Ederzito Lopes, conhecido por Eder, foi o jogador que com o seu esforço marcou o golo que fez de Portugal campeão europeu, em 2016. Não foi fácil, como nada na vida do jogador que nasceu na Guiné-Bissau. Uma vida sem desistências nem virar a cara à adversidade. Acha que se aproxima um futuro sem empatia entre os humanos.
Numa entrevista que li sua, dizia que não gostava quando escreviam o seu nome com acento.
O meu nome é Ederzito. O meu pai jogava futebol na Guiné e jogava muito bem. Na altura, havia um jogador brasileiro que era o Eder. Como ele jogava bem, toda a gente chamava o meu pai de Eder. E ele tinha um melhor amigo que se chamava Zito. Então ele juntou Eder, nome pelo qual o tratavam, com o Zito, do melhor amigo. Em homenagem ao jogador e ao amigo, fui registado como Ederzito.
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E como é que foi a passagem de Ederzito a Eder? Foi depois do Europeu?
Desde pequenino. Sempre me chamaram Eder.
Quer dizer, normalmente em criança costumam fazer um diminutivo, a si fizeram um aumentativo.
Se calhar, sem saberem, já percebiam que eu seria alto.
Nasceu na Guiné-Bissau e viveu lá até aos 3 anos. Quais são as primeiras memórias que tem?
As minhas memórias são de passar muito tempo com a minha mãe, porque na altura o meu pai, que veio primeiro, já estava em Portugal. Depois eu vim com a minha mãe. Entretanto, a minha mãe arranjou um namorado e eu vivia com eles. Depois, passado um tempo, o meu pai foi buscar-me e fui viver com o meu pai. Acho que foi no Catujal.
Mas foi muito cedo retirado da sua família e institucionalizado?
Quando eu tinha 5, 6 anos, fui viver para Braga, para um colégio que era da Obra do Frei Gil.
Foi um choque ser retirado da família?
Eu acho que na altura não percebia. Só depois, à medida que fui passando tempo no colégio, é que percebi que não tinha os meus pais comigo. Não tinha aquela envolvência familiar, porque crescia apenas com outras crianças.
E era o único negro no colégio em Braga?
Acho que sim.
A minha defesa era ouvir e ignorar. Mas havia um limite: quando me chamavam ‘preto’, explodia completamente
Nessa altura não sentiu que havia racismo?
Não, porque eu sempre fui muito introvertido, nunca me preocupei com o que estava à minha volta. Fui apenas tentando adaptar-me. Não me lembro de nenhuma situação desse género com as outras crianças, nem com as pessoas que tomavam conta de nós.
Passou depois por uma instituição em Coimbra.
Sim, mas antes disso a Obra do Frei Gil fechou e eu voltei para a casa do meu pai. Mas como ele se fartava de trabalhar e a minha madrasta também, quando vinha da escola, e eles não estavam em casa, pousava a mochila e ia brincar para a rua. Jogar futebol, entre outras coisas. Houve uma altura em que o meu avô veio da Guiné passar uns dias. Ele estranhou o facto de depois de eu vir da escola não ficar em casa. Então, disse ao meu pai que se calhar era perigoso eu estar a brincar na rua àquela hora, sem supervisão. Falou com o meu pai e este decidiu que o melhor para mim era eu ir para um colégio.
E foi para Coimbra?
Sim, quase a fazer 8 anos. Faço anos em dezembro,. Entre os 7 e os 8, fui para Coimbra.
Ficou lá dos 8 aos 18 anos?
Sim. Entretanto, o meu pai foi viver para Inglaterra e eu fui crescendo no colégio. Passou a ser a minha casa, tinha à volta de 60 crianças. Habituei-me a viver com outras crianças. Cresci nesse colégio e foi aí que comecei a moldar-me enquanto pessoa.
E como é que o futebol entrou na sua vida?
