Convenção reuniu familiares e aliados do senador, oficializou a candidatura sem anunciar vice e teve ataques ao STF, ao governo Lula e ao socialismo.
Flávio Bolsonaro durante a convenção do PL para oficializar sua candidatura à Presidência. — Foto: Reuters/Jean Carniel
O Partido Liberal (PL) oficializou neste sábado (25), em São Paulo, a candidatura do senador Flávio Bolsonaro à Presidência da República. Em seu primeiro discurso como candidato, Flávio prometeu honrar o legado do pai, Jair Bolsonaro, fez ataques ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e ao Supremo Tribunal Federal (STF), afirmou que o Brasil foi "sequestrado" e prometeu "libertar o país desse cativeiro".
Também defendeu o endurecimento da legislação penal e disse esperar receber do ex-presidente a faixa presidencial em janeiro de 2027.
A convenção reuniu familiares, aliados e lideranças da direita. O evento teve um vídeo produzido com inteligência artificial para simular um pronunciamento de Jair Bolsonaro, uma manifestação de apoio da ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro e um discurso do presidente da Argentina, Javier Milei.
Esta é a primeira candidatura presidencial de Flávio, filho mais velho de Jair Bolsonaro. Senador eleito em 2018, foi deputado estadual no Rio de Janeiro por quatro mandatos e disputou a Prefeitura do Rio em 2016, quando terminou em quarto lugar (leia o perfil).

'Bolsonaro de IA' manda mensagem para Flávio em lançamento de candidatura
Flávio promete 'libertar o Brasil'
Em um discurso de cerca de 15 minutos, Flávio afirmou que sua candidatura representa a continuidade do projeto político de Jair Bolsonaro e classificou o pai como "o maior líder da direita que esse país já teve". Disse que o ex-presidente sofreu três tentativas de ser "eliminado": a facada em 2018, a prisão e, agora, o isolamento imposto pela Justiça.
Ao longo da fala, o senador fez ataques ao Supremo Tribunal Federal (STF), especialmente ao ministro Alexandre de Moraes, a quem voltou a acusar de perseguir adversários políticos e restringir a liberdade de expressão.
Também afirmou que, se Lula for reeleito, poderá indicar mais quatro ministros para a Corte e disse que isso colocaria em risco a liberdade de imprensa, a atuação de parlamentares de oposição e a manifestação de cidadãos nas redes sociais.
Flávio também atacou o governo Lula, afirmou que o Brasil foi "sequestrado" e prometeu "libertar o país desse cativeiro". Segundo ele, a eleição de 2026 será uma disputa entre aqueles que defendem a liberdade e os que buscam concentrar poder.
Em tom emocionado, prometeu dar continuidade ao legado do pai. "Pai, eu vou te honrar. E você vai colocar essa faixa de presidente em mim em janeiro do ano que vem."
Na reta final do discurso, apresentou propostas de campanha. Defendeu a redução de impostos, o fortalecimento de uma maioria de centro-direita no Congresso, penas mais duras para criminosos, a responsabilização de adolescentes autores de crimes graves, o aumento das penas para agressores de mulheres e a castração química para condenados por estupro de crianças.
Jair Bolsonaro aparece em vídeo criado por IA
Convenção do PL exibe vídeo feito por Inteligência Artificial de Bolsonaro — Foto: Reprodução
A convenção exibiu um vídeo produzido com inteligência artificial para simular um pronunciamento de Jair Bolsonaro, que cumpre prisão domiciliar.
Na gravação, o ex-presidente afirma estar "preso e calado por uma decisão arbitrária", diz que "nenhuma prisão vai calar o sentimento de esperança" despertado por seu movimento e pede que os apoiadores recebam Flávio "de braços abertos" como candidato à Presidência.
"Estou preso e calado por uma decisão arbitrária. Nenhuma prisão vai calar o sentimento de esperança que despertamos."
O vídeo também reforça que Flávio representa a continuidade do projeto político do pai.
Convenção do PL para lançar Flávio Bolsonaro — Foto: Reprodução/Youtube/PL
Família Bolsonaro marca presença
Entre os familiares presentes estava Rogéria Bolsonaro, mãe de Flávio e ex-esposa de Jair Bolsonaro. Indicada como primeira suplente de Márcio Canella (União Brasil) na disputa pelo Senado no Rio de Janeiro, ela foi apresentada no palco durante a abertura do evento.
Eduardo e Carlos Bolsonaro participaram por meio de vídeos gravados.
Dos Estados Unidos, Eduardo pediu união em torno da candidatura do irmão.
"Vamos vencer essa eleição, soltar Bolsonaro e anistiar os presos de 8 de janeiro."
Ao encerrar a gravação, afirmou:
"Não há mais tempo para ego, projeto pessoal. É Flávio Bolsonaro eleito."
