O esquecimento póstumo do Padre João Felgueiras

Foi há umas semanas, no dia três de Julho, que morreu o Padre João Felgueiras, SJ, e sobre ele não se disse tudo o que havia para dizer. Fizeram-se homenagens, é certo, e, na Assembleia Municipal de Lisboa, onde todas as semanas represento o CDS-PP, apresentámos um voto de pesar pela sua morte e, na Assembleia da República, foi também aprovada iniciativa parlamentar semelhante. Mas ao mencionar este jesuíta a alguém, tem-se a nítida sensação de estarmos a falar de um desconhecido. Tem-se essa sensação porque, infelizmente, isso é uma realidade. Ora, a desproporção entre a grandeza histórica, espiritual e política da figura e a ignorância que sobre ele existe em Portugal é tal que deixa uma sensação de injustiça.

A sua vida dava um filme. Um filme com um argumento à altura de Silêncio, de Shūsaku Endō. Não é, evidentemente, este meu texto que irá dar ao Padre João Felgueiras o que o Padre João Felgueiras merece. Mas mal não faz.

João de Vasconcelos Batista Felgueiras nasceu no início da década de vinte do século passado, nas Caldas das Taipas, perto de Guimarães. Entrou para a Companhia de Jesus na década de quarenta. Durante anos, serviu no Colégio São João de Brito em Lisboa e mais tarde foi reitor no Colégio Apostólico da Imaculada Conceição em Cernache, Coimbra. O que para muitos teria sido uma existência plena e cumprida, para Felgueiras foi apenas o prelúdio do que viria a ser a grande missão da sua vida. Quando, em 1971, partiu para Timor, tinha já cinquenta anos e havia passado vinte e nove desde que entrara na vida religiosa.

Cinquenta anos: a idade que, para o comum dos contemporâneos, costuma ser o momento em que se começa a contemplar a reforma foi, para o Padre João Felgueiras (que morreu com cento e cinco), apenas o princípio.

Ao ler os testemunhos de quem conviveu com ele de perto fica-se com a viva noção de alguém que encarnou o paradoxo cristão. Alguém que se agigantou precisamente por se fazer mais pequeno. Alguém sobre quem, um dia, José Ramos-Horta definiu como “Profeta da Educação e da Solidariedade”. Não será, por isso, certamente, coincidência que a fé católica se tenha tornado um dos esteios da resistência timorense e que Timor-Leste tenha hoje cerca de 98% de católicos, a maior percentagem em todo o mundo.

Durante o massacre no Cemitério de Santa Cruz, em Díli, a imagem de gente ajoelhada a rezar que ficou para sempre gravada na nossa memória é, em boa medida, a ele que se deve. Foi o Padre João Felgueiras quem insistiu para que a manifestação se fizesse em oração e sem qualquer gesto de violência, recomendação que os manifestantes cumpriram mesmo perante os disparos das tropas indonésias. E a estóica resistência conduzida nas montanhas por Xanana Gusmão encontrou também nele um conselheiro e um apoio espiritual. Dos testemunhos dos jesuítas resulta que Felgueiras era muito mais do que um padre de missão: era conselheiro, elo entre resistentes, diplomatas, Igreja e população.

Para quem se surpreende com o amor que os timorenses têm por nós, a vida de João Felgueiras ajuda a decifrá-lo. É ela que explica que um povo na outra ponta do mundo, no extremo oriental do arquipélago indonésio, a quinze mil quilómetros do nosso país, continue a amar Portugal, mesmo num contexto pós-colonial e apesar de Portugal o ter deixado entregue à ocupação indonésia.

Na mesma semana em que desapareceu Luís Represas, cuja canção “Timor” ficou para sempre ligada à causa timorense, vale a pena recordar aquele homem que foi talvez o seu maior rosto espiritual. Quando, em 2019, Luís Represas esteve em Timor para um concerto na Fundação do Oriente de Díli, recebeu do Padre João um papel com a letra da canção “Timor”. Não sabemos a razão pela qual o fez. Mas, naquele gesto, o homem que vivera no terreno aquilo de que a canção nascera devolvia ao cantor o que ela significava no mundo real.

No final das exéquias, Timor-Leste declarou o Padre João Felgueiras Herói Nacional, a título póstumo. Em Portugal não existe, no ordenamento jurídico, uma figura equivalente com estatuto oficial. Mas, se alguma vida justificaria ponderar o assunto, seria a de alguém que, para além da fé, defendeu a língua e a cultura portuguesas no lugar mais remoto quando estas eram proibidas. Talvez um dia Portugal esteja preparado para o fazer. Até lá, seria bom ponderar os heróis que escolhemos recordar. É que, nesse exame, não é João Felgueiras que fica diminuído por estar esquecido. Somos nós por ficarmos sem ele.