Movido pelo desejo de explorar o conceito de memória nas suas mais variadas dimensões, Fábio Ventura lançou-se à questão: "E se existisse um procedimento capaz de apagar apenas as memórias más?" Bebendo inspiração ao clássico cinematográfico "O Despertar da Mente" e à série "Black Mirror", o autor transportou o conceito de memória "para um lugar mais obscuro", no qual quem tem mais poder económico pode transferir o que tem de mais "traumático ou vergonhoso" para outra pessoa, que se sujeita ao procedimento "por desespero".
A par do cinema, a música também tem um papel muito presente em "O Peso dos Outros", não fosse uma das personagens principais uma cantora em ascensão. Aliás, tal como confessou ao Notícias ao Minuto, Fábio Ventura "não queria apenas referências decorativas, mas algo que ajudasse a contar a história".
A evolução da Inteligência Artificial (IA) e dos seus limites - ou falta deles - é "uma das inquietações do livro", tendo em conta "a dificuldade da legislação, da reflexão ética e da literacia em acompanhar essa evolução". Em jeito de crítica social, este thriller psicológico coloca a questão da tecnologia enquanto aliada para aliviar em dor em cima da mesa, mas também expõe que há sempre quem pague o preço desse alívio fabricado.
Interessou-me explorar não só o lado fascinante da memória, mas também a sua dimensão mais cruel: aquilo que alguns podem pagar para esquecer, outros acabam por carregar por desespero. [...] O que começa como uma promessa de libertação transforma-se numa pergunta muito mais sombria: até onde iríamos para deixar de ser assombrados por nós próprios?
Como é que surgiu a premissa deste livro? O que é que o motivou a escrevê-lo?
Surgiu de uma pergunta simples: e se existisse um procedimento capaz de apagar apenas as memórias más? 2025 foi um ano particularmente desgastante a nível mental e emocional, e confesso que essa ideia de um recomeço limpo me seduziu. Quem nunca desejou arrancar de si uma dor, uma culpa ou uma lembrança que insiste em voltar?
Foi daí que nasceu o Projeto Anemone, uma tecnologia cara e exclusiva que permite transferir memórias negativas para outras pessoas. A partir desse conceito, interessou-me explorar não só o lado fascinante da memória, mas também a sua dimensão mais cruel: aquilo que alguns podem pagar para esquecer, outros acabam por carregar por desespero. No centro da história estão Seraphine e Lázaro Delambre, um casal do meio artístico preso aos seus próprios silêncios, e Bento, um estafeta endividado que aceita receber as memórias tóxicas de um desconhecido. O que começa como uma promessa de libertação transforma-se numa pergunta muito mais sombria: até onde iríamos para deixar de ser assombrados por nós próprios?
Lançou-se com obras de fantasia e, entretanto, tem vindo a apostar no thriller e suspense. Porquê esta mudança? Deveu-se, de alguma forma, à tenra idade com que começou a escrever, representando uma evolução na sua persona literária?
Comecei muito novo, aos 21 anos, e a fantasia foi o meu primeiro território criativo. Era um género muito presente nessa altura e eu era um ávido leitor, por isso foi natural iniciar a carreira a explorar novos mundos e mitologias. Com o tempo e a maturidade, fui-me interessando cada vez mais pelos mundos interiores: a culpa, a obsessão, o medo e a mentira. Não vejo a passagem para o thriller como uma rutura, mas como uma evolução natural. A fantasia ensinou-me a construir mundos; o thriller ensinou-me a desmontar pessoas, algo que me dá muito prazer.
Capa de "O Peso dos Outros", de Fábio Ventura© Reprodução/Penguin Random House Portugal
O Projeto Anemone pareceu-me ser uma versão mais sombria – ou extrema – do processo de esquecimento exposto em "O Despertar da Mente". Serviu-se dessa história para construir "O Peso dos Outros"? Bebe inspiração de outro tipo de arte? Se sim, quais?
O "Despertar da Mente" foi uma das grandes inspirações deste livro, sobretudo pela forma como aborda o amor, a memória e a dor de perder alguém. Mas n'"O Peso dos Outros" quis levar essa ideia para um lugar mais obscuro: não se trata apenas de apagar memórias, mas de transferir o que temos de mais traumático ou vergonhoso para outra pessoa. Também fui beber muito a "Black Mirror", pela forma como cruza tecnologia, intimidade e dilemas éticos. Interessava-me perceber até onde poderíamos ir se a tecnologia nos permitisse libertar-nos da culpa.
Há também inúmeras referências musicais ao longo de toda a obra. Ainda que a música esteja intrinsecamente ligada às personagens, também a encara como fonte de inspiração? De que forma? E porquê aqueles temas em concreto?
