Críticas aos penduricalhos encabeçaram o debate sobre funcionalismo público em redes sociais nos últimos 12 meses. O tema gera consenso entre esquerda e direita e concentra no Poder Judiciário a insatisfação com o supersalários.
É o que aponta o relatório "Funcionalismo Público na Arena Digital", feito pelo Observatório Lupa a pedido da República.org. O levantamento reúne dados coletados de julho de 2025 até junho de 2026.
O período mostra o impacto da decisão do ministro do STF (Supremo Tribunal Federal) Flávio Dino em limitar remunerações acima do teto constitucional. A medida foi tomada em fevereiro e causou um aumento nas menções a penduricalhos em posts e mensagens.
Foram dois tipos de dados levantados pela Lupa. Uma das coletas, com a ferramenta Meltwater, centrou-se em postagens nas redes sociais feitas por perfis públicos.
A outra coletou dados em grupo de aplicativos de mensageria, como WhatsApp e Telegram com auxílio da ferramenta Open Measure.
O relatório aponta que a crítica aos supersalários correspondeu a quase metade das menções sobre temas ligados ao funcionarismo público nas redes, superando discussões sobre qualidade de atendimento, eficiência da administração ou condições de trabalho dos servidores.
Foram cerca de 935 mil conteúdos publicados sobre o funcionalismo em redes sociais ou aplicativos de mensagem no período. Desses, 47,2% (442 mil) mencionam penduricalhos, diz o levantamento. Foram especificamente 439 mil posts e 3.500 mensagens analisadas.
Conforme afirma Beatriz Farrugia, pesquisadora da Lupa responsável pelo estudo, as redes e os serviços de troca de mensagens funcionam como ambientes distintos. As redes sociais são como vitrines, e as mensagens, como clubes privados.
Entretanto, há uma diferença em como o tema circula nesses dois ambientes. Segundo o levantamento, há duas "macronarrativas" sobre o tema.
Nas redes sociais abertas, é mais comum a leitura de que "o problema do Brasil são os privilégios da elite pública, não os programas sociais".
"Nas redes sociais, foi unânime a condenação dos penduricalhos. Não importa onde estejam no espectro político, as pessoas condenam os penduricalhos. Já nos aplicativos de mensageria, também condenam, mas há uma narrativa culpando o governo federal atual", explica Beatriz.
A maioria das publicações desse grupo apresenta características de conteúdo orgânico e espontâneo, produzido por usuários de diferentes espectros políticos, diz o relatório.
Já nas mensagens, é apontatada uma instrumentalização partidária do tema. A segunda macronarrativa, presente nesses conteúdos, diz que "o governo Lula expandiu e tolerou os penduricalhos".
Beatriz afirma evitar previsões, mas diz que aplicativos de mensageria podem funcionar como teste de narrativa política. Segundo o relatório, esses aplicativos "favorecem interações mais fechadas e baseadas em relações de confiança entre os participantes".
Outro ponto de convergência apontado pelo relatório é a identificação do Judiciário, principalmente, e do Congresso, em segundo lugar, como uma "casta" ou "câncer". Esses Poderes representariam uma elite descolada da realidade.
Nas 442 mil menções feitas nas redes, as palavras de maior peso e relevância volumétrica são: Flávio Dino, STF, Brasil, Judiciário, Congresso, CNJ (Conselho Nacional de Justiça), teto constitucional, licença compensatória e dinheiro público.
Questionada sobre os efeitos eleitorais, Beatriz afirma que o tema tende a ser explorado. Segundo ela, aplicativos de mensagem tendem a ser laboratórios de discursos políticos que podem ser mobilizados durante a campanha.
"É um tema [penduricalhos] que todo político sabe que o eleitor vai ser contra, o penduricalho. Então, os partidos ficam brigando entre si para se atribuir como o grande opositor", diz.