O Teste do Taxista

Uma das invenções filosóficas mais importantes dos últimos séculos foi o teste do taxista.   O teste mostra que é possível chegar a conclusões e juízos satisfatórios sobre as questões mais momentosas enquanto se espera por um sinal verde (em Portugal, entre vinte e cinquenta segundos).   Durante esse tempo, qualquer taxista a olhar para um romance, um plano quinquenal ou uma carta de motivação abertos no lugar do morto consegue perceber sem grande dificuldade se vale a pena serem considerados em mais pormenor.

O inventor do teste do taxista quis contrariar duas das teorias lógicas e políticas mais paralisantes da nossa civilização.  A primeira é a de que não é possível decidir bem em pouco tempo; e a segunda é a de que só é possível decidir sobre uma coisa depois de se produzirem estudos preliminares sobre as várias hipóteses de decisão.   Ambas as teorias cultivam a forma pausada de raciocínio indutivo celebrada pelas principais antologias zen e pelo Código de Procedimento Administrativo.

O resultado é que para os opositores do teste do taxista o tempo que demora a determinar se devem ler um romance, pôr em prática um plano quinquenal ou seleccionar uma pessoa costuma ser superior ao tempo que leva a ler esse romance, e executar o plano ou as tarefas para que a pessoa é requerida. Não lhes ocorre como a situação é pouco prática.  É razoável admitir que quem decide justificadamente deve ter alguma noção daquilo sobre que está a decidir; o que é louco é achar-se que essa noção deriva de uma soma de estudos preparatórios; e que nenhuma decisão pode justificadamente ser tomada até se conhecerem os resultados do último desses estudos.

O teste do taxista contraria a ideia de que um estudo conduz naturalmente a uma decisão; e desconfia que um estudo só conduz a outros estudos.   Recusa por isso que os autores desses estudos desempenhem um papel proeminente nas nossas vidas; e que as decisões justificadas sejam por definição decisões técnicas.   Quem segue o teste do taxista não se importa de lembrar aos técnicos (embora com firmeza e bondade) que não há decisões técnicas, mas apenas decisões justificadas que caberá aos técnicos, com os seus botões, tentar tornar exequíveis.

A intuição por detrás do teste do taxista é a de que é comum e racional decidir com um conhecimento incompleto; e que o importante é garantir que os nossos erros de decisão possam ser corrigidos no futuro com um mínimo de comoção.  O teste não depende de uma alternativa à indução, e não exige que os taxistas comuniquem por rádio táxi com o mundo das ideias.  Exprime apenas a atitude sensata: como nenhuma soma de estudos conduz a decisões, há uma altura em que as induções têm de parar.   O tempo que demora um sinal a ficar verde é na maior parte dos casos um critério adequado.