. O que fazer para ter uma cidade mais humana? De 2000 para cá, todos os censos municipais apontaram um crescimento do número de pessoas em situação de rua em São Paulo em relação ao relatório anterior. Isso confronta a sensação de evolução urbana, derrubando a fantasia de um lugar asséptico.
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