Carlos destacou a relação com o irmão e disse confiar nele para dar continuidade ao legado político do pai. Flávio chorou enquanto assistia à mensagem.
Michelle sela reconciliação com Flávio

Michelle envia vídeo para convenção do PL, reforça papel da mulher e cita Flávio uma vez
Michelle Bolsonaro participou da convenção por meio de um vídeo, na primeira manifestação pública de apoio à candidatura do enteado desde o rompimento entre os dois, encerrado nesta semana após um pedido público de desculpas do senador.
Sem citar o desentendimento, a ex-primeira-dama afirmou que permaneceu em casa para cuidar de Jair Bolsonaro e disse que a ausência do ex-presidente "fala muito mais alto" por representar milhões de brasileiros que depositaram confiança nele.
Michelle também defendeu maior participação feminina na política, afirmou que a eleição será decidida pelo trabalho das lideranças locais na conquista dos eleitores indecisos e citou Flávio apenas uma vez durante o discurso.
"Flávio, que Deus abençoe e proteja sua candidatura."
Mesmo após deixar a presidência do PL Mulher, Michelle segue em destaque no espaço dedicado ao núcleo feminino montado na convenção. Um totem instalado no local exibe uma imagem dela ao lado de Jair Bolsonaro.
Esposa ganha espaço na campanha
A esposa de Flávio, a cirurgiã-dentista Fernanda Bolsonaro, também discursou.
Segundo apuração do g1, a campanha decidiu ampliar a participação dela nos atos públicos e nas peças de divulgação nas últimas semanas. Integrantes da equipe avaliam que a presença da esposa do candidato reforça sua imagem familiar.
A estratégia ganhou força após a circulação, nos bastidores da campanha, de rumores sobre um suposto vídeo de conteúdo sexual atribuído ao senador. Aliados afirmam que a mudança busca neutralizar os efeitos políticos dessas especulações.
No palco, Fernanda disse que falava como mulher, mãe, cirurgiã-dentista e brasileira. Brincou com a falta de experiência em discursos — "Estou até com uma colinha" —, arrancando risos da plateia, e afirmou que o marido está "muito consciente da missão" que assumiu.
Ela defendeu o combate ao feminicídio, criticou a carga tributária enfrentada por empreendedores e afirmou que "ninguém aguenta mais quatro anos de PT".
Ao final, dirigiu-se ao marido:
"Meu amor, eu vou sempre estar ao seu lado. Eu e nossas filhas temos muito orgulho da coragem de você seguir nessa missão e do homem de Deus que você se tornou."
Milei declara apoio a Flávio e diz que senador pode 'parar Lula'

Com discurso 'anti-socialista', Milei participa de lançamento de candidatura de Flávio
Convidado de honra da convenção, o presidente da Argentina, Javier Milei, fez um discurso em defesa da liberdade econômica e com ataques ao socialismo.
Ao agradecer o convite de Flávio Bolsonaro, afirmou que o Brasil vive uma disputa entre "a liberdade" e a continuidade de um modelo de "submissão" e disse que o resultado da eleição terá consequências pelas próximas décadas.
Milei afirmou que a experiência argentina serve de alerta para outros países e atribuiu a crise econômica de seu país às políticas de governos socialistas. Segundo ele, esse modelo provocou aumento da pobreza, da inflação, do déficit fiscal e das regulações estatais, além de aproximar a Argentina de "ditaduras e terroristas de diversas partes do mundo".
O presidente argentino também afirmou que o socialismo destrói os incentivos econômicos, impede famílias e empresas de planejarem o futuro e leva jovens a acreditar que "o único projeto de vida é emigrar ou resignar-se à pobreza".
Ao declarar apoio à candidatura de Flávio, Milei afirmou que o senador é "a pessoa que hoje pode parar Lula" e liderar "uma verdadeira mudança para todos os brasileiros". Também disse confiar "plenamente" em Flávio, a quem chamou de "filho de um amigo", em referência a Jair Bolsonaro.
Na parte final da fala, voltou a defender o ex-presidente brasileiro. Disse lamentar não ter conseguido visitá-lo por causa das restrições impostas pela Justiça, comparou a situação com a de Luiz Inácio Lula da Silva (PT), que recebeu líderes estrangeiros quando esteve preso, e classificou a prisão domiciliar de Bolsonaro como uma injustiça de "caráter vingativo".
Ao encerrar o discurso, afirmou esperar reencontrá-lo em breve e repetiu seu bordão:
"Viva la libertad, carajo."
Javier Milei discursa em SP durante a convenção que lançou a candidatura de Flávio Bolsonaro — Foto: Reuters/Jean Carniel
Flávio é oficializado sem anunciar vice
Flávio Bolsonaro não anunciou quem ocupará a vaga de vice. Ele tem dito que gostaria de uma mulher na chapa, mas afirma que a definição depende das negociações para formação de alianças, que também podem ampliar o tempo de propaganda eleitoral no rádio e na TV.
