Por uma vez, devemos agradecer à Administração Trump. Obrigou, de facto, o mundo académico americano a confrontar-se com um problema que há muito exigia atenção: a peer review (revisão por pares). A cura proposta, porém, arrisca-se a ser pior do que a doença.
Comecemos pelo facto noticioso: um regulamento apresentado há algumas semanas, atualmente em apreciação no Office of Management and Budget dos Estados Unidos, prevê que, antes da atribuição de qualquer financiamento federal à investigação, um representante político certifique que o projeto «permitirá fazer avançar as prioridades políticas do Presidente». Os financiamentos poderão, além disso, ser revogados no momento em que essas prioridades mudarem.
O moderno sistema americano de investigação nasceu de princípios muito diferentes. Na sua origem esteve a visão de um engenheiro da minha própria universidade, o MIT. Em 1945, Vannevar Bush publicou o relatório Science, the Endless Frontier, propondo um pacto a três: o governo financiaria a investigação; os cientistas — e não os políticos — avaliariam o seu mérito; e a sociedade colheria os benefícios. Esse modelo está na base da universidade americana contemporânea, dos National Laboratories e de inúmeras invenções que hoje marcam a nossa vida quotidiana: das redes neuronais que estão a transformar a medicina à internet, que liga o mundo inteiro.
Não há dúvida de que a revisão por pares tem os seus limites. Os mecanismos de revisão paritária podem facilmente transformar-se em «reconfirmação paritária»; tal como os nossos primos lanudos, nós, investigadores, não somos imunes a comportamentos gregários. Além disso, cada geração de cientistas tem dificuldade em pôr em causa os pressupostos sobre os quais se formou. Como observou o físico alemão Max Planck, a ciência avança «um funeral de cada vez».
Há ainda problemas mais recentes. Nos últimos anos, também a revisão por pares foi influenciada por pressões ideológicas e por aquilo que alguns descrevem como «cultura woke». Vários requisitos ligados à diversidade, equidade e inclusão, introduzidos durante a Administração Biden, inseriram critérios não científicos nos processos de avaliação da investigação e na atribuição de financiamentos: precisamente o problema que as propostas atuais dizem querer resolver.
Trata-se de problemas reais, que merecem ser repensados. Mas a solução para uma revisão por pares imperfeita é uma revisão por pares melhor, não uma supervisão governamental. Substituir o julgamento científico pelo alinhamento político arrisca enfraquecer precisamente aquele motor da descoberta de que falávamos. Nenhuma das grandes descobertas científicas do passado foi inevitável; pelo contrário, cada uma delas foi uma aposta longa e incerta em ideias que poderiam ter falhado.
É exatamente este tipo de investigação que um sistema de financiamentos revogáveis a qualquer momento arrisca eliminar: não proibindo-a abertamente, mas fazendo perceber a cada cientista que um projeto plurianual pode ser cancelado assim que mudar o clima político. Perante este risco, o investigador racional abandona a ideia ambiciosa em favor da mais segura. As descobertas mais audaciosas não são proibidas por lei: simplesmente, nem sequer chegam a ser tentadas.
Que fazer, então? Nas conversas online entre colegas do MIT — ao rubro nestas semanas — têm surgido várias soluções. As agências de financiamento, por exemplo, poderiam ter incentivos para apoiar um leque mais heterogéneo de ideias. Eu proporia, além disso, dividir a revisão por pares em duas fases: uma primeira, que verificasse a solidez metodológica de uma investigação; e uma segunda, que deixasse que a sua relevância fosse discutida de forma aberta, a partir de baixo.
A primeira fase — a da solidez metodológica — poderia continuar a beneficiar dos mecanismos tradicionais, porventura em conjunto com a inteligência artificial. É importante, de facto, saber se os alicerces de uma investigação são robustos. De resto, a revisão por pares, juntamente com as severas consequências profissionais que os académicos impõem a si próprios em caso de fraude deliberada, protegeu em larga medida a comunidade científica de um problema que alastra noutros domínios: o das fake news. Numa época em que a inteligência artificial torna cada vez mais fácil produzir falsificações indistinguíveis da realidade, este é um campo em que talvez a sociedade no seu conjunto possa aprender com o mundo académico.
A segunda fase — a da relevância — poderia, pelo contrário, ser deixada mais abertamente ao debate. Um processo aberto de discussão, crítica e validação é um dos pontos fortes da ciência. Permite que as ideias compitam ao longo do tempo, em vez de serem decididas antecipadamente por um punhado de guardiões. Algumas agências de financiamento na Nova Zelândia e na Suíça já avançaram nesta direção, atribuindo parte dos seus financiamentos por sorteio entre as propostas consideradas metodologicamente sólidas.
Elementos deste modelo existem, aliás, noutro domínio-chave da revisão por pares: não o da atribuição de fundos, de que falávamos antes, mas o que certifica as publicações no final do percurso de investigação. Um exemplo são as revistas do grupo Springer Nature. Se os editores da revista de referência Nature são geralmente chamados a avaliar tanto a solidez como a relevância de uma investigação, publicações como a Scientific Reports concentram-se sobretudo na primeira, deixando que o juízo sobre a importância emerja através do escrutínio subsequente da comunidade científica. Abordagens semelhantes encontram-se em muitas revistas de acesso aberto, da PLOS à Cell Reports. As ideias mais influentes emergem através do número de citações e, por vezes, do debate.
Estas são apenas algumas ideias; muitas outras se poderiam acrescentar. Mas, se o regulamento hoje em discussão vier a ser promulgado na sua forma atual, arriscará comprometer a indiscutível liderança americana na ciência.
Em Urn Burial, Sir Thomas Browne captou a crueldade da história escrita: «Vive Herostratus, que incendiou o Templo de Diana; está quase esquecido aquele que o construiu.» O mesmo vale para Alexandria: esquecemos quem construiu a Grande Biblioteca e recordamos apenas que ela ardeu. A história, ao que parece, guarda com mais facilidade o nome do incendiário do que o do arquiteto.
Durante grande parte do último século, a América foi o arquiteto da ciência moderna. Seria um estranho e amargo epitáfio se viesse a ser recordada, no seu 250.º aniversário, não pelo que construiu, mas pelo que destruiu.
(Uma versão anterior deste artigo foi publicada no Financial Times)
Nota biográfica: Engenheiro e arquiteto, Carlo Ratti ensina no Politecnico di Milano e no MIT, em Boston. É diretor do Senseable City Lab, um dos principais centros de investigação sobre cidades a nível mundial.