O futebol entrou porque o meu pai jogou antes, na Guiné. Acho que o bichinho vem daí. Mas quando fui para Braga, comecei a jogar futebol. Jogava na escola e, sempre que podia, nos intervalos. No colégio jogava muitas vezes descalço, no alcatrão. Depois, quando fui para Coimbra, começou a intensificar-se. Como eram 60 crianças, tínhamos um campo de futebol de areia, tínhamos muito espaço, e foi aí que, realmente, começou.
Era uma vida dura no colégio? Tinha dificuldades de, digamos, comida ou todas as coisas eram dadas?
Sempre tivemos os mínimos. Não em termos de vestuário – o que as pessoas mais davam ao colégio – porque sendo 60 crianças de várias idades é mais difícil distribuir. Algumas coisas faltavam, mas dava-se sempre um jeito.
Quando é que teve dinheiro para comprar a sua própria roupa?
Só consegui comprar muito mais tarde, aos 16 anos, quando trabalhei num restaurante, em Carnaxide, onde a minha mãe trabalhava. Pedi-lhe e fui trabalhar para a copa.
Foi duro esse trabalho do restaurante?
Foi duro porque foi na copa. Mas habituei-me. Estava ali para trabalhar, para ganhar algum dinheiro.
Fez a formação no Adémia, onde entrou com 11 anos, jogou depois no Oliveira do Hospital, mas o primeiro contrato profissional foi no Tourizense, onde começa a ganhar 400 euros.
Foi o meu primeiro ordenado no futebol. Dei uma parte à minha mãe e depois também dei um bocadinho ao colégio. O padre achou que eu devia contribuir, porque eu ainda mantinha lá o meu quarto. No início ainda contribuí, só que depois achei que não sobrava nada dos 400 euros. Era como se não estivesse a trabalhar. Então, saí do colégio e deixei o quarto. Chateei-me com o padre, porque ele achava que eu devia contribuir. Passei a ficar no alojamento do Tourizense.
Depois de jogar no Adémia, no Oliveira do Hospital e no Tourizense, foi difícil progredir e passar para a Académica?
Quando eu era mais novo, tive dificuldades. Não tinha a nacionalidade portuguesa e sempre que me chamavam para fazer um teste eu não podia entrar, porque só podia haver um estrangeiro por equipa. Houve até uma vez que enviaram uma carta para eu ir treinar, e quando cheguei lá encontrei um senhor. Perguntei-lhe: “Onde é que eu posso treinar? Mandaram-me vir aqui treinar.” Ele respondeu que eu era estrangeiro e que não podia treinar.
Sentiu isso como uma injustiça?
Sim, sim, sim. Depois de o meu clube me ter dito que eu tinha de ir lá treinar, impediram-me. Senti que foi uma injustiça pela forma como me disse: não podia treinar por ser estrangeiro. Eu virei as costas e fui-me embora para casa.
Depois disso, esteve um ano sem treinar?
Não, isso já foi mesmo aos 18 anos, quando o Pampilhosa quis contratar-me. Na altura estava na mesma divisão que o Tourizense, eles quiseram contratar-me ao Adémia, e o Adémia não me deu a carta para sair. Eu pedi, eles disseram que não, que eu ia ficar, que me pagavam, mesmo estando na distrital. Houve um treinador que queria pagar-me o mesmo que o Pampilhosa ia pagar-me. Disse: “Não, não quero, acho que tenho de dar o próximo passo na minha carreira, acho que devo ir-me embora.” Eles não aceitaram, e eu disse: “OK, se não me dão a carta, então não jogo.” Na altura, diziam que eu precisava de um ano sem jogar, e depois já podia sair. Então eu disse que não jogava, e fiquei um ano sem jogar.
Pensou em desistir?
Pensei em desistir, como é óbvio, porque a passagem de júnior para sénior é uma fase muito complicada. Pensei em desistir também porque se eu não fizesse nada durante o ano, não estaria em condições de poder ir para o outro lado. Durante dois meses, três meses, não fiz nada mesmo, mas depois senti que devia correr, devia jogar futebol com os meus amigos, devia treinar quando pudesse. Foi o que comecei a fazer. Como eu não queria que ninguém do clube me visse a treinar, decidi correr à noite. Depois de jantar, pegava e ia correr para a estrada à noite. Ia mantendo a forma assim.
