Insultos, falta de pagamento e chantagem. O inferno vivido pelos artistas no Estação Menina Bonita

“Só queremos o que é nosso por direito. Não estamos a pedir um favor nem um privilégio. Estamos a pedir que nos paguem o trabalho que fizemos”. Foi com esta frase que Diana Lucas decidiu, em conversa com a NiT, quebrar mais de um ano de silêncio sobre aquilo que diz ter vivido nos bastidores do restaurante Estação Menina Bonita, em Lisboa.

A cantora garante que tanto ela, como dezenas de artistas com quem trabalha, tentaram resolver a situação longe dos holofotes, mas chegaram “a um ponto em que perceberam que estavam a ser enganados”.

A cantora, de 39 anos, é a voz por detrás da denúncia feita esta quarta-feira, 15 de julho, através de um comunicado publicado nas redes sociais por vários elementos da equipa artística do espetáculo “Mamma Mia Station”, realizado às sextas-feiras e sábados. “Tentámos proteger o projeto até ao fim. Nunca quisemos prejudicar o restaurante nem cancelar espetáculos. O que queríamos era trabalhar e receber. Só isso”, acrescenta. 

No texto, acusam o restaurante de sucessivos atrasos nos pagamentos, incumprimento dos acordos estabelecidos, falta de condições para trabalhar e da tentativa de substituir toda a equipa mantendo exatamente o espetáculo que tinha sido criado por eles.

Mas, segundo Diana Lucas, a história teve início muito antes do comunicado. Começou no final de fevereiro de 2025, quando recebeu um telefonema para assumir a direção artística do espaço, aberto desde 2022.

Na altura, explica, o proprietário pretendia reinventar o restaurante através de um conceito semelhante ao famoso “Mamma Mia! The Party”, apresentado em Londres. O objetivo passava por transformar o espaço num verdadeiro dinner show, onde os clientes jantavam enquanto assistiam a um espetáculo inspirado no universo do musical.

Foi ela quem reuniu a equipa artística, escolheu cantores, bailarinos, encontrou a coreógrafa que se tornou no seu braço direito, escreveu o guião adaptado ao espaço, desenhou a dinâmica do espetáculo e criou um conceito pensado ao detalhe para aproveitar as características do restaurante, incluindo a famosa cascata existente na sala.

“O ‘Mamma Mia Station’ é um projeto da minha autoria. A coreografia foi criada por uma colega minha e fomos montando tudo de raiz. Chamámos artistas que já trabalhavam connosco noutros projetos porque sabíamos a qualidade que podiam oferecer. Aquilo não existia antes de nós”, explica.

A cantora já conhecia o restaurante, com atuações ao vivo e espetáculos que já tinha criado anteriormente. Recorda que o espaço atravessava uma fase complicada e procurava uma forma de voltar a atrair clientes. Segundo conta, apresentou várias ideias. Algumas foram recusadas, outras avançaram. O “Mamma Mia Station” acabou por se tornar a principal aposta da casa.

Pagamentos em atraso (ou a falta deles)

O acordo inicial parecia simples. Diana seria diretora artística, participaria como cantora em praticamente todos os espetáculos, faria concertos a solo quando necessário e daria igualmente a cara pelo projeto nas campanhas de divulgação do restaurante. Em troca, teria direito a um valor mensal previamente negociado. Só que esse acordo, garante, nunca chegou verdadeiramente a ser cumprido.

“Pedi contrato logo desde o primeiro dia. Disseram-me que primeiro queriam fazer uma experiência porque ainda não conheciam o trabalho. Aceitei porque me garantiram que seriam apenas dois meses e depois passaria a contrato. Nunca aconteceu.”

Durante esse período experimental, recebeu menos do que aquilo que tinha sido inicialmente acordado. Ainda assim, diz que aceitou porque acreditava que, terminado esse prazo, tudo seria regularizado. Quando chegaram ao fim dos dois meses, porém, surgiu uma nova versão. “Diziam que afinal tinham sido três meses o que estava combinado. Nunca foi isso que acordámos.”

Os meses foram passando, as promessas também, e o contrato nunca apareceu — continuou a trabalhar a recibos verdes (ela e todos os outros artistas). Enquanto isso, o espetáculo começava a crescer. Rapidamente, o “Mamma Mia Station” tornou-se a maior atração da Estação Menina Bonita.

