Fundo de florestas precisa de US$ 3,2 bi até o fim do ano - 11/07/2026 - Economia - Folha

O Fundo Florestas Tropicais para Sempre (TFFF, na sigla em inglês) precisa captar mais US$ 3,2 bilhões (R$ 16,3 bilhões) para alcançar a meta de US$ 10 bilhões (R$ 51 bilhões) até o final deste ano, mas atraiu apenas US$ 62,6 milhões (R$ 319,7 milhões) nos sete meses após os primeiros investimentos de nações.

Os US$ 6,8 bilhões (R$ 34,7 bilhões) já captados pelo fundo seguem abaixo do volume necessário para o mecanismo começar a funcionar.

O governo Lula (PT) lançou o TFFF em novembro de 2025, às vésperas da COP30, a conferência do clima das Nações Unidas que aconteceu em Belém naquele mês, com o objetivo de contribuir para a preservação das florestas. A meta, sem prazo definido, é receber US$ 25 bilhões (R$ 127 bilhões) em recursos públicos e US$ 100 bilhões (R$ 510 bilhões) de fontes variadas, inclusive particulares, totalizando US$ 125 bilhões (R$ 638 bilhões).

Porém, uma das condições do aporte da Noruega, de US$ 3 bilhões (R$ 15,3 bilhões), é que ao menos US$ 10 bilhões sejam garantidos até dezembro: sem o montante, o investimento norueguês ficará comprometido.

João Paulo de Resende, assessor especial do Ministério da Fazenda, diz que o governo está confiante em alcançar a quantia a tempo.

Luxemburgo foi o único país a confirmar contribuição desde a COP30, com 50 milhões de euros anunciados em 5 de junho (US$ 57,6 milhões, cerca de R$ 297 milhões, na cotação da data do anúncio). Os investimentos serão distribuídos de 2026 a 2030. A nação também será a sede do braço financeiro do fundo e prometeu que os impostos arrecadados com a operação serão reinvestidos no mecanismo.

A ONG The Nature Conservancy anunciou no último dia 24 que investirá US$ 5 milhões (R$ 25,5 milhões). "A expectativa é que a contribuição incentive outros países e organizações a se somarem a esse esforço", afirmou a entidade. É a segunda aplicação privada: a Fundação Minderoo, liderada pelo bilionário australiano Andrew Forrest, havia se comprometido com US$ 10 milhões (R$ 51,7 milhões) durante a cúpula em Belém.

No último dia 23, a Fundação Financiamento para a Biodiversidade apresentou uma carta de apoio ao TFFF. O documento tem assinaturas de 12 instituições financeiras e segue aberto para adesões até setembro, mas não sinaliza uma previsão concreta de investimentos.

"Temos conversado com o Canadá, com países do golfo [Pérsico] e asiáticos", afirma Resende. Segundo ele, as nações levam um tempo para internalizar a dinâmica do TFFF até se sentirem confortáveis em anunciar um investimento.

A China é outra possibilidade, mas ainda não há uma posição oficial de Pequim. "Pelo nível das discussões políticas, já está bem claro o interesse de participar, mas os chineses têm questões técnicas que ainda precisam ser discutidas", diz. "São questões sobre como eles esperam que o fundo seja administrado."

Interlocutores do Reino Unido também têm transmitido sinais positivos aos negociadores do TFFF acerca de uma possível contribuição, apesar das incertezas após a renúncia de Keir Starmer ao cargo de primeiro-ministro.

Folha Mercado

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O cenário geopolítico não ajuda, e o aumento de gastos militares com as guerras na Ucrânia e no Irã força países a restringir investimentos em outras áreas.

"Quanto maior a tempestade, mais difícil a gente conseguir fazer isso acontecer. Mas, até agora, a gente não entende que isso será um impedimento. É um dificultador", afirma Resende.

Um diplomata brasileiro diz que há expectativa de mais países aplicarem recursos durante eventos de visibilidade mundial, como a Assembleia-Geral das Nações Unidas e a COP31, o que seria suficiente para atingir o valor necessário. Ele também afirma que filantropias estrangeiras sinalizam intenção de investir no médio prazo.

O TFFF usará os US$ 125 bilhões para aplicar em uma carteira de investimentos diversificados de renda fixa, com rendimentos de 7% a 8% ao ano. Os financiadores devem ficar com uma fatia de cerca de 4% dos rendimentos, e os países que preservarem florestas receberão outros 4%. O fundo pagará US$ 4 (R$ 20,43) por hectare conservado e reduzirá o pagamento se houver desmatamento ou degradação por fogo.

Até 74 países em desenvolvimento, inclusive o Brasil, poderão ser recompensados se mantiverem suas matas em pé. Ao menos 20% dos rendimentos de cada nação deverão ser destinados para povos indígenas e comunidades locais.

Taciana Stec, especialista em política climática do Instituto Talanoa, diz enxergar a meta de US$ 10 bilhões como ousada e avalia que ainda é necessário esclarecer as regras de governança e segurança jurídica do TFFF. A falta de clareza sobre essas informações pode barrar aportes de países do G7, acrescenta.

"Quando dá uma esfriada, a previsão é que pode ficar cada vez pior. Pode não atrair agora e gerar um efeito dominó, de algo que não vá se estruturar e se concretizar", afirma. "O ritmo de investimentos é importante para gerar credibilidade."

Marcelo Voivodic, diretor-executivo do WWF Brasil (Fundo Mundial para a Natureza), diz que governos com dificuldades econômicas, a exemplo da alta nos preços de energia por conta da guerra no Irã, dificilmente terão apoio político para anunciar um aporte volumoso, ainda que em formato de investimento.

"A situação não está fácil, não tem um número grande de interessados em colocar a mesma quantidade que Noruega colocou", afirma.

Tasso Azevedo, um dos principais especialistas brasileiros em políticas de florestas, diz que o formato do fundo não facilita a captação de dinheiro. "Cada US$ 100 (R$ 510) que entrarem vão gerar US$ 4, porque é só o rendimento que será usado para pagar os países. Quando alguém aporta US$ 50 milhões (R$ 255 milhões), isso vai virar potencialmente US$ 2 milhões (R$ 10,2 milhões) para o pagamento."

Azevedo e o economista Pedro Moura formularam a proposta original de financiamento para conservação, que viraria o TFFF após o envolvimento do governo Lula e do Banco Mundial. A ideia era de que a indústria petrolífera no mundo se comprometesse a destinar às florestas US$ 1 (R$ 5,10) para cada barril de petróleo produzido.

"Quando você fala de investimento, é outra porta. O objetivo do gestor de um investimento é garantir que o recurso tenha retorno, é uma conversa de portfólio", diz Azevedo. "Por que alguém vai colocar recurso no TFFF em vez de colocar no Tesouro Americano, que é mais seguro e garantido?", afirma.