O que é o Kimi K3 da China e porque está a deixar os EUA tão inquietos?

A ascensão do modelo está a intensificar uma corrida já bastante disputada entre os Estados Unidos e a China pela liderança da inteligência artificial de ponta, além de provar que "o progresso da China está a tornar-se cada vez mais repetível"

Lembra-se da DeepSeek? A startup chinesa de inteligência artificial que abalou a indústria tecnológica norte-americana com um modelo que quase igualava os principais concorrentes, tendo sido treinado por uma fração do custo?

A China pode ter conseguido fazê-lo outra vez.

O mais recente modelo chinês de IA a causar impacto foi desenvolvido por uma startup menos conhecida chamada Moonshot AI. Apenas dois dias após o lançamento, a Moonshot suspendeu novas subscrições depois de a procura ter ultrapassado a sua capacidade de computação.

O entusiasmo inesperado em torno do modelo Kimi K3 deve-se à sua capacidade de igualar - e, em alguns casos, superar - os seus concorrentes norte-americanos mais avançados, como as versões mais recentes do GPT da OpenAI e do Claude da Anthropic, de forma gratuita.

A sua ascensão está agora a intensificar uma corrida já bastante disputada entre os Estados Unidos e a China pela liderança da inteligência artificial de ponta. Nos últimos anos, Washington reforçou as restrições às exportações para a China com o objetivo de travar o desenvolvimento de IA e de semicondutores que possam reforçar as capacidades militares chinesas.

Após o lançamento do Kimi K3, responsáveis norte-americanos, juntamente com a Anthropic, voltaram a acusar a Moonshot de recorrer à destilação de modelos norte-americanos, uma técnica em que um modelo de IA é treinado utilizando os resultados produzidos por outro modelo. A Moonshot negou as acusações.

Ainda assim, os receios que se propagam entre empresas norte-americanas e responsáveis governamentais demonstram o que está em causa nesta rivalidade tecnológica e as suas profundas implicações para a economia, para a defesa e para a segurança nacional.

De forma mais abrangente, as capacidades do Kimi K3 voltam a levantar dúvidas sobre a eficácia das restrições tecnológicas impostas por Washington às exportações. O novo modelo desafia igualmente uma convicção da indústria: a de que desenvolver IA de última geração exige investimentos avultados em centros de dados e nos semicondutores avançados cujo acesso os EUA têm limitado.

Pessoas visitam o stand da Moonshot AI durante a Conferência Mundial sobre Inteligência Artificial, em Xangai, a 18 de julho de 2026. (Hector Retamal/AFP/Getty Images)

Ao contrário da maioria dos modelos norte-americanos, o Kimi K3 foi disponibilizado como um modelo de pesos abertos (“open-weight”). Isso permite aos programadores descarregá-lo, modificá-lo e executá-lo gratuitamente nos seus próprios servidores, facilitando a sua adoção e aumentando o seu potencial de expansão nos mercados internacionais.

Limitada pelo acesso reduzido a hardware para IA e por níveis de investimento inferiores aos das empresas norte-americanas, a China optou por apostar nos chamados modelos abertos, em contraste com os rivais dos EUA, cujos modelos estão maioritariamente disponíveis apenas mediante subscrição paga.

"Muitas organizações valorizam a possibilidade de alojar internamente modelos abertos, o que lhes permite manter o controlo dos parâmetros do modelo e dos dados sensíveis, em vez de dependerem exclusivamente de fornecedores de modelos fechados", afirmou Chelsey Tam, analista sénior de ações da empresa de serviços financeiros Morningstar.

Quem está por detrás do mais recente avanço da IA chinesa?

A Moonshot AI foi fundada há três anos por Yang Zhilin, um promissor engenheiro de software na casa dos 30 anos, natural da cidade de Shantou, no sudeste da China.

Yang revelou talento desde cedo quando estudava na Universidade de Tsinghua, a mais prestigiada escola de engenharia da China, sob orientação de Tang Jie, professor que viria mais tarde a fundar outra importante startup de IA, a Z.ai, em 2019.