Foi precisamente nessa altura que, segundo conta, começaram os primeiros atrasos nos pagamentos à equipa. No início eram apenas alguns dias e, depois, passaram para semanas. Mais tarde, deixaram simplesmente de existir datas certas.

“Havia sempre uma justificação diferente. Um dia diziam que a conta tinha sido penhorada. No outro estavam à espera que entrasse um pagamento. Depois era porque o dinheiro vinha de outro lado ou porque alguém estava de férias”, recorda.

Mesmo assim, decidiram continuar. Embora tivessem trabalhos paralelos — alguns atuavam na televisão, davam aulas, ou tinham performances internacionais —, o “Mamma Mia Station” era um espetáculo que os enchia de orgulho. Ao mesmo tempo, convenciam-se de que a situação ia melhorar. 

A solução encontrada pela administração, segundo Diana, passou por dividir os pagamentos. Em vez de receberem tudo de uma só vez, a sua equipa artística passou a receber em duas tranches. Ainda assim, garante que nem essas datas eram respeitadas. “A minha equipa recebia uma parte ao dia 8, outra 15 dias depois. Nunca sabíamos exatamente quando ia cair o dinheiro.”

Entretanto, começaram também a perder elementos da equipa. Vários artistas decidiram abandonar o projeto por já não conseguirem suportar tantos atrasos, o que obrigava Diana Lucas a reorganizar constantemente os espetáculos.

E além da direção artística, fazia também concertos a solo para garantir que a programação continuava mesmo quando o “Mamma Mia Station” não se realizava. Só que esses espetáculos extra, diz, também deixaram de ser pagos conforme o combinado.

Diana Lucas

Segundo conta, chegou a fazer 16 atuações individuais sem nunca receber o valor inicialmente acordado. Enquanto isso, as críticas da administração tornavam-se cada vez mais frequentes. “Havia sempre alguma coisa errada. Era o vestido da cantora. Era uma bailarina. Era outra coisa qualquer.”

Para perceber porque continuavam a exigir cada vez mais enquanto os pagamentos permaneciam em atraso decidiu pedir uma reunião. “Disseram-me que eu só levava artistas que tinham ‘muita mania’. Achavam que uma pessoa podia cantar quatro ou cinco horas seguidas por 100€ ou menos.” A cantora explica que sempre fez questão de contratar profissionais experientes, muitos deles conhecidos do público português. “Se querem qualidade, têm de pagar qualidade”, disse-lhes.

A conversa acabou por terminar da pior forma. Não foi despedida, mas foi afastada da direção artística do espetáculo que tinha criado. Mesmo assim, continuou ligada ao “Mamma Mia Station”, como responsável pela gestão da performance das sextas-feiras.

As más condições de trabalho e os insultos

Mas os problemas estavam longe de terminar. Foi também nessa altura que, segundo Diana Lucas, começaram a tornar-se evidentes problemas que iam muito além dos salários em atraso. A cantora diz que as condições de trabalho nunca acompanharam a dimensão que o espetáculo estava a ganhar.

“Nós fazíamos tudo para que quem estivesse na sala nunca percebesse aquilo que acontecia nos bastidores. O público via um espetáculo bonito. Mas, atrás da cortina, era completamente diferente”, conta.

Um dos exemplos eram os camarins disponibilizados à equipa artística. Segundo Diana, durante meses trabalharam num espaço que tinha janelas partidas e, numa das zonas, nem sequer existia teto. “No inverno passávamos frio, no verão era um calor insuportável. Pedíamos constantemente melhores condições. Diziam sempre que iam resolver, mas nunca acontecia.”

Também a componente técnica ficava aquém das expectativas. Apesar de o restaurante apresentar um espetáculo musical todas as semanas, a cantora diz que nunca existiu um técnico de som dedicado. “Houve noites em que os microfones simplesmente deixavam de funcionar. Outras vezes ficávamos sem luz a meio do espetáculo. Nós próprios não conseguíamos ouvir. Quem estava na sala tentava desenrascar porque não havia um técnico responsável.”

