NOS Alive, dia 2: os Foo Fighters de sempre, uma Zara Larsson surpreendente

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INÊS LACERDA/OBSERVADOR

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Ao segundo dia, um festival esgotado para ver os americanos num alinhamento que foi de vencedor a repetitivo. Já a cantora sueca deixou uma certeza: o hype é real. Este sábado há Buraka.

11 jul. 2026, 09:20

Desde a sua formação em 1994 que tem havido uma constante na já longa vida dos Foo Fighters: excluindo os dois primeiros discos, primorosas cápsulas de rock alternativo a procurar novos caminhos para lá do grunge, o projeto de Dave Grohl tem-se pautado pela quantidade e não pela qualidade. Não é que tenham alguma vez lançado algo “mau”, mas a fórmula tem sido a de gravar álbuns onde os singles são consideravelmente mais inspirados que as restantes canções. À partida, para um concerto ao vivo, isso não é problema; separa-se o trigo do joio e apresentam-se os grandes êxitos. No entanto, quando se opta por uma atuação com quase duas horas e meia, é porque essa filtragem não funcionou. Foi o que aconteceu nesta segunda noite do NOS Alive, onde o grupo de Seattle entusiasmou mas também exasperou.

Admitamos desde logo que apontar o dedo a Dave Grohl é entendido por muitos como coisa de mau tom. Não obstante as recentes polémicas a envolver a sua vida pessoal, o guitarrista ainda conserva a aura do tio fixe do rock, de sobrevivente dos excessos do grunge tornado guardião de um género musical cuja morte há largos anos tem sido repetidamente decretada, mesmo que nunca chegando a ter a devida certidão de óbito. Parece sempre, portanto, que apontar falhas aos Foo Fighters é um exercício de snobismo, mas passe toda a simpatia que possamos ter pelo ex-baterista dos Nirvana, é um exagero colocar o seu projeto ao nível de contemporâneos como os The White Stripes ou os Queen of the Stone Age.

A terminar a sua digressão europeia no Palco NOS, a banda veio jogar em casa neste festival, o mesmo que a acolheu em 2017 e 2011 e que esgotou este segundo dia em grande parte para assistir ao seu regresso nove anos depois. De um ponto de vista da performance, o sexteto demonstrou alguns sinais de cansaço — especialmente Grohl, que a espaços pareceu algo esbaforido, a esforçar a voz —, que entretanto desapareceram assim que a banda ficou mais quente em palco. Este início algo titubeante esteve sem dúvida relacionado também com a qualidade de som desequilibrada, fruto do vento generoso, mas também da própria equalização, pouco pujante, sendo que também foi melhorando.

Estas falhas, todavia, foram até negligenciáveis pois ocorreram numa sequência particularmente forte de canções: de All My Life a My Hero, ali estavam milhares a cantar com convicção refrães que todos conhecemos, como os de The Pretender, Times Like These e Learn to Fly. No entanto, foi um arranque tão vigoroso que o resto do concerto sofreu por comparação, já que a cada malha como This is a Call, La Dee Da ou a surpreendentemente aventureira Run, sucediam-se temas medianos como These Days, Walk, The Sky is a Neighborhood ou uma estafada No Son of Mine, cuja energia e interpolação de Ace of Spades (dos Motorhead) não mascararam a falta de substância.

“Somos uma banda há 31 anos, temos muitas canções, vamos tocar tantas quanto conseguirmos”, prometeu Grohl. E cumpriu, chegando até a desencantar algumas surpresas do baú. Uma delas foi Marigold, canção que compôs a solo ainda nos Nirvana e que acabou como lado-B de Heart-Shaped Box do trio e onde é possível verificar nesse ensaio precoce de composição todas as tendências que o artista teria no futuro, para o bem e para o mal. Outra foi um medley onde foram tocados trechos de temas provenientes de bandas cujos vários elementos dos Foo Fighters integraram, de The Germs a Sunny Day Real Estate.

