Passei anos a olhar para o lago das medusas no meu fundo de ecrã. A realidade foi outra coisa

Numa época em que quase qualquer pessoa no mundo pode encomendar a mesma cómoda do Ikea e o mesmo café da Starbucks, parece milagroso que ainda existam criaturas vivas que só podem ser encontradas num ponto muito pequeno e específico da Terra.

Koror, Palau — Uma mancha rosa fluorescente aparece no meu campo de visão.

Apesar de estar a usar uma máscara de snorkel, estou a prender a respiração. Lentamente, a mancha aproxima-se cada vez mais antes de, de repente, se insuflar como um balão. A água rodopia no pequeno rasto que deixa e o sol brilha por cima de nós.

É o momento mais descontraído que alguma vez senti na minha vida adulta — e só tive de viajar até ao outro lado do mundo para o conseguir.

A mancha, embora parecesse cor-de-rosa aos meus olhos debaixo de água, é uma medusa dourada. Se esta fosse outra viagem de snorkel noutra parte do mundo, avistar uma medusa seria um sinal de alerta, com um guia a afastar-nos para impedir que alguém fosse picado. Mas este pequeno ser é especial. Não só não pica, como pertence a uma espécie rara e bela que só existe aqui, neste único lugar: um lago no remoto país insular da Micronésia chamado Palau.

Antes de saber que Palau existia, ou que queria lá ir, a minha viagem começou com uma fotografia.

Uma fotografia de um lago cheio de pequenos organismos dourados a flutuar pacificamente em massa foi, durante muito tempo, uma das imagens de fundo padrão dos computadores e iPhones da Apple.

Embora não tivesse qualquer contexto sobre onde a fotografia tinha sido tirada ou o que mostrava, parecia hipnótica. Foi o meu primeiro protetor de ecrã no meu primeiro portátil.

Numa época em que quase qualquer pessoa no mundo pode encomendar a mesma cómoda do Ikea e o mesmo café da Starbucks, parece milagroso que ainda existam criaturas vivas que só podem ser encontradas num ponto muito pequeno e específico da Terra.

Oficialmente, chama-se Ongeim’l Tketau, mas toda a gente lhe chama simplesmente Jellyfish Lake, ou Lago das Medusas. Embora existam muitas espécies de medusas em todo o mundo, as condições únicas deste lugar permitiram que as medusas douradas prosperassem.

As medusas douradas alimentam-se de algas e seguem o percurso do sol para obter mais alimento. Kunhui Chih/Creatas Video/Getty Images

Com 400 metros de comprimento e 30 metros de profundidade, o lago é “completamente estratificado”, explica a bióloga marinha Elspeth Strike. Isto significa que tem três camadas distintas e separadas de água, cada uma com condições muito diferentes. Só a camada superior tem oxigénio e, por isso, consegue sustentar vida.

“No mundo, há apenas 11 lagos marinhos estratificados desta forma, por isso é bastante especial”, diz Strike.

Não são apenas as condições da água que tornam este ambiente tão favorável para estes organismos. O lago fica no meio de uma ilha rochosa de calcário, que criou uma espécie de depressão natural. Ao longo de milhares de anos, a chuva ácida encheu essa depressão e formou um lago. Pequenas fissuras no calcário permitem que alguma água do oceano se misture com a água do lago, criando condições que só existem naquele ponto.

E embora as medusas douradas sejam a principal atração, há outra espécie que também vive neste lago: as medusas-lua, de tom branco opaco. Algumas pessoas referem-se às duas espécies como medusas da lua e medusas do sol.

As medusas-lua são mais achatadas, com a forma de pires e um centro em forma de flor ou estrela. Vi uma ou duas medusas-lua por cada dez douradas, mas também é possível que fossem simplesmente mais difíceis de detetar.

Chegar ao Lago das Medusas não é uma simples escapadinha de fim de semana.

O pequeno aeroporto de Palau recebe apenas alguns voos por dia. A opção mais fácil e acessível para mim foi viajar via Taipé. Palau é um dos poucos países que mantêm relações diplomáticas formais com Taiwan, pelo que os dois territórios estabeleceram fortes ligações aéreas e chegaram mesmo a criar uma bolha de viagens durante a pandemia.

Depois de aterrar em Koror e assinar o “Palau Pledge”, o compromisso da ilha para agir de forma ecológica e culturalmente sensível, segue-se uma viagem de barco de uma hora até à ilha de Eil Malk e depois uma caminhada íngreme de mais 10 ou 15 minutos até chegar ao lago.

