Lições para uma vida inteira

"O nosso maior desafio não é formar apenas uma seleção campeã. 2030 taí. O nosso maior desafio é construir uma cidade que ame todas as idades"

O Brasil saiu da Copa. Voltou para casa mais cedo. Sem disputar a final do certame (mais uma vez). Agora com a decepção nacional, vem as análises, as críticas, a busca incessante pelos culpados. Tem sempre que ter um culpado. Ou culpados. Mas, quem?

Vou fazer um exercício de imaginação: uma relação simbólica entre a eliminação do Brasil na Copa e o nosso processo de envelhecimento. Todo mundo entende de futebol, mas poucas pessoas opinam sobre outras realidades, como a do nosso envelhecimento. O que tem a ver o futebol com a passagem do tempo? Tudo a ver.

O futebol explica o mundo — esse é o título de um livro de autoria de Marcos Guterman. Uma historia da maior expressão popular do país. Tanto a disputa na Copa quanto a maturidade nos confrontam com a vivência dos nossos limites, das nossas perdas, das nossas expectativas e das nossas necessidades de recomeçar. Cada jogador de futebol depende do outro. Não conquistamos vitórias sustentáveis sem o compromisso coletivo.

A aprendizagem para envelhecer implica em aceitar que perder faz parte da vida. Pode parecer um manjado clichê, mas é verdade. Ninguém vence para sempre. Temos o curriculum vitae, mas mesmo com pouca visibilidade, vivenciamos o curriculum mortis.

Nenhuma seleção de futebol é campeã eternamente. Ninguém permanece jovem para sempre. Aceitar os ciclos da vida é um sinal de maturidade. O resultado que desejamos construir para a frente dos nossos dias começa cedo. Assim é com a conquista de um envelhecimento digno com educação, saúde, trabalho, renda e acesso a direitos. Por isso, devemos lutar. Participar de espaços públicos coletivos emancipatórios da condição humana no nosso envelhecimento.

Com a trajetória da nossa caminhada podemos perder a pressa; algumas certezas; muitos jogos. Perdemos também o que é mais dolorido, pessoas queridas, que amamos muito. Como num bom jogo de futebol, podemos ganhar também. Ganhar discernimento, solidariedade e a rara habilidade de distinguir o que é essencial do que é supérfluo.

Por que perdemos a Copa? Ao invés dessa pergunta, por que não questionamos o seguinte: por que aceitamos, de braços cruzados, perder tantas oportunidades de construir um país, ou uma cidade para todas as idades? Os países campeões serão aqueles capazes de enfrentar as desigualdades, combater o idadismo, fortalecer o cuidado e reconhecer que envelhecer não deve ser um privilégio de poucos, mas o destino de todos nós. Com dignidade, respeito e políticas públicas.

Não haverá futuro para uma sociedade ou para uma cidade que insistir em tratar milhões de pessoas idosas como se fossem um problema, quando, na verdade, elas representam e são, memória, trabalho, conhecimento e sabedoria. Ficamos frustrados, decepcionados com o desempenho do nosso time na Copa. Mas, mais do que perder no campo, nós perdemos muito mais, quando não nos preparamos para o lance da revolução da longevidade.

O nosso maior desafio não é formar apenas uma seleção campeã. 2030 taí. O nosso maior desafio é construir uma cidade que ame todas as idades.

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