“Não podemos continuar a esperar”: Greenpeace alerta que um quatro da costa portuguesa está a perder-se sob as ondas

Perto de 25% da costa de Portugal continental está a recuar por causa da subida do nível do mar, com mais de 100 mil pessoas a viverem atualmente em ozonas costeiras de “elevado risco”.

Essa é uma das principais conclusões de um relatório divulgado esta quinta-feira pela Greenpeace Portugal. Com o título “Destruição a Toda a Costa – Retrato de um litoral português em risco”, a análise aponta que a vulnerabilidade da costa portuguesa não se deve apenas aos efeitos das alterações climáticas, mas também a “décadas de ocupação e pressão urbanística” e a “fragilidades na aplicação das regras que deveriam proteger o litoral”.

A organização ambientalista destaca os exemplos da zona de Cascais, onde o nível médio do mar subiu 9,7 centímetros nos últimos 25 anos, e do Algarve, para onde se prevê que 40% das praias poderão desaparecer sob as ondas até 2050 “sem medidas urgentes de adaptação”.

Reconhecendo que Portugal dispõe de legislação e instrumentos de ordenamento “destinados a proteger a orla costeira”, mas que continuam a existir “fragilidades na aplicação, fiscalização, coordenação e atualização das regras face à evolução dos riscos”, a Greenpeace sentencia que a costa portuguesa está “presa entre o avanço do mar e o avanço da construção”.

“Portugal conhece há muito os riscos que ameaçam a sua costa”, diz o diretor da Greenpeace Portugal, acrescentando que “temos conhecimento científico, legislação e instrumentos de ordenamento”.

Por isso, Toni Melajoki Roseiro entende que “não podemos continuar a esperar que uma praia desapareça, uma arriba colapse ou uma infraestrutura fique em risco, para agir”.

“O desafio agora é transformar aquilo que sabemos em decisões políticas coerentes e numa estratégia de longo prazo capaz de proteger as pessoas, a natureza e um território que pertence a todos”, declara.

Contudo, ainda há tempo para resgatar as praias portuguesas do avanço contínuo do mar para terra. Ana Farias Fonseca, Coordenadora de Campanhas e Mobilização da organização portuguesa, diz que, para tal, é preciso “travar novas ocupações em áreas vulneráveis e apostar na prevenção e no restauro de ecossistemas, garantindo que as decisões de hoje não se tornam em problemas irreversíveis e os custos públicos elevados de amanhã”.

Conservar e recuperar ecossistemas costeiros e zonas húmidas, como dunas e sapais, é peça fundamental desses esforços de proteção da costa, pois ajudam a absorver a energia das tempestades, reduzem os impactos da erosão e das inundações e aumentam a capacidade de adaptação da faixa costeira a fenómenos extremos.

Sem essas defesas, as zonas costeiras, todo o seu património natural, bem como infraestruturas e pessoas, ficam expostas à força do mar e das tempestades, que se prevê que venham a ser cada vez mais frequentes e intensas com o agravamento das alterações climáticas.

O relatório é acompanhado por um mapa interativo que reúne fotografias e informação sobre cerca de 350 dos pontos mais vulneráveis da costa portuguesa.

Da Costa da Caparica a Espinho, da Costa Nova à Figueira da Foz, de Tróia, Comporta, Carvalhal e Melides ao litoral alentejano, do Algarve à Madeira e aos Açores, o mapa permite visualizar o que a Greenpeace descreve como sendo “diferentes faces de um mesmo problema”: erosão e recuo da linha de costa, pressão urbanística, ocupação de zonas vulneráveis, degradação de ecossistemas e dificuldades de adaptação às alterações climáticas.

A organização assegura que, com esse mapa, o seu objetivo “não é criar um ranking das zonas mais graves, mas mostrar que o risco assume diferentes formas ao longo de todo o território e que nenhuma região pode ser analisada isoladamente da forma como Portugal decide ocupar, proteger e adaptar a sua costa”.