Maria é argentina, mas a Marie nasceu cá. “É o País que me acolheu. Tem sentido produzir aqui”

 Nasceu na Argentina, mas o seu percurso passou também por Espanha e Portugal. Maria Flavia Pallucchini construiu um percurso ligado ao design gráfico, mas a moda esteve sempre presente como uma das suas paixões. Ainda assim, nunca imaginou que acabaria por criar uma marca própria. Já a viver em Lisboa, decidiu dar esse passo e transformar o um gosto pessoal num projeto de vida. Tudo começou com a pergunta: “O que vestirias se ninguém te estivesse a ver?”.

A resposta deu origem à Marie, que partiu da vontade de Maria Flavia, de 37 anos, de criar um marca que não dependesse das tendências, mas sim daquilo que as mulheres precisavam numa peça. A ideia surgiu depois de se mudar para Portugal, em 2015, e de se tornar mãe. Foi aí que percebeu que, entre tantas mudanças, se tinha deixado um pouco para trás.

Procurava roupa confortável, mas queria voltar a sentir-se bonita sem abdicar da liberdade de movimentos. À medida que começou a conversar com outras mulheres, percebeu que partilhavam a mesma vontade. “Comecei a perguntar a muitas mulheres o que vestiriam se ninguém as estivesse a ver. A conversa deixou de ser sobre roupa e passou a ser sobre como nos sentimos connosco próprias”, conta à NiT.

Foi dessas conversas que nasceu a Marie, fundada no final de 2019. Mais do que uma marca de roupa, tornou-se um projeto que procura traduzir emoções em peças com produção nacional, pensadas para acompanhar diferentes fases da vida e permanecer no guarda-roupa durante várias estações.

O percurso, que começou discreto, coleciona agora várias presenças internacionais, como a pop-up que teve Berlim, na Alemanha, durante a Fashion Week, uma das semanas mais importantes na indústria da moda, de 2 a 5 de julho.

Essa presença, revela, foi importante por ter sido escolhida, junto com outras marcas, para representar o design e qualidade sustentável desenvolvido em Portugal. Entre os dias 1 e 3 de julho, a Ref Creative Lab acolheu as peças de Flavia, numa curadoria assinada pela agência fundada por Ana Luiza Galliza, especializada no posicionamento, comunicação e internacionalização de marcas independentes através de experiências e projetos em várias cidades europeias.

A marca esteve ficou instalada no Zimt & Zucker Kaffeehaus, um espaço conhecido pelo ambiente criativo e descontraído. Assim, ao longo dos três dias, os visitantes, criadores de conteúdos e profissionais da indústria tiveram a oportunidade de descobrir propostas que refletem a diversidade e a identidade da nova geração de marcas portuguesas.

Cada coleção é um novo capítulo na sua história

Formada em Design Gráfico, especializou-se, mais tarde, em tendências sociais, comunicação de moda, direção artística e styling, em Barcelona. Foi precisamente durante essa formação que começou a olhar para a roupa de maneira diferente. “Percebi que a moda não era apenas estética. Era um reflexo daquilo que levamos connosco e da forma como nos relacionamos com o mundo”.

Essa visão continua a orientar a Marie. A fundadora não fala em coleções, mas em capítulos, porque acredita que cada lançamento deve contar uma história. As inspirações podem nascer de experiências pessoais, de momentos específicos da vida ou de reflexões sobre o quotidiano, que depois ganham forma através dos tecidos, das cores e das silhuetas. “Há sempre uma razão por detrás de cada capítulo. Nunca desenhamos roupa apenas porque sim”.

Uma das peças.

Desde o início, que a identidade da marca se resume em três ideias: ser real, livre e bonita. Maria Flavia defende que o conforto representa liberdade, a autenticidade traduz-se na imagem que cada mulher quer transmitir e a beleza reflete-se quando este se sente bem consigo mesma. “Acreditamos muito nesta ideia de que primeiro temos de nos sentir bem connosco próprias para depois conseguirmos transmitir isso para fora. A roupa pode acompanhar esse processo”.

A mais recente coleção chama-se “Momentos” e celebra os pequenos instantes do dia a dia que acabam por ganhar um significado especial. A narrativa prolonga-se na própria construção das peças, desenhadas a partir da estética e durabilidade ideais para acompanhar todas as fases. Em vez de seguir o calendário tradicional da indústria, a Marie trabalha apenas dois capítulos por ano, complementados por pequenos drops ao longo da estação. “Não faz sentido estarmos em pleno verão e já estarmos a apresentar roupa de inverno. Preferimos acompanhar a realidade das pessoas”, esclarece à NIT.

