Nesta capital, é proibido ter um carro que não seja branco (ou esteja sujo)

Desde 2015 que a capital do Turquemenistão proíbe a circulação de carros coloridos. Hoje, as ruas de Ashgabat são um mar de veículos brancos, e a explicação oficial nunca chegou a existir.


Uma cidade que já era diferente de todas as outras

Ashgabat não precisava de mais nenhuma excentricidade para se destacar. A capital do Turquemenistão já detinha o recorde Guinness da maior concentração de edifícios em mármore branco do mundo, com avenidas largas, monumentos grandiosos e uma estética quase futurista.

Nas imediações, a famosa cratera de gás conhecida como "Portas do Inferno" arde continuamente há mais de cinco décadas, atraindo curiosos de todo o mundo.

No entanto, foi o trânsito que acabou por se tornar o detalhe mais surreal da cidade. Quem visita Ashgabat conta que não há variedade de cores nas estradas. ou seja, nada de vermelhos, azuis ou pretos. Praticamente todos os carros são brancos.

Como nasceu a regra

Tudo começou em 2015, durante o governo de Gurbanguly Berdimuhamedow, presidente do país entre 2006 e 2022. A primeira medida bloqueou a importação de carros pretos, dando início a uma padronização visual no trânsito da capital.

Em 2018, a restrição foi alargada de forma drástica: apenas veículos brancos, e em alguns casos prateados ou dourados, passaram a ser autorizados a circular nas ruas de Ashgabat.

Segundo relatos de residentes recolhidos pela Rádio Azatlyk, o serviço turcomeno da Radio Free Europe/Radio Liberty (RFE/RL), as autoridades chegaram a apreender carros de outras cores durante a noite, sem aviso prévio, só os devolvendo depois de os proprietários assinarem um compromisso formal de os repintar.

A aplicação da regra nunca passou por um decreto oficial e detalhado, tendo sido imposta através de diretivas policiais, sem qualquer comunicado público, o que deixou muitos residentes confusos sobre a real base legal da medida.

Porquê o branco? As teorias nunca foram confirmadas

O governo nunca explicou oficialmente a razão da lei, o que abriu espaço a várias interpretações. A mais popular associa a decisão à superstição do próprio Berdimuhamedow, que via no branco um símbolo de sorte, pureza e prosperidade, e que é frequentemente fotografado rodeado de cavalos, roupas e arquitetura brancos.

Fontes anónimas dentro do próprio governo terão confirmado essa ligação à RFE/RL, embora nunca tenha havido reconhecimento público por parte de Ashgabat.

Outra teoria aponta para razões práticas. Num país de temperaturas extremas, carros claros absorvem menos calor do que os escuros.

Há ainda quem relacione a decisão com a imagem de "cidade-vitrine" que Ashgabat sempre quis projetar, numa espécie de exposição permanente da riqueza e modernidade do país.

O impacto no dia a dia dos residentes

Para os habitantes de Ashgabat, a lei foi além do impacto visual. As oficinas viram a procura por pinturas disparar, o que fez aumentar, também, os preços.

Segundo um residente citado pela Rádio Azatlyk, a repintura de um carro chegou a custar 7000 manats, um valor que subiria para 11.000 manats ao fim de uma semana (o equivalente a cerca de 1750 a 2750 euros, à taxa de câmbio oficial da altura).

O mesmo residente auferia um salário mensal de 1000 manats (o equivalente a cerca de 250 euros), o que significava gastar praticamente o ordenado de um ano inteiro só para repintar o carro.

Circular fora do padrão pode resultar em multas e apreensão do veículo, pelo que o branco deixou de ser uma escolha estética para se tornar, na prática, uma obrigação legal.

Mesmo os carros brancos não escapam ao escrutínio, havendo relatos de multas aplicadas a veículos simplesmente sujos.

Uma regra que sobreviveu à mudança de poder

Em 2022, Gurbanguly Berdimuhamedow deixou a presidência, entregando o cargo ao filho, Serdar Berdimuhamedow.

Ainda assim, a política dos carros brancos manteve-se intacta, mais de sete anos depois de ter sido reforçada.

Com uma arquitetura reluzente, avenidas impecáveis e trânsito uniformemente branco, a cidade ganhou fama internacional como uma espécie de "cidade encenada".