Marco Silva soterrado nos escombros de Rui Costa, Mário Branco e Mourinho

Imagine que quer começar uma nova vida, deixando a casa onde, durante anos, foi feliz, para embarcar na aventura de renovar uma outra, vítima da decadência dos tempos. Depois, imagine que, ao começar as obras, se depara com sinais estruturantes preocupantes, ao ponto de esta desabar sobre si. Por fim, imagine que, para se reerguer dos escombros, nada mais está à mão a não ser uma colher de sobremesa.

Foi, mais ou menos, esta a sucessão de acontecimentos que tomaram conta da vida de Marco Silva, ao longo dos últimos meses. Sim, é claro que a vida no Fulham estava longe de ser perfeita, e as dificuldades da última época foram claras. No entanto, talvez nem mesmo com Bruno de Carvalho, no Sporting, tenha enfrentado tamanha desordem pela frente na concretização dos seus planos.

A derrota com o St. Gallen, por 2-1, é preocupante, não só no plano financeiro, com todo o dinheiro que acarreta a participação na Liga Europa (por muito distante que seja do que viria da Liga dos Campeões), como, sobretudo, do desportivo, pelo fraco nível do adversário que teve pela frente e pela quase ausência dos sinais de evolução, após um mês de trabalhos de pré-época.

Marco Silva tem a sua quota-parte de responsabilidade, e disso não há dúvidas. No entanto, a culpa não pode morrer sozinha, e tudo começa no próprio presidente, Rui Costa, que, depois de tantos meses a justificar o insucesso ao nível dos resultados com as arbitragens, sem nunca refletir sobre aquilo em que errou, fica sem margem para explicar como é possível perder um jogo destes desta maneira.

O cenário atual também reforça as dúvidas quanto àquilo em que o Benfica ficou a ganhar com a nomeação de Mário Branco para o cargo de diretor-geral. No espaço de um ano, foram investidos já mais de 200 milhões de euros em reforços, e os casos de sucesso são quase inexistentes, por entre passagens fugazes (como as de Rafa Obrador ou Sidny Lopes Cabral) e 'flops' cada vez mais evidentes (como Enzo Barrenechea ou Dodi Lukebakio).

Com um jogo importante logo a abrir a temporada, algumas das apostas foram, no mínimo, questionáveis. Avaliar um jogador por uma partida é injusto, mas não o será dizer que Jakub Kaminsky terá de dar ao pedal para justificar os 17 milhões de euros que custou. E Gabriel Índio, por muito potencial que tenha, nem na UEFA pôde ser inscrito, pelo que a 'novela António Silva' foi arrastada até à exaustão.

No meio disto, de bolsos bem cheios e sem pinga de remorso, está José Mourinho, que partiu para o Real Madrid sem se ter preocupado minimamente em preparar a equipa para a nova temporada, ainda que todos os objetivos (com exceção do apuramento para a Liga dos Campeões, no qual também fracassou) tivessem ficado pelo caminho logo no início de janeiro.

Juntos, Rui Costa, Mário Branco e José Mourinho deixaram Marco Silva soterrado, de colher de sobremesa na mão, à procura de se socorrer de tamanha derrocada. Cabe-lhe, agora, rezar por reforços e agarrar-se ao decrépito Seixal (lembra-se de quando era um dos pilares do projeto desportivo do Benfica?), na tentativa de evitar o mesmo destino de Roger Schmidt e Bruno Lage.

Um pesadelo com vista para os Alpes e um Benfica na luta contra o relógio

Um pesadelo com vista para os Alpes e um Benfica na luta contra o relógio

As notas do jogo entre o St. Gallen e o Benfica, a contar para a primeira mão da segunda pré-eliminatória da Liga Europa, que terminou com uma derrota encarnada por 2-1.

Davide Rodrigues Araújo | 07:43 - 24/07/2026