"É o estudante mais talentoso e excecional que encontrei nos últimos anos", afirmou Tang ao recomendá-lo para uma bolsa de estudo em 2014.

Yang Zhilin, co-fundador da empresa de inteligência artificial (IA) Moonshot AI, intervém na Conferência Anual do Fórum Zhongguancun 2026, a 25 de março de 2026, em Pequim, China. (VCG/AP)

Posteriormente, Yang prosseguiu o doutoramento em Ciências da Computação na Universidade Carnegie Mellon, sob orientação de Ruslan Salakhutdinov, antigo executivo de IA da Meta e da Apple. No final do doutoramento, recorda Salakhutdinov, Yang recusou uma proposta de emprego apresentada por um alto dirigente da Apple que reportava diretamente a Tim Cook.

"Lembro-me de ele me dizer que, se não tentasse criar a sua própria empresa, arrepender-se-ia para o resto da vida. Respeito essa decisão, e ele tinha razão", escreveu Salakhutdinov na rede social X.

Yang explicou mais tarde que a decisão assentou em dois fatores.

"O primeiro foi o ambiente. Vimos enormes oportunidades, desde o apoio do Governo e do capital de risco até aos progressos da China na educação ao longo das últimas décadas, que criaram condições favoráveis para startups de IA", afirmou à imprensa estatal em 2024. "O segundo foi acreditarmos que a inteligência artificial representava uma oportunidade gigantesca”, declarou.

Yang destacou-se no setor chinês da IA não apenas por fundar a Moonshot aos 32 anos - tornando-se um dos mais jovens empresários chineses nesta área -, mas também por ter optado por regressar à China para lançar a empresa.

Desde o início, Yang revelou grandes ambições. Num podcast em 2024 explicou que o nome da startup era uma referência ao seu álbum favorito da banda britânica Pink Floyd, “Dark Side of the Moon”, esperando conseguir "realizar algo que criasse um enorme valor e que fosse extremamente difícil - tal como chegar à Lua".

A Moonshot rapidamente alcançou notoriedade nacional após lançar, em 2023, o primeiro modelo Kimi, nome inspirado no nome inglês de Yang. Nesse mesmo ano, a empresa garantiu quase 300 milhões de dólares nas suas duas primeiras rondas de financiamento, segundo uma entrevista concedida à imprensa chinesa em 2024.

Será este mais um "momento DeepSeek"?

A atenção internacional gerada pelo Kimi K3 faz lembrar a ascensão da DeepSeek no início de 2025, quando o seu modelo de raciocínio R1 provocou ondas de choque na comunidade mundial da inteligência artificial.

Desta vez, o K3 apresentou um desempenho próximo dos sistemas de ponta, como o GPT 5.6 Sol da OpenAI e o Claude Fable 5 da Anthropic em vários testes comparativos, reduzindo ainda mais a diferença entre os modelos chineses e norte-americanos.

Contudo, os analistas defendem que o feito da Moonshot deve ser analisado sob uma perspetiva diferente.

A DeepSeek desafiou a ideia dominante de que desenvolver um modelo avançado de IA exige investimentos financeiros gigantescos e enorme capacidade computacional, além de oferecer preços altamente competitivos.

Já o desconto de preço do K3 face aos modelos de topo é bastante menor do que o do R1 quando este foi lançado, sugerindo que a sua vantagem em termos de custos poderá ser menos significativa do que a alcançada pela DeepSeek, segundo Ivan Su, diretor da Morningstar.

O modelo de raciocínio R1 da DeepSeek provocou ondas de choque na comunidade mundial da inteligência artificial no início de 2025. (Vuk Valcic/SOPA Images/Sipa USA/AP)

O que o K3 demonstra é que as empresas chinesas continuam a desenvolver o trabalho iniciado pela DeepSeek e a reduzir progressivamente a diferença entre os modelos chineses e norte-americanos, afirmou Poe Zhao, analista e autor da newsletter Hello China Tech.

