O Corão contra o Corão

Há um certo conforto intelectual, hoje dominante, em tratar todas as religiões como narrativas equivalentes: histórias que as civilizações contam a si mesmas para suportar a existência, sem que a pergunta “isto é verdade?” tenha grande cabimento. É uma posição confortável porque poupa o incómodo de julgar. Mas é também, sob exame, uma abdicação. Porque há um teste que não depende de fé nem de simpatia cultural para ser aplicado: o da coerência interna. E há um caso, pouco discutido fora dos círculos de apologética cristã, que ilustra isto com uma nitidez quase geométrica.

Chama-se, na literatura anglófona, o “Islamic Dilemma”. Formulado e popularizado pelo apologista norte-americano David Wood, o argumento não pede ao leitor que aceite nenhuma doutrina cristã específica. Pede apenas que leia o Corão com a mesma atenção que aplicaria a qualquer outro texto que se apresenta como revelação divina.

O ponto de partida é simples. O Corão afirma, repetidas vezes, a autoridade da Torá e do Evangelho que a precederam. Manda os cristãos julgar segundo o que “Deus neles revelou” (Surah 5:47). Manda o próprio Maomé, em caso de dúvida sobre a sua própria revelação, consultar “os que liam a Escritura antes dele” (Surah 10:94). Apresenta-se, de resto, como confirmação dessas escrituras anteriores, não como a sua revogação.

O problema é que essas mesmas escrituras, tal como existiam no século VII e tal como as conhecemos hoje através de manuscritos que antecedem Maomé por várias centenas de anos, ensinam exactamente aquilo que o Corão nega: a divindade de Cristo, a sua morte na cruz, a sua ressurreição. Não há aqui um desacordo de nuance teológica. Há uma contradição frontal sobre factos históricos e metafísicos concretos.

Disto resulta um dilema autêntico, no sentido lógico do termo: um argumento em que ambos os ramos da disjunção são custosos para a mesma posição.

Se as escrituras judaico-cristãs estavam intactas na época de Maomé, como o próprio texto coránico pressupõe ao mandar consultá-las, então o seu conteúdo é verdadeiro, e a cristologia do Corão, que o contradiz directamente, é falsa. Se, pelo contrário, essas escrituras já estavam corrompidas nessa altura, então é o Corão que erra, e gravemente, ao afirmar repetidamente a sua fiabilidade e ao mandar os fiéis recorrer a elas como padrão de verificação. Não há uma terceira via que preserve simultaneamente a inerrância coránica e a irrelevância do conteúdo bíblico. Ou o texto revelado erra sobre um facto histórico verificável, ou a doutrina que dele deriva colide com a verdade que ele próprio reconhece.

As respostas islâmicas mais sofisticadas tentam escapar por via semântica: talvez “Torá” e “Evangelho” no Corão designem não os textos em circulação no século VII, mas uma revelação original e perdida, à qual o texto se refere sem se comprometer com a integridade dos exemplares então existentes. É uma manobra engenhosa, mas paga-se caro: esvazia de sentido precisamente os versículos que mandam consultar essas comunidades em caso de dúvida. Não se recorre a um texto para dirimir uma disputa se já se admite, de antemão, que esse texto está corrompido.

Há ainda um segundo problema, menos discutido do que o primeiro, mas mais incómodo para quem hoje pretende exportar o Islão como sistema jurídico e civilizacional completo. Um sistema que se apresenta como khatam al-nabiyyin, selo final e definitivo da revelação, e que simultaneamente erra sobre o estado de uma escritura que ele próprio manda consultar, não tem grande margem para reclamar infalibilidade em matérias de muito maior consequência prática, como a lei penal, o estatuto da mulher ou o tratamento do apóstata. A pretensão de que o Corão é palavra literal e imutável de Deus, transmitida sem intermediação humana, é precisamente o que torna este dilema fatal e não apenas incómodo: um texto de autoria meramente humana pode conter um erro de boa fé sobre escrituras alheias sem que isso comprometa o essencial da sua mensagem; um texto que se apresenta como ditado palavra a palavra por Deus não tem esse luxo. E é sintomático que, ao contrário da tradição cristã, onde a crítica textual às próprias escrituras é um exercício académico normal, praticado há séculos por dentro da fé sem que isso seja apostasia, o mundo islâmico trata a mera possibilidade de erro coránico como blasfémia. Isto não é um argumento contra o Islão enquanto experiência espiritual dos seus fiéis; é um argumento contra a pretensão, cada vez mais assertiva em certos círculos, de que o Corão está imune ao tipo de escrutínio histórico e lógico que aplicamos, sem drama, a qualquer outro texto antigo.

Ora, o que me interessa aqui não é decidir a disputa entre exegetas muçulmanos e apologistas cristãos, tarefa para a qual não tenho, nem preciso ter, autoridade confessional. O que me interessa é o que este caso revela sobre um hábito intelectual mais vasto e mais perigoso: a ideia de que perguntas sobre verdade transcendente estão, por definição, fora do alcance da razão comum, e que todas as tradições religiosas partilham por isso um estatuto epistémico indiferenciado.

Não partilham. Uma revelação que se contradiz a si mesma nos seus próprios termos não está no mesmo plano lógico que uma revelação internamente consistente, seja ela qual for. A coerência interna não é prova de verdade, mas a sua ausência é prova de erro, e essa assimetria basta para desfazer o relativismo cómodo que hoje se apresenta, erradamente, como tolerância.

É este, aliás, o mesmo princípio que devia aplicar-se, com igual rigor, à moral secular contemporânea, que também gosta de se apresentar como neutra e indiferente a critérios de verdade, quando na realidade não é mais do que preferência travestida de imperativo. Se exigimos coerência interna a uma revelação de há catorze séculos, não vejo por que razão haveríamos de dispensar dela as ortodoxias morais fabricadas na semana passada.

O secularismo contemporâneo, aliás, goza de uma imunidade ainda mais confortável do que a que concede às religiões que finge criticar. Exige-se ao Corão e à Bíblia que resolvam disputas de autoridade textual vindas de há milénios, mas não se exige ao progressismo moral do momento presente que explique como é que uma preferência colectiva, mutável de década para década, adquiriu subitamente estatuto de imperativo categórico. Ninguém pede ao activista de plantão que fundamente, com o mesmo rigor lógico que aqui exigimos a Wood e aos seus interlocutores muçulmanos, por que razão a sua moral de hoje vincula quem dela discorda, se não há nenhuma instância acima da preferência agregada a que apelar. A incoerência interna é tratada como escândalo quando encontrada numa escritura antiga mas é tratada como sinal de “evolução” e “sensibilidade acrescida” quando encontrada na ortodoxia moral secular, que troca de posição sobre a família, o corpo ou a justiça com uma desenvoltura que nenhuma tradição religiosa se permitiria sem confessar que estava, até agora, errada.

A ironia final é esta: o secularismo apresenta-se como o único lugar seguro depois do naufrágio das religiões, precisamente porque terá abdicado de pretensões de verdade totalizantes. Mas não abdicou. Substituiu um conjunto de dogmas revelados por outro, tacitamente revelado pelo consenso das faculdades de humanidades e pelas redações dos jornais, e exime-se ao escrutínio que aplica sem hesitação às tradições que despreza. Se há uma lição a tirar do dilema islâmico, não é apenas que uma revelação particular falha um teste de coerência interna. É que quem exige esse teste aos outros e o dispensa a si próprio não está a fazer filosofia. Está a fazer propaganda com sotaque racionalista.