O que aconteceu ao fim de um ano?
Passou um ano, surgiu a oportunidade de ir treinar, à experiência, no Tourizense. Foi através de um treinador, o mesmo que queria manter-me no Adémia. Fui, e depois acabei por ficar. No primeiro ano, fiquei os primeiros seis meses. Depois, como tinha vindo de um ano completamente parado, estava com alguma dificuldade, fui emprestado ao Oliveira do Hospital, na terceira divisão. Regresso depois para o Tourizense e faço um ano que me corre bem. Sou um dos melhores marcadores da equipa, e então assino pela Académica que estava na primeira divisão.
Na Académica correu bem?
Não, no início foi difícil. Nunca tinha tido formação, em condições, num clube organizado. Foi difícil passar de um clube como o Tourizense, que estava na segunda divisão B, que é hoje a terceira. Faltavam-me muitas bases. Estive na Académica três anos, e nos dois primeiros anos foi difícil.
Na Académica ganhava quanto?
Na Académica? No primeiro ano foram 1800 euros. À medida que os anos vão passando, passou para 2000 e tal, no último ano para 2700. É engraçado, quando comecei a dar nas vistas surgiram uma série de oportunidades. Falava-se do Everton, falava-se em vários clubes. Tanto é que, em janeiro, estou num hotel a negociar com o West Ham, de Inglaterra.
E só não assina porque o contrato que lhe propõem é diferente daquele que lhe dão para assinar?
Sim. Há uma negociação com o meu empresário e ele transmite-me as condições. Mas quando estou à mesa a negociar, já com os representantes dos clubes, as condições são outras. Eu fico um pouco confuso e desconfortável. Falei então com o empresário e ele aconselhou-me a sair da reunião. Disse que ia à casa de banho e fui-me embora. Deixei todos os meus pertences, a minha carteira, a minha identificação, e saí da reunião. Fui ter com o meu empresário ainda a tentar perceber o que estava a acontecer, dado que o meu sonho era jogar na Premier League.
As condições eram piores?
As condições acordadas eram que eu ia, na altura, por um empréstimo e depois podia ir para outro clube. Na reunião, tinha de fazer dois anos de contrato. Eram melhores. Eu agora percebo que o objetivo do empresário era que eu fosse a custo zero. Porque havia empréstimo. Eu cumpria aqueles seis meses e depois ficava livre para assinar e ele ganhava mais.
Após este incidente, até saiu nas notícias que o “Eder está desaparecido”. Saiu mesmo no telejornal.
A polícia foi bater à porta do hotel, em que estou com o meu empresário, e eu vou à porta dizer que ninguém me raptou. Entretanto, os meus pertences tinham sido levados para a Académica. Tinha lá o carro, depois de um jogo contra o Rio Ave. Furaram-me os pneus e fizeram-me uma série de ameaças.
Foram os adeptos?
Sim. Tive de ir à Académica com o meu advogado buscar o meu carro com os pneus em baixo. Acabou assim a minha ligação à Académica, porque no jogo em que o West Ham ia contratar-me lesionei o joelho, dei cabo do menisco. Ninguém sabia que eu tinha saído do jogo lesionado. Pensaram que não era nada de especial, mesmo assim as negociações estavam a decorrer.
A Académica queria que eu treinasse à parte e queriam castigar-me. Sim. Eu senti que não estava bem do joelho, fui fazer exames que mostraram que eu tinha uma rutura no menisco. Tive de ser operado. Entretanto, a Académica colocou-me um processo disciplinar e eu durante seis meses não joguei mais. No final da Taça, que ganhámos, eu não joguei. Não apareci mais.
Quando vai para o Braga já está sem lesões?