Ao longo dos meses que trabalhou na Estação Menina Bonita, ouviu também críticas inacreditáveis à sua equipa. “Chamavam-lhes gordas. Diziam que eram feias. Eram comentários completamente desnecessários.”

Conta ainda que, numa determinada reunião, lhes terá sido comunicado que qualquer erro durante um espetáculo poderia passar a ser descontado no salário. “Se alguém se enganasse numa letra ou numa coreografia, ameaçavam descontar dinheiro. Estamos a falar de profissionais que já trabalhavam com meses de pagamentos em atraso e que nunca tinham deixado de atuar”.

Apesar de tudo, diz que continuavam a acreditar que a situação financeira iria melhorar. Até porque, segundo conta, o restaurante estava frequentemente cheio nas noites do “Mamma Mia Station”.

Ao longo desse período, as justificações iam mudando. Ora a conta bancária estava penhorada, ora a direção estava à espera de um outro pagamento. Segundo Diana, chegou mesmo a acontecer a administração ausentar-se durante semanas para férias enquanto os artistas aguardavam pelos salários.

A cantora diz também que passou inúmeras vezes dias inteiros no restaurante à espera de reuniões. Enquanto isso, os patrões “tinham ido às compras ao centro comercial”. Ainda assim, continuava disponível para tentar encontrar soluções. Segundo Diana Lucas, o objetivo nunca foi abandonar o projeto. “Eu acreditava mesmo naquele espetáculo. Aquela casa tem um potencial enorme.”

Um dos episódios que mais a marcou aconteceu quando recebeu um telefonema de uma colega da área do espetáculo — que lhe revelou que outro cantor tinha sido convidado pelo restaurante para integrar o elenco do “Mamma Mia Station”.

Poucos dias depois, começaram a surgir outros relatos semelhantes. “Eu e a equipa percebemos que estavam a contactar várias pessoas do meio.” Numa das noites de espetáculo, o elenco encontrou vários performers conhecidos sentados numa mesa do restaurante — mas não estavam ali como clientes.

Segundo o que a cantora nos conta, tinham sido convidados para assistir ao espetáculo. “Quando os vimos, percebemos logo o que se estava a passar.” Pouco depois, confirmaram as suspeitas. “Eles tinham vídeos nossos. Tinham vídeos das coreografias, do espetáculo, da forma como tudo funcionava. A ideia era fazer exatamente aquilo que nós criámos, mas com outra equipa.”

Nessa mesma noite, foi falar com os proprietários para tentar perceber o que estava a acontecer exatamente. Quando perguntou se seriam despedidos, a resposta foi simples: “não”. “Disseram-nos que era apenas uma equipa de reforço, para haver mais pessoas disponíveis.”

Mas esta explicação não convenceu o grupo. “Sentimos que, como começávamos a reclamar das condições e dos pagamentos, estavam simplesmente à procura de uma forma de nos substituir.” Entretanto, surgiu uma nova esperança. Segundo Diana Lucas, foi comunicada à equipa a entrada de novos investidores no restaurante. Prometeram-lhes mais estabilidade financeira e até aumentos do salário. “Disseram que, finalmente, íamos começar a pagar tudo a horas.”

Propuseram-lhe, depois, um aumento superior ao que inicialmente tinha pedido, mas decidiu negociar um valor intermédio. “Nem sequer aceitei o valor máximo que me ofereceram. Preferi pedir menos porque pensei: se prometerem demasiado, depois também não conseguem pagar.”

Segundo conta, também lhes garantiram que deixariam de existir pagamentos faseados para a equipa e que todos os salários dos artistas seriam liquidados integralmente todos os meses. Mas a mudança não chegou a acontecer e, ao fim de algumas semanas, surgiram novas explicações — uma história que se repetia constantemente.

Desta vez, diz, foi-lhes comunicado que um dos investidores, da Angola, ainda não tinha conseguido trazer dinheiro para Portugal e que, por isso, era preciso esperar mais algum tempo. “A conversa voltou a ser exatamente a mesma de antes.”

Foi nessa altura que começou a ameaçar ir-se embora e a reação era sempre semelhante. “Primeiro diziam: ‘Se quiseres, vais embora.’ Mas quando percebiam que eu estava mesmo decidida, começavam os telefonemas.” Segundo conta, recebia chamadas consecutivas para permanecer no projeto. Apesar disso, diz que chegou um momento em que todos perceberam que a situação dificilmente iria mudar.