A federação formada por PP e União Brasil e o partido Republicanos vêm indicando que preferem se manter neutros. Um acordo com o Republicanos poderia levar a economista Daniella Marques à vaga de vice. Filiada à legenda, ela foi presidente da Caixa no governo Bolsonaro e coordena o núcleo econômico da pré-campanha de Flávio.
No PP, um dos nomes cotados é o da deputada federal Simone Marquetto, liderança católica de São Paulo. A senadora Tereza Cristina já descartou formar chapa com Flávio.
O PL é o partido com mais deputados federais e senadores e, se não fechar coligações, pode anunciar uma chapa "puro-sangue", com Flávio e mais um nome da sigla. A data limite para definir isso é 15 de agosto.
Antes de Flávio, o empresário Renan Santos (Missão) já havia sido anunciado candidato à Presidência. O vice será Aroldo Medina.
Outros pré-candidatos ainda vão realizar suas convenções:
- Ronaldo Caiado (PSD): domingo (26), em São Paulo, com Gilberto Kassab de vice.
- Romeu Zema (Novo): segunda-feira (27), em Brasília, sem definir o vice.
- Lula (PT): 2 de agosto, em São Paulo, com Geraldo Alckmin de vice.
Flávio Bolsonaro foi escolhido candidato pelo pai
Flávio Bolsonaro é empresário e advogado e tem 45 anos. Em dezembro, anunciou que havia sido escolhido pelo pai para disputar a eleição como representante da família e herdeiro político.
Desde então, a Quaest apontou uma queda de Flávio, após o caso “Dark Horse”, quando veio à tona que ele cobrou dinheiro do ex-banqueiro preso Daniel Vorcaro para financiar um filme sobre o pai. Na pesquisa deste mês, Flávio aparece com 28% no 1º turno, doze pontos atrás de Lula.
Na última quinta (23), o ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), autorizou a PF a investigar os repasses de Vorcaro e se esse dinheiro ou parte dele foi usado para bancar despesas de Eduardo Bolsonaro, irmão de Flávio, nos Estados Unidos. Um outro inquérito, autorizado pelo ministro Flávio Dino, apura se houve desvio de emendas parlamentares em favor da produtora do filme.
Tarifaço, Michelle e ataque às urnas
A ruptura, naquele momento, representou um problema para Flávio porque Michelle tem influência entre mulheres e evangélicos, grupos considerados fundamentais para a candidatura.
Quando anunciou que seria candidato, Flávio se apresentou como uma versão moderada do pai. "Sempre pediram um Bolsonaro mais moderado. Eu sempre fui assim, eu sou esse Bolsonaro mais moderado, equilibrado, centrado", afirmou a empresários em dezembro.
Nas últimas semanas, porém, endureceu o discurso nas críticas ao STF, após ser proibido de visitar o pai por 90 dias pelo ministro Alexandre de Moraes. A decisão foi tomada após Flávio divulgar uma carta em que o ex-presidente indicou o filho como porta-voz e reiterou apoio à candidatura. Moraes considerou que Bolsonaro violou as condições da prisão domiciliar e promoveu propaganda eleitoral.
Na última semana, em reunião com diplomatas em Brasília, Flávio repetiu informações falsas sobre as urnas eletrônicas, já desmentidas pelo TSE.
Caso das rachadinhas e compra de mansão
O inquérito começou após a identificação de movimentações financeiras atípicas na conta de Fabrício Queiroz, seu ex-assessor. As provas do caso foram anuladas depois, porque tribunais superiores decidiram que ele tinha direito a foro privilegiado, por ser parlamentar.
Quando era investigado, o senador comprou uma mansão de R$ 6 milhões em Brasília e financiou parte do valor com o Banco de Brasília (BRB). Flávio diz que o negócio foi legal e que adquiriu o imóvel com recursos próprios. Documentos apresentados pelo banco em 2024 apontaram que o empréstimo já foi quitado pelo parlamentar, 27 anos antes do previsto.
Propostas apresentadas na campanha
Durante a pré-campanha, Flávio apresentou propostas para a segurança e, mais recentemente, um programa de ações voltado ao público feminino.
O plano "Brasil sem Medo" reúne ideias como reduzir a maioridade penal, classificar facções criminosas como organizações terroristas e a castração química para condenados por estupro.
O programa para o público feminino foi batizado de "Brasil por Elas" e apresentado ao lado de Daniella Marques durante live no YouTube. As propostas incluem ampliar o acesso à internet para mulheres e uma linha de microcrédito para empreendedorismo feminino.
Flávio diz que, se for eleito, vai trabalhar pela anistia do pai, condenado a 27 anos de prisão por golpe de Estado. Em várias ocasiões, afirmou que gostaria de receber a faixa presidencial de Jair Bolsonaro, na cerimônia de posse.