Sim. Assino pelo Braga e no primeiro ano correu muito bem, estava a jogar a Liga dos Campeões e comecei a ir à Seleção. Em fevereiro desse ano volto a lesionar-me no joelho e depois tenho um período de um ano, entre duas épocas, em que sou operado ao joelho, ligamento cruzado, e duas vezes ao pé. No espaço de um ano fui operado três vezes, entre joelho e pé. Foi o período mais difícil da minha carreira.
Pensou em desistir?
Pensei que não ia voltar a ser o mesmo depois de tantas lesões e dores, entre recuperações, a tomar muitos anti-inflamatórios, e até mentalmente. Pensei que não voltaria a ser o mesmo, que ia ser muito difícil quando voltasse a jogar, apesar de ter tido um ano muito bom no Braga. Mas tive de continuar e fui à luta.
Quando é que conseguiu a nacionalidade portuguesa?
Quando estava na Académica.

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Como é que se sentia em relação a ser português?
Sentia-me português porque cresci aqui. Mas há muita gente que nasceu cá, cresce cá e não consegue ser português. Eu senti-me sempre, acho que foi muito por não ter crescido com os meus pais e pelo facto de ter crescido numa instituição, num mundo completamente diferente. É um mundo à parte, em que estou com 60 crianças que acabam por ser meus irmãos. Aí não pensava muito se era português ou não, porque eu era tratado como menino da instituição, para o bem ou para o mal. Sempre que acontecia alguma coisa, eram os meninos da instituição. É um mundo à parte, não há tempo nem para pensar se és daqui ou dali. Todos os meus comportamentos foram moldados pelas minhas vivências e as minhas vivências foram todas passadas na instituição. Sentia-me português, apesar das minhas origens guineenses.
Não diziam coisas como “vai para a tua terra”?
Claro que sim. Muitas vezes em situações de algum conflito isso vinha ao de cima. Surgiam esse e outros comentários. Só que sempre tentei desvalorizar, porque desde pequenino que fui acostumado a adaptar-me às situações.
Acha que hoje temos mais racismo ou menos racismo do que nessa altura?
Na altura, era mais novo e a perceção é diferente. Mas sinto que hoje há um crescer significativo desse tipo de atitudes em público. Apesar de sempre ter havido esse tipo de comentários. Eu lembro-me de que faziam isso de forma a parecer que estavam a brincar e que estava tudo normal, mas não. A minha defesa era ouvir e ignorar. Mas havia um limite: quando me chamavam “preto”, explodia completamente.
Quando foi convocado para a Seleção, o racismo teve algum papel nas reações de desagrado de que foi alvo?
Acho que questionavam a minha forma de jogar à bola. Eu levei isso para esse lado, até porque tentei fechar-me e não ler muitos comentários. E interiorizei que era sobre a minha forma de jogar à bola, porque até eu me questionava bastante.
Questionava-se por causa das críticas ou já antes?
Já antes. Como disse, tive várias dúvidas e as coisas não estavam a correr bem. Eu sentia que não era o mesmo. Quando as pessoas vêm criticar, já existe a autocrítica. Acho que tem outro impacto porque as pessoas confirmam aquilo que eu já estava a sentir, com uma dose de peso e de maldade diferente.
A final do Euro em 2016, pelo contrário, parecia um filme de Hollywood: o melhor jogador lesiona-se e entra o Eder, que muita gente dizia não dever ser convocado, e marca o golo que nos deu o título europeu.
Sempre pensei que não podia desistir e tinha de continuar. Foi sempre o meu lema de vida. Acreditei e duvidei ao mesmo tempo. Podia até ter mais dúvidas do que certezas.
Mas ter marcado aquele golo libertou-o disso? Ao mesmo tempo, não voltou a ser convocado para o apuramento seguinte.
Esse golo e o golo que antes fiz à seleção italiana deram-me um pouco de paz, porque, como dizia, havia autocrítica e a crítica exterior muito agressiva. E eu senti que isso parou um bocado. Eu estava em dívida e consegui contribuir para a vitória da Seleção. Mas penso sempre no que é que eu podia ter feito se não tivesse passado por este processo de muitas lesões.