O efeito que esta catadupa teve é que, chegados a Monkey Wrench, apesar de ser outra das mais inspiradas criações dos Foo Fighters, começava-se a instalar a fadiga — que, note-se, não é representativa de todo o público, já que foram muitos a vibrar notoriamente do início ao fim. Por outro lado, não deixou de ser estranho que, num concerto tão extenso, não tenha havido tempo para a banda incluir um tema furioso como White Limo, que serviria para limpar o palato de tanta melodia de rock de estádio. Ou que não tenham tocado canções de um novo álbum lançado em abril deste ano, Your Favorite Toy, ou sequer do anterior, But Here We Are (de 2023), que significou uma nova fase para a banda após a morte de Taylor Hawkins. O baterista, de resto, foi recordado com toda a solenidade em Aurora, que terminou com o seu símbolo — a silhueta de uma águia — em enorme plano nos ecrãs.

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“Se pudéssemos, tocávamos a noite toda, mas não vai ser possível”, declarou o vocalista, não deixando também de dar graças por continuar vivo e há 31 anos nisto. E, na eventualidade dos Foo Fighters darem um concerto de seis horas, a verdade é que provavelmente aguentaríamos esse tempo todo porque Grohl e os companheiros sabem que, deixando o melhor para o fim, é inevitável que se façam todos os sacrifícios. Falamos de Best of You, que espevitou de imediato todos os presentes e levou a um dos maiores coros da noite, e Everlong, canção sublime que não tem qualquer comparação no catálogo da banda e que fez do cruzar de meta um momento glorioso — só estávamos era à espera que fosse uma corrida de meio-fundo e não uma maratona.

Zara Larsson? Acreditem, o hype é real

Qual é a fórmula para o sucesso na pop em 2026? Ninguém sabe verdadeiramente, já que a resposta estará algures na combinação bizantina de algoritmos de TikTok, presença em podcasts e programas, rotação nas rádios e aposta na publicidade e nas plataformas de streaming. Para Zara Larsson, tanto melhor, já que ao fim de 13 anos de carreira, arrisca-se a ser a próxima “big thing” da indústria.

Da primeira e última vez que a cantora sueca de 28 anos esteve em Portugal, abriu os concertos de Ed Sheeran no Estádio da Luz em 2019. À data, era vista como um talento promissor que aproveitou o sucesso num concurso televisivo para catapultar uma carreira na pop e cujo segundo álbum, So Good, dava todas as indicações de que o estrelato estava à vista. No entanto, os anos passaram-se e Larsson, não obstante ter lançado mais dois discos, começou a ver-se remetida para o papel secundário de cantora tecnicamente exemplar mas que só faz ondas quando é convidada para as canções de produtores de música electrónica como Alesso, Kygo ou David Guetta.

Tudo mudaria em 2025, com o lançamento de Midnight Sun. Ao quinto disco, a artista abraçou a estética Y2K com todos os excessos da pop desse período — do electroclash ao trance e até ao drum and bass — e tornou-se uma personalidade viral online. A aposta não só devolveu-lhe a relevância como multiplicou-a, passando a liderar uma espécie de segunda vaga do girly pop summer de 2024, protagonizado por Chappell Roan, Sabrina Carpenter e Charli XCX (estas duas últimas, note-se também andavam a “penar” na segunda liga da pop até então). Junte-se a isso o lançamento este ano de Midnight Sun: Girls Trip, álbum de remisturas que contou tanto com pares a surgir na indústria — PinkPantheress, Tyla e Madison Beer — como nomes consagrados — Robyn e Shakira — e, num ápice, tornou-se demasiado grande para o palco Heineken. Não só estava a abarrotar de gente para lá da uma da manhã como foi ensurdecedor o barulho gerado, chegando mesmo a ouvir-se mais a audiência que a cantora em certas canções.