A situação tornou-se insustentável no final da primavera. Segundo Diana Lucas, nessa altura ainda havia parte do salário de maio por liquidar e os primeiros pagamentos de junho também já estavam em atraso.

A artista explica que passou semanas a receber garantias de que o dinheiro seria transferido “no dia seguinte” ou “até ao final da semana”, promessas que, diz, nunca eram cumpridas. “Chegou uma altura em que já nem perguntávamos quando íamos receber. Perguntávamos se íamos receber. Nós não estávamos a pedir um adiantamento. Estávamos a pedir dinheiro correspondente a trabalho que já tinha sido feito dois meses antes.”

Ao mesmo tempo, revela que continuavam a surgir situações que considerava incompreensíveis. Uma delas aconteceu depois de uma infiltração num dos camarins utilizados pela equipa. Um funcionário contratado pelo restaurante tinha garantido que o espaço reunia condições para ser utilizado. Pouco tempo depois surgiu uma infiltração e, afirma, a administração enviou um vídeo à equipa a dizer que o custo da reparação poderia ser descontado nos pagamentos dos artistas. “Não tinha sido provocada por nós. Era um problema que já existia naquele espaço.”

Outro episódio que diz nunca esquecer aconteceu quando recebeu fotografias de uma sanita acompanhadas por mensagens dirigidas à equipa artística. Segundo conta, a administração enviou imagens da casa de banho com dejetos, responsabilizando os artistas pelo estado em que alegadamente a tinham deixado. “Mandavam fotografias de uma sanita e diziam que nós éramos isto e aquilo. O mais absurdo é que nós nem sequer utilizávamos aquela casa de banho.”

A cantora recorda ainda outra prática que lhe causava desconforto. Segundo afirma, os clientes que queriam tirar fotografias numa das zonas mais procuradas do restaurante, a varanda, eram quase obrigados a deixar primeiro uma avaliação de cinco estrelas no Google.

O limite acabou por ser ultrapassado em julho. Segundo Diana, a administração comprometeu-se a liquidar a totalidade do valor em dívida referente ao mês de maio até 30 de junho. O dia chegou, mas o pagamento não. “Ninguém disse absolutamente nada”.

Foi então que a equipa decidiu reunir. Os artistas fizeram um pedido simples: que fosse pago o que já estava muito atrasado e uma parte de junho. Pouco depois, a antiga diretora artística recebeu um telefonema. “Disseram-me que o ‘Mamma Mia Station’ tinha sido cancelado. Isto dois dias antes da próxima performance.”

Com o final do espetáculo, alguns elementos receberam pagamentos parciais, enquanto outros continuam sem receber. No seu caso, diz, a situação era ainda mais complicada. “Chegou a haver uma espécie de chantagem. Diziam que se pagassem aos artistas da minha equipa, eu tinha de esperar pelo meu pagamento.”

Antes de tornar o caso público nas redes sociais, Diana Lucas afirma que, com a ajuda de uma advogada, tentou entrar em contacto com a direção. “Disse-lhes que aguardava feedback urgente sobre a nossa situação. Só pedimos que haja transparência ou qualquer outra solução”, lamenta. “Tentámos resolver isto da forma mais discreta possível, mas não fomos ouvidos.”

Atualmente, a equipa está a reunir toda a documentação necessária para avançar judicialmente. Este desfecho, garante, é algo que a entristece. “Aquilo podia ser um dos espaços mais incríveis de Lisboa para espetáculos. Tem condições para isso. O problema nunca foi o espaço. Foi a forma como foi gerido.”

Diana Lucas prefere não revelar o montante que diz continuar em dívida, limitando-se a afirmar que se trata de “valores elevados”. O objetivo, insiste, nunca foi obter qualquer compensação adicional, mas apenas receber aquilo que considera ser devido pelo trabalho realizado. “Só queremos o que é nosso por direito.”

A NiT tentou entrar em contacto com o restaurante Estação Menina Bonita, mas até ao momento ainda não obteve resposta.

Leia o artigo da NiT para conhecer as outras críticas feitas ao Estação Menina Bonita — desta vez por clientes.