Ficou sempre com a ideia de que podia ter sido muito melhor?
Olhando para trás, sim, sem dúvida. Mas não é uma coisa de que possa culpabilizar-me. Acho que já fui um herói por ter aguentado e continuado. Mas fica sempre aquele amargo de boca, sentia que podia ter sido completamente diferente.
Cumpriu o seu sonho de jogar na Premier Ligue, no Swansea. Devido às lesões, não correu muito bem, mas foi emprestado ao Lille e em França correu muito bem. Foi considerado a melhor contratação do mercado de inverno.
Correu muito bem, tanto é que ao final desses seis meses de empréstimo eles ofereceram-me quatro anos de contrato e eu aceitei logo. Gostei muito da cidade. Esqueci o sonho de estar em Inglaterra, porque me senti muito bem no Lille. Assinei antes do Europeu.
Depois do Europeu, isso não ficou tão bem.
Jogar no Lille depois do Europeu e de ter “roubado” o campeonato aos franceses não foi o melhor.
É estranho um clube ter um campeão da Europa e não o estimar.
Em França ficaram sempre com a sensação de que eu lhes tinha roubado o título. Era alvo de muitos comentários maldosos. Não me sentia à vontade. Por outro lado, quando assinei pelo Lille, o clube estava a ser reestruturado e havia a promessa de que iriam fazer uma equipa forte. Isso acabou por não acontecer por razões financeiras. Houve também uma pressão para eu voltar a jogar o mais rápido possível e, em consequência, não tive férias. Os resultados da equipa não foram os melhores. De cada vez que jogava, era assobiado. Lembro-me de marcar um golo num jogo e de apenas ser apoiado por um grupo de portugueses, no estádio. Não estava a sentir-me bem, decidi sair.
Mas, ao mesmo tempo, devia ser especial sempre que se cruzava com um emigrante português em França…
Os emigrantes portugueses diziam-me que o meu golo tinha sido uma viragem completa na vida deles em França. Uma espécie de vingança que os tornava visíveis depois de anos a serem minimizados. Que agora já podiam ir trabalhar com um astral diferente. Eles sentiam-se um bocado desvalorizados na sociedade, em França. Muita gente, até quando vinha tirar uma foto comigo, agradecia e dizia que eu não tinha noção do que o golo representava para eles.
E foi para Moscovo?
Estive quatro anos em Moscovo. Uma experiência diferente. Logo em 2017, pouco tempo depois de entrar, faço o golo do título, que o Lokomotiv de Moscovo já não ganhava há algum tempo. Foi uma festa brutal. Aqueles quatro anos foram bons em títulos. Ganhei um campeonato, duas taças e uma supertaça. Quatro títulos em quatro anos.
E em termos de vida?
Foi adaptar-me um pouco. O meu tio já tinha estado na Rússia, porque havia muitos guineenses que foram estudar para a União Soviética. Ele sofreu muito racismo, na altura, e sempre falou das situações que enfrentou. Cheguei a pensar que não ia jogar na Rússia. Mas acabou por surgir uma oportunidade e decidi experimentar. Queria sair de França, e o Lokomotiv foi a oportunidade mais rápida que encontrei. Mas a vida na Rússia é um pouco diferente. Foi um bocado difícil no início. A minha sorte foi haver já outros estrangeiros na equipa, como o Manuel Fernandes, que me ajudou bastante na adaptação, um brasileiro também e dois fisioterapeutas espanhóis.
Ponderou ir-se embora?
Sim, até porque a certa altura o Lille quis voltar a contratar-me. O Luís Campos ligou-me a dizer que havia essa possibilidade, que até me pagariam mais. Só que o Lokomotiv não permitiu.
Começou a arranjar amigos russos.
Sim, uns poucos. A primeira impressão é que eles são um bocado frios e fechados, mas ao longo do tempo fui fazendo amizades e encontrei, como em todo o lado, pessoas fantásticas.
