Visão | O Governo que chumbou no exame da governação

Um ministro forte transmite confiança mesmo quando enfrenta dificuldades. Um ministro fragilizado limita-se a gerir danos. E foi essa imagem que ficou, a de um governante incapaz de dominar o dossiê mais sensível do seu ministério, deixando escolas, professores, alunos e famílias entregues à incerteza

Os exames nacionais deveriam ser um momento de exigência para os alunos. Este ano, acabaram por se transformar num exame à competência do Estado e o resultado dificilmente poderia ser mais negativo.

Durante semanas, milhares de alunos e respetivas famílias viveram num clima de ansiedade, alimentado por atrasos, falhas de organização, informação contraditória e uma sucessão de decisões tomadas sempre em cima da hora. Aquilo que deveria ser um processo rigorosamente preparado revelou-se um exercício de improvisação. Quando o Estado falha num dos momentos mais importantes da vida académica de dezenas de milhares de jovens, não estamos perante um simples incidente administrativo, estamos perante uma falha política grave.

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A primeira obrigação de qualquer governo é garantir que as instituições funcionam. Quando isso não acontece, não basta apontar dificuldades técnicas, culpar sistemas informáticos ou distribuir responsabilidades por organismos públicos. Quem governa responde politicamente pelo resultado final.

Foi precisamente isso que o Ministro da Educação não conseguiu fazer.

Ao longo desta crise, faltou liderança, clareza e autoridade. As explicações chegaram sempre depois dos problemas, nunca antes deles. As decisões foram sendo anunciadas à medida que a realidade as impunha, transmitindo a sensação de que o Ministério da Educação deixou de conduzir os acontecimentos para passar simplesmente a correr atrás deles.

Esta não é apenas uma questão de comunicação política. É uma questão de capacidade governativa.

Um ministro forte transmite confiança mesmo quando enfrenta dificuldades. Um ministro fragilizado limita-se a gerir danos. E foi essa imagem que ficou, a de um governante incapaz de dominar o dossiê mais sensível do seu ministério, deixando escolas, professores, alunos e famílias entregues à incerteza.

Mas seria um erro pensar que este problema começa e acaba no Ministério da Educação.

O episódio dos exames nacionais tornou-se um símbolo de algo muito mais preocupante, a evidente decomposição política de um Governo que parece perder, semana após semana, capacidade de coordenação, autoridade e credibilidade.

As crises sucedem-se em diferentes áreas da governação, as respostas chegam tarde e os ministros surgem frequentemente isolados, sem uma estratégia política coerente. A comunicação do Governo deixou de inspirar confiança para passar a transmitir uma permanente gestão de emergência. A sensação instalada é a de um executivo que já não governa os acontecimentos, limita-se a sobreviver-lhes.

Quando um governo entra nesta fase, o problema deixa de ser um ministro ou um incidente específico e passa a ser a perda de autoridade do próprio poder político.

A Educação apenas tornou visível aquilo que muitos portugueses já pressentiam. A dificuldade em recrutar professores, a degradação das condições das escolas, os sucessivos conflitos laborais, a incapacidade para resolver problemas estruturais e, agora, o caos na organização dos exames revelam um ministério que parece viver permanentemente em reação, nunca em antecipação.

A consequência é devastadora. Perde-se a confiança dos professores. Perde-se a confiança das famílias. Perde-se a confiança dos alunos. E perde-se, sobretudo, a confiança dos cidadãos na capacidade do Estado para cumprir as suas funções mais elementares.

A autoridade política não desaparece de um dia para o outro. Esgota-se lentamente, à medida que os erros deixam de ser exceções e passam a constituir um padrão. Cada crise mal gerida corrói um pouco mais a credibilidade do Governo. Cada explicação insuficiente aumenta a perceção de desorientação. Cada promessa não cumprida reforça a ideia de que o executivo deixou de controlar a máquina do Estado.

Os exames nacionais acabaram por expor essa realidade de forma particularmente cruel. O País assistiu a um Governo incapaz de assegurar um procedimento que deveria estar entre os mais previsíveis de toda a Administração Pública.

É por isso que esta crise dificilmente será recordada apenas pelas falhas técnicas. Será recordada como o momento em que muitos portugueses perceberam que a fragilidade do Ministro da Educação é apenas um sintoma de um problema muito maior, o desgaste acelerado de um Governo que parece ter perdido a capacidade de governar com eficácia, autoridade e visão.

No final, quem acabou verdadeiramente em exame não foram os alunos. Foi o Governo. E esse exame, aos olhos de muitos portugueses, ficou claramente por superar.

Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.