Ondas de calor sem ondas de mudança

Numa repetição do que já escrevi há um ano e do que poderia ter escrito durante os últimos anos, escrevo este texto numa altura em que Portugal passa por mais um período de temperaturas extremas. As ondas de calor sucedem-se a um ritmo cada vez maior, evidenciado que o resultado das alterações climáticas está a tornar-se uma realidade.

Se as ondas de calor vieram para ficar, no que respeita à melhoria do conforto térmico das habitações portuguesas, as ondas de mudança continuam a tardar. A maioria dos edifícios em Portugal, continua a não estar minimamente preparada para enfrentar quer o calor intenso do verão, quer o frio do inverno. Portugal é o país europeu com um dos maiores níveis de pobreza energética. E não me refiro apenas aqueles que são economicamente mais vulneráveis, o que seria já razão suficiente para o Governo continuar a reforçar políticas e medidas de apoio nesta área. Infelizmente, a nossa chamada classe média sofre igualmente de pobreza energética.

Quando falamos deste tipo de pobreza, falamos da incapacidade de garantir condições de conforto térmico dentro de casa ao longo de todo o ano: manter a habitação quente durante o inverno e fresca durante o verão. Não estamos a falar apenas de conforto. Falamos de saúde pública, qualidade de vida, níveis de produtividade e de proteção das pessoas, em especial dos mais vulneráveis, como idosos, crianças e doentes crónicos.

Muitas famílias recorrem à instalação de aparelhos de ar condicionado ou a outros equipamentos de climatização para tornar a casa habitável, para combaterem, conforme podem e sabem, as temperaturas altas. Tal solução, além de nem sempre resolver a questão, leva a um maior consumo de energia… caso seja haja condições económicas para isso…

A resposta mais eficaz é, obviamente, a reabilitação do parque habitacional português, através da melhoria do isolamento térmico das paredes, coberturas e pavimentos, bem como da substituição de janelas antigas por janelas eficientes. Esta seria uma mudança estrutural, que levaria ao aumento do conforto térmico e acústico, à redução do consumo energético e à melhoria significativa da qualidade de vida das famílias.

Neste cenário, continua a ser fundamental que o Governo português aproveite o Fundo para o Clima e lance, urgentemente, um ambicioso programa e medidas públicas de apoio à melhoria do conforto e da eficiência energética das habitações. Apoiar a melhoria do conforto das habitações, é investir na saúde, na sustentabilidade, na redução da fatura energética das famílias e na qualidade de vida de todos os portugueses.

Continuaremos a aguardar a onda de mudança.