E do ponto de vista do racismo de que o seu tio falava?
Tive uma situação, com um colega de equipa, que no início fazia uns comentários. Por um colega brasileiro, que era capitão, percebi que havia um ambiente estranho. Perguntei-lhe o que é que ele estava a dizer, e o meu colega, que falava russo, não quis dizer-me à primeira. Tive de insistir, enquanto o meu colega dizia ao jogador russo: “Não deves dizer isso”, não sei o quê… Eu senti que o ambiente ficou estranho e fui-lhe perguntando até ele me traduzir. Aprendi como é que se diz “preto” em russo.
O outro jogador pediu desculpa?
Sim, depois tivemos até alguma relação. A meu ver, não acredito que tenha sido apenas racismo, mas sobretudo xenofobia. Mais por eu ser estrangeiro do que pela minha cor da pele. Os russos são muito patriotas e fui compreendendo que o país esteve muito tempo fechado e sofreu com muitas guerras. Isso contribuiu para que houvesse ambiente para uma certa xenofobia.
Quando é que surge a Arábia Saudita?
A Arábia surge, através de um empresário amigo, quando acabo o contrato na Rússia, numa altura em que não sabia se ia jogar mais, porque depois de várias lesões a resposta do meu corpo era diferente.
Esteve lá quanto tempo?
Um ano. Em pouco meses, o presidente resolveu renovar-me o contrato. Mas depois, na parte final da época, na luta pela manutenção e num jogo de treino contra o Al-Nassr, isolo-me, vou para a baliza, e o guarda-redes dá-me uma porrada na perna. Dei cabo do joelho outra vez, menisco e tornozelo. Não jogo mais, venho para Portugal para ser operado e vou recuperar para a Bélgica, terra da minha mulher. Começou a pré-época, mas eu ainda não estava recuperado das lesões. O clube decidiu, então, rescindir o meu contrato. Não concordei e acabei por receber algumas ameaças. Disseram-me que iam levar-me para Arábia, que iam meter-me numa casa sem luz, sem água, etc. Preparei a minha mulher, em caso de me acontecer alguma coisa, e decidi ir. Eles queriam colocar-me a treinar à parte, e alojaram-me num hotel diferente do que era habitual para os estrangeiros, que costumam ficar sempre num condomínio. A minha sorte foi que eu fiz amizade com um sírio, que vivia no condomínio, e então aluguei um apartamento, sem o clube saber. Senti-me mais protegido. No fim, aceitei o acordo, mas as lesões não permitiram que o cumprisse.
O que é que está a fazer agora?
Fiz uma pausa quando deixei de jogar. Foi um luto diferente, porque, como disse, o meu corpo já não reagia da mesma forma. Vivi na Bélgica durante dois anos, foi bom para estar um bocado longe dos holofotes, um bocadinho longe de Portugal. Em seguida, recebi um convite do Fernando Gomes para a Federação Portuguesa de Futebol. Estive como diretor das equipas de formação cerca de oito meses. Foi um período muito giro, mas depois, pronto, houve mudança na direção da federação, e acabei por sair. Depois fiz um curso de Gestão na UEFA. Hoje em dia, vou fazendo comentários desportivos e outras coisas. Também faço ações com jovens, nas quais posso passar parte da minha história, e alguma esperança.
Agora tenho mais tempo para a família, sobretudo para ser pai e poder ajudar na educação dos meus filhos. Acho que vêm tempos difíceis, e eles precisam da minha presença, que lhes coloque desafios, dê amor e dê carinho.
Como é que define esses tempos difíceis?
Tempos terríveis de pouca empatia, de muito egoísmo. São tempos em que muitas vezes as pessoas são levadas a escolher um lado e em que não há meio-termo. As pessoas não olham para o outro como um ser humano.
Agora tenho mais tempo para a família, sobretudo para ser pai e poder ajudar na educação dos meus filhos. Acho que vêm tempos difíceis, e eles precisam da minha presença, que lhes coloque desafios, dê amor e dê carinho