"Peguei uma grande festa e coloquei dentro dessa caixa", avisa a bonequeira argentina Rosa López para apresentar uma das atrações do Fit, o Festival Internacional de Teatro de São José do Rio Preto, no interior de São Paulo. A artista é uma das participantes da segunda edição da mostra de teatro lambe-lambe, que integra a programação do Fit com 20 espetáculos de animação em miniatura.
"Carrusel del viejo Matías", a apresentação criada e conduzida por López, mostra um evento típico da província de Mendoza, na Argentina, a Festa da Vindima, uma celebração da colheita de uva e do início da produção de vinhos na região.
A cena reproduz o interior de uma pulpería (venda) e revela para um público de apenas três pessoas por vez um mini desfile de carros alegóricos e grupos que comemoram a colheita diante de um velho comerciante. Os espectadores acompanham o festejo com fones de ouvidos e olhos voltados para pequenas frestas abertas na caixa teatral.
Em 2025, quando estreou no festival, a mostra lambe-lambe atraiu público de 1.400 pessoas e percorreu dez regiões e distritos de Rio Preto. Neste sábado (18), no primeiro dia dos mini-espetáculos deste ano, adultos e crianças formaram filas para espiar as cenas, com artistas espalhados com suas caixas pelo gramado do Parque Olinda Tarraf.
A mostra também terá apresentações neste domingo (19), no Complexo Swift de Educação e Cultura, e na segunda-feira (20), na Rodoviária de Rio Preto, a partir das 10h30 nos dois lugares. A entrada é livre e não há a necessidade de retirar ingressos.
O teatro lambe-lambe é uma linguagem cênica criada em 1989 pelas bonequeiras Denise de Santos e Ismine Lima, de Salvador, na Bahia. A inspiração são os fotógrafos lambe-lambe e a origem é a peça "A dança do parto", apresentada pelas duas em ruas e parques como uma forma de abordar a sexualidade e a saúde das mulheres por meio da arte-educação.
Além das caixas cênicas, os espetáculos têm em comum a curta duração, em média cinco minutos, e o fato de geralmente serem vistos por uma única pessoa por vez.
Em Rio Preto, a mostra cumpre a função de ocupar espaços públicos e democratizar o acesso à cultura. A programação reúne produções do Chile, Espanha, Argentina e Bulgária, além de companhias de seis estados brasileiros e artistas de São José do Rio Preto.
Da Bulgária, as bonequeiras Mariya Banova e Yana Doncheva trouxeram "Tonkata" uma delicada cena sobre a conexão entre a velhice e a infância por meio de uma bola, em uma reflexão sobre os ciclos da vida. O espetáculo espanhol "Jersey de lana" comoveu o público ao usar metáforas para falar sobre a saúde ambiental no ambiente familiar.
Os Contos da Colmeia, grupo de teatro lambe-lambe brasileiro criado em 2020 pelo artista Bruno Rudolf, apresenta espetáculos com temas humanitários e ecológicos. Francês, Rudolf está no Brasil desde 2001 e em Rio Preto apresentou "Um caminho para amar", sobre o amor entre pessoas do mesmo gênero que se encontram ilhadas e separadas por um mar revolto.
Outra atração da mesma companhia neste sábado foi "Só existe uma jornada…", em que o público é convidado a se libertar de máscaras e armaduras até chegar a um altar íntimo.
A mostra foi idealizada pela Varanda Teatro, nascida em Rio Preto há 16 anos e pioneira na pesquisa e difusão do teatro lambe-lambe.
OUTRAS ATRAÇÕES
O Fit é realizado até o dia 25 em Rio Preto, no interior paulista, com 33 espetáculos, intervenções artísticas e atividades formativas. A proposta desta edição é a ocupação da cidade, com apresentações em praças e nas ruas, além dos teatros tradicionais.
No primeiro final de semana, "Cena Ouro - Epide(r)mia", da Cia. Mungunzá, lotou o Teatro Municipal Paulo Moura com a peça em que atores e não atores revelam vivências no território da cracolândia, em São Paulo, onde ficava o Teatro de Contêiner, demolido pela Prefeitura de São Paulo após uma disputa com o grupo teatral.
Outro espetáculo, "Boi Material", do coletivo teatral Cênica, de Rio Preto, levou ao palco provocações sobre a vida dos artistas obrigados a conviver com as regras da economia de mercado.
Na história, uma companhia de teatro do interior, com a pronúncia do "r" convenientemente forçada, é contratada por uma agência de marketing da capital e precisa lidar com as expectativas do universo publicitário.
"Os Orixás", do Grupo Giramundo, retomou no festival uma criação teatral que já completou 25 anos, agora com trilha sonora composta e interpretada por artistas negros de Belo Horizonte. A montagem de teatro de bonecos aborda a criação do mundo de acordo com o candomblé.