Sendo tão devedora do sucesso de Midnight Sun (a canção, neste caso), foi com este tema que iniciou e encerrou o concerto, com arranjos distintos. Desengane-se quem pensava que ia ver uma cantora pop a dançar sozinha em palco e com uma faixa a passar estilo karaoke, já que Larsson fez-se acompanhar de uma banda inteiramente feminina e de uma trupe de dançarinas. Além disso, o nível de produção em palco — das coreografias a momentos chave de interação com o público — esteve também incólume, mas sem distrair da música, já que a sueca, sem precisar de backing track para a voz, é um arraso a cantar. Neste aspeto, a comparação mais óbvia (se bem que imprecisa) a fazer seria com a já referida Robyn — que arrasou neste mesmo palco em 2019 —, mas se a autora de Dancing on My Own é mais sofisticada ao estilo da pop nórdica, Larsson vai sobretudo buscar as inflexões vocais ao R&B, principalmente a Beyoncé ou Rihanna.

Ao longo de uma hora vimos Larsson a abanar o corpo de todas as formas e feitios, a ir ao chão em espargata, a tirar selfies e a puxar pelo público, mas também a parar e puxar pelas cordas vocais: Ruin my Life foi um claro destaque, apenas ultrapassada por Uncover, a primeira canção que lançou, acompanhada apenas de piano e com a cantora sentada numa escadaria. Um claro contraste quanto a Ain’t My Fault — encadeada com a lasciva Looking for the Hoes, da rapper Sexyy Red —, onde ligou o provocómetro ao máximo, ou Pretty Ugly, que foi inspirar-se tanto à era bratty de Gwen Stefani que a ex-vocalista dos No Doubt merecia créditos. Depois de uma pulsante Stateside — um dos seus mais recentes êxitos, a meias com PinkPantheress —, Larsson lembrou que, tendo estado nos EUA o ano quase todo, nada melhor que voltar à Europa, com Eurosummer, regada com todo o azeite sónico que Ibiza nos oferece ano após ano. Isto é um elogio.

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Até ao fim do concerto, assistimos ainda a um momento enternecedor em Lush Life, um dos seus primeiros singles, hilariantemente datado e não de forma voluntária e retro como outras das canções. Foi quando subiu um fã em êxtase ao palco e teve direito não só a que Larsson lhe grafitasse a t-shirt como libertou a diva pop em si ao dançar a coreografia deste tema com a cantora e as restantes dançarinas. Ainda houve tempo para Symphony — tema que deixou de ser uma colaboração que fez com os Clean Bandit para ser uma música sua produzida pela banda britânica — antes do derradeiro reprise de Midnight Sun. “O verão é eterno quando vem de dentro”, recordou-nos a cantora. Temos estrela pop, só lhe faltam melhores canções para merecer o prefixo super.

Três tons de rock no feminino

Quer por coincidência, quer por curadoria, apesar dos cabeças de cartaz deste segundo dia do NOS Alive serem um conjunto inteiramente constituído por homens, grande parte do alinhamento viveu de bandas ora inteiramente femininas, ora com uma vocalista na dianteira.

Zara Larsson não foi a única a vir para o Passeio Marítimo de Algés com uma banda com apenas mulheres. Horas antes, a abrir o Palco NOS, as The Warning fizeram jus ao nome e avisaram que são um dos projetos em maior ascensão neste momento no que toca às lides rock & rolleiras. Composto pelas irmãs Daniela (guitarra e voz), Paulina (bateria e voz) e Alejandra (baixo e voz), o trio faz hard rock moderno muito reminiscente dos Royal Blood, mas com mais variação, tendo como principal trunfo a forma como encadeiam as suas vozes e o ocasional saltinho ao espanhol, patente em canções como Que más quieres e Ego.