À chegada, pede-se aos visitantes que tirem a roupa e os sapatos, sacudam os bolsos e deixem para trás qualquer coisa que possa interferir com a água — mesmo que seja apenas um pouco de pó.

Vista aérea do Lago das Medusas. imageBROKER/Shutterstock

Eil Malk é uma das Ilhas Rochosas de Palau classificadas pela UNESCO, que também albergam o primeiro santuário de tubarões do mundo. Palau leva a conservação tão a sério que os viajantes têm de cumprir regras rigorosas, incluindo usar apenas protetor solar aprovado e seguro para os recifes, e os plásticos de utilização única estão proibidos em todo o país. São necessárias licenças para visitar o lago, que podem custar até cerca de 87 euros por pessoa, valor que muitas vezes já está incluído no preço do aluguer de um barco por um dia.

Mas o percurso até lá faz parte daquilo que torna o Lago das Medusas tão absolutamente de outro mundo. O meu grupo, composto por oito pessoas a fazer snorkel e dois guias, era o único grupo humano no lago numa tarde ventosa de janeiro. Parecia que éramos as últimas pessoas na Terra.

Embora Palau seja um dos grandes destinos mundiais para mergulho com garrafa, essa atividade é proibida no Lago das Medusas.

Este ecossistema delicado exige cuidados especiais. O snorkel é permitido, porque mantém as pessoas em segurança na camada superior. Por baixo dessa camada existe uma camada intermédia de bactérias roxas e, abaixo dela, uma “zona morta”, onde absolutamente nada consegue sobreviver devido aos elevados níveis de sulfureto de hidrogénio.

A boa notícia é que estas pequenas criaturas douradas estão apenas a alguns centímetros da superfície da água. O truque para as encontrar é ficar perto da luz — as medusas migram ao longo do dia, seguindo o sol de que precisam para se sustentar, por isso basta dirigir-se às zonas mais luminosas do lago.

Não há predadores no Lago das Medusas, o que ajuda a proteger a espécie. Benjamin Lowy/Getty Images

Strike, a bióloga marinha, trabalha com o Four Seasons Explorer Palau, um resort flutuante, e guia muitos dos seus hóspedes até ao Lago das Medusas.

Sem surpresa, muitos viajantes querem conseguir a sua própria versão da famosa fotografia do lago das medusas. A imagem foi captada quando a população de medusas era muito superior à atual, pelo que é improvável que qualquer fotógrafo amador consiga captar tantas num único enquadramento.

Em média, as medusas medem cerca de 13 centímetros de largura. Mas, quando se “insuflam”, podem esticar-se até ao tamanho do rosto de uma pessoa, como um balão dourado e elástico debaixo de água. Algumas pessoas tentam “agitar” ou soprar sobre as medusas para as fazer expandir, algo que Strike desaconselha devido ao potencial dano que isso pode causar a organismos delicados, compostos por 95% de água.

Embora tivesse levado comigo uma câmara subaquática, a fotografia passou a ser a última coisa em que pensei. Simplesmente flutuar, em sintonia com a água e com estas criaturas especiais, que parecem deslizar ao som de uma música inaudível, é uma experiência de verdadeiro zen. Brilhavam contra a água turva, entre o verde e o azul.

A autora, à esquerda, e uma amiga observam uma medusa em movimento. Lilit Marcus/CNN

As medusas de Palau são hoje ainda mais veneradas, depois de um período em que pareceu que poderiam desaparecer por completo. O fenómeno meteorológico El Niño, que afeta a direção dos ventos e as temperaturas da água no Pacífico, atingiu duramente Palau em 2006.

A precipitação diminuiu, aumentando a salinidade do lago e perturbando o ecossistema delicado de que estes organismos precisam para sobreviver. Durante vários anos, a população de medusas douradas caiu de forma tão significativa que alguns especialistas recearam que a espécie desaparecesse para sempre.

Graças ao trabalho cuidadoso de cientistas e habitantes locais de Palau, isso não aconteceu.

O lago reabriu aos turistas em 2019. Hoje em dia, as medusas douradas são tanto um símbolo de orgulho nacional em Palau como a própria bandeira.

Na verdade, o nome científico destas criaturas é mastigias papua etpisoni, em homenagem a Ngiratkel Etpison, que foi presidente de Palau entre 1989 e 1993.