Incêndios: 91% da área ardida em 2025 causada por 44 fogos, combate deve ser focado

Poucos fogos florestais consumiram 91% da área ardida em 2025, um ano quente com poucas ignições, mostrando que o combate se deve concentrar em “incêndios extremos”, refere um relatório do Sistema Gestão Integrada de Fogos Rurais (SGIFR), hoje divulgado.

“Sendo um dos anos meteorologicamente mais severos das últimas décadas, registaram-se cerca de 271 mil hectares de área ardida, o quarto valor mais elevado desde 2001”, com “44 incêndios responsáveis por aproximadamente 91% da área ardida nacional”.

O que demonstra que “o principal desafio do sistema reside atualmente na prevenção e gestão de incêndios de grande dimensão e elevada complexidade”, segundo o relatório a que a Lusa teve acesso.

Em 2025, “Portugal registou 8.252 incêndios rurais, o terceiro valor mais baixo desde 2001”, apesar de “ter sido o quinto ano meteorologicamente mais severo” do século, “com 29 dias consecutivos de perigo ‘Máximo’, ‘Extremo’ ou ‘Excecional’”, pode ler-se no documento.

O relatório menciona também as “alterações climáticas” para defender “a necessidade de acelerar a adaptação dos territórios rurais, aumentar a sua resiliência e reforçar a capacidade operacional para responder a eventos extremos”.

Segundo os dados, 84% da área ardida ocorreu em zonas de perigosidade alta ou muito alta e 73% concentrou-se na região centro, o que reforça “a urgência de direcionar recursos e investimento preventivo para as Áreas Prioritárias de Prevenção e Segurança”.

Em 2025, morreram seis pessoas por causa dos fogos rurais, menos 10 do que em 2024, e “as emissões de carbono atingiram cerca de 3,6 milhões de toneladas, representando aproximadamente o dobro da média histórica observada desde 2003”.

De acordo com o relatório, “as perdas económicas diretas associadas aos espaços florestais, agrícolas e aos serviços dos ecossistemas ascenderam a cerca de 85 milhões de euros”.

No que diz respeito ao combate, a Agência para a Gestão Integrada de Fogos Rurais (AGIF) – cuja missão é fazer o planeamento, coordenação estratégica e avaliação do Sistema de Gestão Integrada de Fogos Rurais – reconhece que houve falhas no controlo dos reacendimentos, embora tenha existido “uma capacidade de resposta operacional elevada, com 93,4% dos incêndios dominados em ataque inicial”.

Em 2025, “a taxa de reacendimentos, embora com valores mais baixos do que antes de 2017, foi de 8%, superior à meta de 1%” e as “análises dos incêndios mais complexos reforçam a necessidade de evoluir para um modelo mais antecipatório baseado na avaliação do risco e no planeamento prospetivo”.

Para os autores, a “crescente concentração da área ardida em poucos incêndios exige uma aposta continuada na qualificação, na interoperabilidade dos sistemas e na utilização de técnicas especializadas de supressão”.

Após os incêndios de 2017, que causaram várias mortes em todo o país, foi feita uma reforma da gestão dos incêndios, promovida pela AGIF, que reforça a cooperação entre estruturas locais, regionais e nacionais.

“Esta evolução confirma a consolidação de uma tendência estrutural de redução das ignições, particularmente associada ao uso negligente do fogo”, graças às campanhas de sensibilização e reforço da vigilância, patrulhamento e fiscalização, além dos apoios à “realização segura de queimas e queimadas”, refere o relatório, entregue ao parlamento e ao Governo no final de junho de 2026.

Para a organização, o relatório mostra que “a reforma iniciada após 2017 continua a produzir resultados consistentes, mas demonstra igualmente, com transparência, que persistem desafios estruturais na prevenção dos incêndios rurais”.

“O impacto médio da área ardida no período pós-2017 continua 43% inferior ao registado antes da reforma”, mas hoje o “principal desafio do sistema deixou de ser o elevado número de ocorrências e passou a concentrar-se na prevenção e gestão de um número reduzido de incêndios extremos”.

No balanço da estratégia, em 2025, 53% do plano de ação do SGIF foi executado, com “196 mil hectares de gestão de combustível, ultrapassando a meta anual” e estavam “em execução 62 operações integradas de gestão da paisagem, abrangendo aproximadamente 100 mil hectares e um investimento superior a 180 milhões de euros”.

Além disso, os programas Aldeia Segura Pessoas Seguras e Condomínio de Aldeia, que fazem parte do plano passaram a abranger 2.386 aglomerados.

“O investimento global do SGIFR atingiu 600 milhões de euros, o segundo valor mais elevado desde o início do Programa Nacional de Ação, sendo 54% da despesa aplicada em prevenção, confirmando a mudança estrutural do sistema”, refere o relatório.

Os autores do documento salientam que é necessário acelerar “a transformação do território e a valorização económica dos espaços rurais, com incentivos financeiros, também fiscais, que premeiem quem gere”.

Além disso, defendem a “recuperação de áreas ardidas e a expansão da silvicultura preventiva, do pastoreio extensivo e do uso do fogo bom” para limitar as zonas combustíveis, a par da “qualificação dos meios especializados para responder aos incêndios de comportamento extremo”, entre outras matérias.