Assistindo à sua hora de concerto, ficamos com a sensação que já ouvimos todos os seus riffs em algum lado, mas as The Warning compensam com atitude e despretensão, tentando misturar novo e antigo e fazê-los seus. Se MORE recorre à velha tradição de guiar um tema pelo cowbell e Escapism tem aquele tipo de ritmo que foi imortalizado pela Trampled Under Foot dos Led Zeppelin, Ritual e Sharks namoriscam com o metal e o djent. A avaliar pelos temas novos que apresentaram de Everything’s Falling, a sair em agosto, as irmãs estão também a começar a escrever melhores canções, sendo Kerosene e os seus gritos cheerleader o principal exemplo. “Somos três irmãs de Monterrey e adoramos o que fazemos”, afirmaram, e às vezes isso é tudo o que é preciso.

O que as The Warning apresentaram foi um bom aperitivo. Porém, por toda a competência e simpatia que o trio esbanjou, se tivéssemos de escolher, optaríamos pelo magnetismo irresistível de Jehnny Beth no Palco Heineken, vestida qual Jamie Lee Curtis em True Lies. De pôr-se a fazer flexões e depois convidar oito pessoas a vir a palco bater o seu recorde até despir o vestido e expôr o soutien como exercício de poder, a ex-vocalista das Savages podia estar apenas a fazer performance artística que nós comprávamos ingresso. Felizmente, a francesa tem no currículo dois portentos de post-punk e noise rock da estirpe mais agressiva e conspurcada por ritmos industriais para justificar todo o espalhafato. Se praticamente todas as bandas deste dia fazem rock para sorrir, Beth faz rock para mostrar os dentes.

Alguns dos seus temas talvez possam soar algo desconjuntados nas versões gravadas, mas ao vivo resultam com todo o caos que transportam, como Out of My Reach, com um riff à Swans. Outras — Broken Rib e Stop Me Now, à cabeça — apontam diretamente à jugular. A síntese das duas facetas atinge o ápice na sua melhor canção, I’m the Man. Apesar de todo o terror existencial que a sua música contém, Beth faz dos concertos experiências de catarse dançável e, a espaços, até mesmo com moshes promovidos pela própria cantora — que não se fez rogada e, à primeira oportunidade, saltou para o meio do público. A artista voltaria a repetir a façanha mais para o fim, mas não sem antes armar-se em funambulista e andar pela grade de saltos altos. Tudo isto para dizer que é punk até ao osso e merece regressar em nome próprio, até pelas importantes palavras que defende: “O mundo está uma merda neste momento e pode ser assustador, especialmente para os jovens. Mas vocês estão vivos, eu vi que estão, e têm de continuar a estar”, afirmou, prescrevendo um dos mais nobres profiláticos para evitar cair na angústia sufocante, “vão a concertos”.

Por fim, há a destacar o regresso dos Wolf Alice a Portugal, também eles habitués neste festival, estando na sua terceira passagem. As últimas vezes que estiveram no nosso país, todavia, foi em 2022, abrindo para Harry Styles e, meses depois, tocando em nome próprio no Coliseu dos Recreios. Nesse hiato temporal, o quarteto londrino decidiu de uma vez por todas que o shoegaze e o punk eram coisa do passado, agora a moda é Fleetwood Mac mas desinspirado. Não há nada de particularmente errado na toada delicodoce de The Sofa ou num glam à Queen de Bread Butter Tea Sugar, mas não temos como não lamentar quando é a própria banda que nos sinaliza a trajetória que tomou. Em The Last Man on Earth ou How Can I Make It OK? temos teatralidade com gosto e parcimónia, mas que peca por comparação a quando Ellie Rowsell vai buscar o megafone para gritar-nos Yuk Foo na cara ou quando Smile é tocada com gloriosos apontamentos à The Breeders. Ou mesmo quando em Play the Greatest Hits a vocalista perde toda aquela fleuma britânica para disputar com Jehnny Beth quem tem mais talento para berrar-nos na cara. Bem, teremos sempre Lisbon e a sua melancolia.