A música faz parte do meu processo criativo. Escrevo sempre com música, pois ajuda-me a encontrar o ritmo, a fluidez e o lado emocional de cada cena. Neste livro, tem ainda mais peso porque uma das protagonistas é uma cantora em ascensão. Jeff Buckley é uma presença constante e cada referência está ligada a momentos específicos da história. Mas há também Alanis Morissette, Rosalía, Elliott Smith ou Linkin Park, por exemplo, todos com funções diferentes nas relações entre as personagens. Não queria apenas referências decorativas, mas algo que ajudasse a contar a história.
A evolução da Inteligência Artificial é avassaladora e está a transformar a forma como vivemos, trabalhamos e até nos relacionamos. Se for bem utilizada, pode trazer muitas vantagens, mas assusta-me a dificuldade da legislação, da reflexão ética e da literacia em acompanhar essa evolução. Essa é uma das inquietações do livro
"O Peso dos Outros" joga com questões obscuras, havendo até ligação ao sobrenatural e à psicologia. São áreas que lhe despertam particular interesse?
Sim, sempre me interessaram esses temas. A psicologia, a culpa, o trauma e a obsessão são terrenos muito férteis para o thriller psicológico, porque permitem criar personagens mais densas, contraditórias e, sobretudo, humanas. Neste livro, não há propriamente uma componente sobrenatural muito marcada, mas existe uma atmosfera de estranheza ligada à pressão emocional e criativa das personagens. Como há várias figuras ligadas às artes, essa dimensão simbólica surge quase como uma consequência natural da intensidade com que vivem e criam.
O livro foi descrito como "um thriller psicológico inquietante sobre memória, culpa e relações num mundo refém da tecnologia, onde esquecer é um privilégio e alguém tem sempre de carregar o que foi deixado para trás". Com o advento da Inteligência Artificial (IA) e dos impactos que já se fazem sentir na sociedade, caminhamos para uma versão semelhante à imaginada por si?
Acredito que sim, embora talvez não nos moldes concretos da transferência de memórias que descrevo no livro. A evolução da Inteligência Artificial é avassaladora e está a transformar a forma como vivemos, trabalhamos e até nos relacionamos. Se for bem utilizada, pode trazer muitas vantagens, mas assusta-me a dificuldade da legislação, da reflexão ética e da literacia em acompanhar essa evolução. Essa é uma das inquietações do livro, mascarada de crítica social: quando a tecnologia promete aliviar a dor, quem controla os limites? E quem paga o preço?
Os criadores de conteúdos têm sido uma ajuda preciosa, especialmente para autores portugueses, que ganharam mais visibilidade nos últimos anos. Mas também há um lado mais nocivo: há cada vez mais ruído, cada vez mais livros a sair e uma pressão enorme para transformar tudo em tendência
A par da escrita, trabalha em Comunicação. Como é que se desdobra para conciliar as duas coisas? Porque é que não se dedica à escrita a 100%?
Não é fácil. Há dias em que o desgaste é grande e em que a vontade de parar aparece, mas a vontade de contar histórias acaba por falar mais alto. Trabalhar em Comunicação ajuda-me, pois estou sempre a lidar com escrita, públicos e formas diferentes de passar uma mensagem. Ao mesmo tempo, também significa que, ao fim do dia, nem sempre sobra a energia que gostava para voltar ao computador. Infelizmente, em Portugal, o mercado literário é pequeno e viver apenas da escrita é muito difícil. Há contas para pagar. Mas quem sabe um dia? Sonhar ainda é grátis.
Qual a sua visão do panorama literário dos dias de hoje, particularmente com o impulso das redes sociais e dos criadores de conteúdos dedicados à promoção de livros?
Acho que as redes sociais deram um impulso enorme à leitura e ao mercado dos livros, sobretudo entre os leitores mais jovens. Basta olhar para muitos dos livros que chegam aos tops de vendas. Os criadores de conteúdos têm sido uma ajuda preciosa, especialmente para autores portugueses, que ganharam mais visibilidade nos últimos anos. Mas também há um lado mais nocivo: há cada vez mais ruído, cada vez mais livros a sair e uma pressão enorme para transformar tudo em tendência. Nessa maré, muitos bons livros acabam por ser engolidos demasiado depressa.
Neste momento, que outros projetos tem em mãos?
Fui desafiado pela minha editora a explorar uma nova aventura na minha carreira: uma novela gráfica. Será dentro do thriller psicológico, território que os meus leitores já associam ao meu trabalho, mas numa linguagem completamente diferente. O processo criativo é muito distinto do romance e tem sido desafiante pensar a história de forma ainda mais visual e condensada. A ideia já está aprovada e estou agora a trabalhar no guião, que depois será entregue a um ilustrador.

"O sótão é, por excelência, o lugar onde tudo pode coexistir"
Madalena Sá Fernandes regressa ao panorama literário com uma terceira obra centrada não só num espaço fértil no imaginário infantil, mas também na penumbra do medo. "Sótão" funde autoficção, ensaio, romance e poesia, pintando o retrato de "uma escritora à escuta de si mesma".
Daniela Filipe | 10:30 - 30/06/2026