Jovem luta para retirar nome da mãe de documentos. Mulher "rifava filhas"

Uma jovem de 28 anos que foi alvo de maus-tratos e abusos sexuais durante a infância está a lutar para que o nome da mãe seja removido de todos os seus documentos, acusando-a de “rifar as filhas” em troco de benefícios, como viver em casa dos agressores, no Brasil.

Nascida Larissa, a jovem conseguiu mudar o nome para Heloísa Alves Duque Rodrigues, em 2024. Na altura, o tribunal de São Paulo baseou-se em provas de violência doméstica, tortura e exploração sexual. Contudo, a justiça rejeitou o pedido de exclusão total da maternidade das certidões, por considerar que não existe amparo legal para apagar o registo da maternidade biológica, mesmo em contextos de indignidade.

A defesa da jovem interpôs recurso no Tribunal de Justiça (TJ-SP) em janeiro de 2026, sustentado que o sistema judicial já admite a anulação de vínculos paternos em casos de abandono material e afetivo, e que manter o vínculo materno em situações de violência extrema viola o princípio da igualdade, noticiou a CNN.

Heloísa, que assumiu que preferia não ser filha de ninguém, contou ao g1 que “nunca [recebeu] um abraço”. Os abusos agravaram-se após a separação dos pais, quando tinha cinco anos. Aliás, a jovem começou a denunciar a mãe ainda com tenra idade, tento relatado abusos contra os irmãos em abril e maio de 2010.

A progenitora foi convocada pela justiça e comprometeu-se a zelar pela filha mas, em agosto do mesmo ano, o pai de Heloísa pediu que a menina recebesse acompanhamento psicológico, por sofrer de depressão.

"O primeiro abuso foi com nove anos. Havia um rapaz que cuidava de mim, e ela deixou-me na casa dele. A mulher e a filha tinham saído. Cheguei em casa, contei-lhe. A minha mãe espancou-me e nunca mais falámos sobre esse assunto", relatou a jovem.

Heloísa confessou ainda que, a partir dessa idade, a mãe "rifava as filhas" para obter benefícios e era conivente com os abusos sexuais, sendo que vários homens pagavam-lhe para ter acesso às filhas. Como se não bastasse, a mulher forçava a menina a presenciar as suas próprias relações sexuais e a tirar-lhe fotografias nua para enviar a homens, de acordo com a CNN.

O mesmo meio indicou que o processo enumera episódios de tortura, incluindo queimaduras e casos em que Heloísa era empurrada para cima de cacos de vidro, o que resultou em cicatrizes permanentes, além de castigos físicos, maus-tratos e ameaças. Numa ocasião, foi obrigada a comer o seu próprio vómito. A relação com a progenitora foi, assim, marcada por negligência severa, abandono afetivo e ausência dos deveres mínimos de cuidado e proteção.

Já adulta, em 2017, Heloísa reuniu vídeos, áudios e outras provas e publicou um relato nas redes sociais, que chegou ao Ministério Público de São Paulo e resultou numa investigação, na qual a mãe foi ouvida apenas como testemunha.

Dois homens foram julgados e condenados, tendo um deles ficado sujeito a uma pena de 31 anos e oito meses de prisão por violência sexual contra as três irmãs. Outro foi condenado a nove anos e quatro meses por violência sexual contra duas das irmãs mais novas. Ambos estão a recorrer das condenações em liberdade, de acordo com o g1.

Em 2025, Heloísa apresentou uma nova denúncia contra a mãe por violência doméstica, perseguição e pela participação nos abusos sexuais. A mulher ficou impedida de se aproximar da filha a uma distância mínima de 500 metros.

Contudo, a mulher negou ao g1 as acusações de maus-tratos, de conivência com abusos sexuais e de ter recebido dinheiro para permitir o contacto da filha com homens, e argumentou que Heloísa inventou histórias para poder viver com o pai, quando era criança.

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