"O significado mais amplo é que a DeepSeek começa cada vez mais a parecer o início de uma tendência", afirmou. "A DeepSeek foi uma surpresa. O K3 é a prova de que o progresso da China está a tornar-se cada vez mais repetível."

Desde o aparecimento da DeepSeek, empresas chinesas de IA como a Moonshot, a Alibaba e a Z.ai têm recebido uma atenção crescente sempre que apresentam novos modelos, num ritmo de lançamentos cada vez mais acelerado.

Segundo Wei Sun, analista principal de IA da Counterpoint Research, o K3 reduziu a diferença geral entre os modelos chineses e norte-americanos para cerca de três a seis meses, embora essa diferença varie consoante a tarefa.

Ainda assim, alguns analistas mantêm reservas quanto às capacidades reais do K3.

"Embora o K3 represente um avanço, hesitamos em considerá-lo praticamente ao nível dos modelos norte-americanos de ponta, como o Fable 5, em tarefas do mundo real", afirmou Malik Ahmed Khan, analista sénior da Morningstar, numa nota de investigação divulgada na sexta-feira passada.

Segundo explicou, muitos programadores de modelos abertos já otimizaram anteriormente o desempenho dos seus modelos especificamente para obter melhores resultados em testes comparativos.

Constitui uma ameaça para os Estados Unidos?

Para as empresas tecnológicas norte-americanas, modelos chineses gratuitos e comparáveis ao K3 representam uma ameaça direta aos seus próprios produtos.

As principais empresas norte-americanas de IA, nomeadamente a Anthropic e a OpenAI, acusam há muito tempo laboratórios chineses - incluindo a Moonshot, a DeepSeek e a Alibaba - de extraírem capacidades dos seus modelos. Essas acusações intensificaram-se após o lançamento do K3.

Huang Zhenxin, responsável pela área empresarial da Moonshot AI, negou as acusações de destilação numa entrevista aos meios de comunicação estatais na segunda-feira.

Mas isso não travou novas acusações vindas de Washington.

"Temos informações de que a Moonshot AI utilizou a destilação do modelo Fable da Anthropic para desenvolver o seu modelo K3", escreveu Michael Kratsios, diretor do Gabinete para a Política Científica e Tecnológica da Casa Branca, numa publicação na rede social X.

"A destilação industrial secreta em larga escala destinada a roubar tecnologia proprietária norte-americana e a prejudicar a investigação dos Estados Unidos é inaceitável”, sublinhou.

Sarah Heck, responsável pelas políticas públicas da Anthropic, reforçou as declarações de Kratsios numa publicação no X, acusando a Moonshot de estar envolvida em "roubo de propriedade intelectual e espionagem industrial", classificando a situação como "um desafio nacional que cria sérios riscos para a segurança nacional".

A Casa Branca afirma dispor de informações de que a "Moonshot AI recorreu à destilação do modelo Fable da Anthropic" - acusações que a Moonshot nega. (Dado Ruvic/Reuters)

A CNN contactou a Moonshot para obter um comentário.

Também o secretário do Tesouro norte-americano, Scott Bessent, reiterou na quarta-feira que os Estados Unidos poderão impor sanções a empresas chinesas por alegado roubo de propriedade intelectual, embora sem mencionar especificamente a Moonshot ou outras empresas.

"Quando empresas da República Popular da China realizam ataques secretos de destilação industrial em larga escala que ultrapassam a linha e constituem roubo de propriedade intelectual, as sanções e a inclusão na Entity List estarão em cima da mesa", escreveu no X, referindo-se ao nome oficial da China.

A maioria dos analistas considera, contudo, pouco provável a acusação de destilação dirigida à Moonshot.

Wei Sun, da Counterpoint, afirmou que a Moonshot não teria tido tempo suficiente para treinar o seu modelo utilizando os modelos mais recentes dos concorrentes, cuja disponibilidade era bastante limitada antes do lançamento do K3. Acrescentou ainda que a destilação, por si só, não explicaria o desempenho superior do Kimi K3.

"A ordem de acontecimentos simplesmente não convence", concluiu.