Vivemos na mentira da igualdade em casa. Antes era à descarada, o pai não fazia nada e ninguém fingia o contrário. Hoje mexe-se um bocado mais, e é só isso, um bocado. Faz metade, acha que fez tudo, e quando faz essa metade quer uma taça, uma medalha e duas semanas de férias.
Sou pai de quatro. Digo-o só para se perceber de onde falo, de dentro, de quem está em casa por inteiro, não de quem espreita da porta. Lá em casa partilhamos tudo, e a palavra é mesmo essa, partilha. Não se ajuda. Ajudar é dar uma mão numa tarefa que é do outro. Partilhar é não haver dono da tarefa. E quem não é dono de nada não espera medalha por nada.
E é de dentro que vejo a conta que quase ninguém vê, a de quem vai ou fica, de quem aconchega, mas também de quem ralha. Na maioria das casas, essa conta é da mãe. O pai executa uma tarefa. A mãe geriu tudo e ainda teve de lha entregar. Isto não é dividir. É passar o trabalho e ficar com a palma.
Seria fácil ficar por aqui, a bater no costume. Mas esta burrice endémica de género também é cultivada do outro lado. Quando o pai faz a tal metade, aquela que ele acha que é tudo, lá vem o reparo, a sopa foi mal aquecida, aquela saia não combina com a camisola. O pai fez, fez à maneira dele, e foi corrigido. Da próxima não faz, ou faz à espera da correção, e a mãe volta a fazer tudo e a queixar-se de que faz tudo. O ciclo fecha-se sozinho.
Chamo-lhe cuidar dos pais como se fossem mais um filho. Há mães que o fazem sem dar por isso, por hábito, por controlo, por aquela certeza de que ninguém faz tão bem como elas. Se calhar é verdade. Mas fazer bem e fazer sozinha são coisas diferentes, e a segunda cobra-se cara, a elas primeiro.
E os filhos veem tudo. Aprendem ali, à mesa, quem decide e quem executa, quem se cansa e quem espera ser elogiado. Estamos a criar a próxima geração de pais que vão querer a medalha, e a próxima geração de mães que lha vão entregar. O molde passa-se sem uma palavra.
Este ciclo não acaba com mais um texto sobre pais ausentes, nem com mais uma lista de tarefas colada no frigorífico. Acaba quando a mãe larga o critério único. Mulheres livres, sem cadastro, sim, mas também sem critério, ao menos no que toca às decisões dos pais. Largar não é desistir. É deixar o pai decidir, e falhar, e decidir outra vez, sem árbitro em casa.
Não escrevo isto contra as mães, escrevo por elas. As mulheres que conheço melhor, a minha mãe e a minha mulher, são as heroínas da minha vida. É por isso mesmo que recuso a mentira. Chamar igualdade a meia dúzia de gestos vistosos de um lado e ao carimbo do outro não liberta ninguém, prende os dois. A mulher livre não é a que faz tudo melhor. É a que larga o lugar de árbitro e deixa o peso, e a decisão, serem mesmo de dois.
O pai que aquece a sopa e espera palmas ainda não percebeu. A mãe que vai a correr provar a temperatura também não.