Embora esteja associada à moda sustentável, Maria Flavia prefere outro conceito. “Sinto que a sustentabilidade se tornou uma palavra muito utilizada pelo marketing. Eu prefiro falar em responsabilidade”. Esta filosofia atravessa as decisões da marca, em que as peças são produzidas em Portugal, recorrendo a fábricas nacionais e a um atelier em Lisboa, enquanto os tecidos chegam sobretudo de fornecedores europeus, principalmente dos países nórdicos e de Espanha. O linho, algodão, lã merino e outras fibras naturais são as matérias-primas escolhidas para dar vida às coleções.

A proximidade ao atelier permite que a designer acompanhe cada etapa da produção, testar diferentes soluções e aperfeiçoar os detalhes antes do resultado final ser lançado. “Podemos experimentar, corrigir, voltar atrás e melhorar cada modelo. Isso humaniza muito mais o produto.” Produzir em Portugal acabou também por ganhar um significado pessoal. “Foi o país que me abriu as portas. Fazia sentido trabalhar com pessoas daqui e contribuir para a economia local”, destaca à NIT. 

A responsabilidade reflete-se no processo criativo e como comunica com as clientes. Em vez de incentivar compras constantes, reutiliza os mesmos tecidos em capítulos diferentes, criando novas peças que podem ser conjugadas com modelos já lançados anteriormente. O objetivo é prolongar a vida útil de cada peça e incentivar um consumo mais consciente. “Queremos que uma peça possa acompanhar uma mulher durante muito tempo. Isso é responsabilidade”.

Quando lançou a Marie, Maria Flavia percebeu que estava a criar algo para um público muito especifico, que procura cortes limpos, tons neutros e produções mais pequenas e detalhista, o desafio passou por defender o valor de cada peça. “O mais difícil é chegar pela primeira vez a essa mulher e fazê-la perceber porque é que uma peça custa 200€. Quando conhece o processo, os materiais e o trabalho envolvido, passa a olhar para ela de outra forma”.

Apesar dos obstáculos, admite que foi surpreendida pela forma como o mercado português recebeu o projeto. “Pensava que o meu desenho era mais nórdico do que português, mas encontrei um público muito recetivo.” Atualmente, Portugal e Espanha são os mercados onde Marie está mais representada, tanto nas vendas online como na presença física.

A identidade da marca exposta em cada pop-up internacional

Os tons areia, beges, verdes suaves e azuis claros dominam praticamente todas as coleções, sendo o branco “Gardénia” pela delicadeza da flor, a cor que traduz melhor a estética discreta da marca. Vestidos fluidos, camisas oversized, calças de cintura subida e conjuntos coordenados fazem parte das silhuetas mais recorrentes. “Gosto que seja a mulher a dar personalidade à roupa e não o contrário”, conta à NIT.

Nem tudo correu como planeado durante o desenvolvimento de “Momentos”. O tecido pensado para dar vida à coleção nunca chegou ao atelier e Maria Flavia viu-se obrigada a repensar quase todas as peças. Foi então que encontrou um bordado em algodão cru inspirado nos bordados ingleses, uma alternativa que rapidamente se tornou o elemento distintivo da coleção. “Às vezes os erros acabam por trazer soluções ainda melhores do que aquelas que tínhamos imaginado”.

Foi desta coleção que nasceu um dos maiores bestsellers da marca: o vestido Isadora. É reversível e combina um lado em bordado de algodão e outro em viscose ecológica, funcionando quase como duas peças numa só. 

Espanha é um dos mercados mais importantes, porque a marca colabora com uma loja em Formentera, onde as peças chegam a clientes de diferentes nacionalidades durante os meses de verão. “É muito interessante porque ali passam mulheres de vários países europeus e conseguimos perceber como a marca é recebida por culturas muito diferentes”.

Em Portugal, as criações também estão presentes em concept stores e hotéis boutique, como o Casa Mãe, em Lagos, um dos primeiros espaços a apostar na marca logo após o lançamento. Ao longo dos últimos anos, a marca vem consolidando a sua presença através das pop-ups espalhadas pelo mundo, além de Berlim, também participou na cidade de Milão, em Itália, e mais recentemente, esteve em Copenhaga na Dinamarca.

Para Maria Flavia, estes eventos representam muito mais do que uma oportunidade de venda. “O online nunca consegue substituir aquilo que sentimos quando tocamos num tecido ou percebemos como uma peça veste. Há uma experiência muito sensorial que só existe ao vivo”.

Seis anos depois, a pergunta que deu origem à Marie continua a orientar todas as decisões da fundadora. A resposta ganha forma em cada capítulo, através de peças produzidas em Portugal, desenhadas para acompanhar os diferentes momentos da vida e atravessar tendências. O que começou como uma reflexão pessoal transformou-se numa marca com clientes em diversos mercados internacionais, provando que ainda há espaço para a moda mais consciente que concilia design, delicadeza e uma identidade própria.

Carregue na galeria para conhecer algumas das peças disponíveis na loja online e concept stores, onde a marca está presente.