Acidente Voepass: relatório é 'difícil digerir', diz filha de vítimas | G1

Os familiares das vítimas tiveram acesso ao documento antes de ser divulgado durante coletiva de imprensa e relataram sentimento de indignação.

"Várias pessoas coniventes com a forma errada de lidar com tudo. Então, pra nós, assim, está sendo bem difícil de digerir isso, sabe? Meus pais eram pessoas muito corretas, cresci tendo esse exemplo dentro de casa, de fazer o certo, de lutar pelo certo, e ver que eles partiram dessa maneira", comentou.

Eduarda afirmou que irá aguardar o relatório da Polícia Federal, no inquérito que apura responsabilidades criminais no acidente, para buscar justiça. "Coisa que nesse país é muito difícil de conseguir", completou.

Nélvio e Gracinda eram casados há 25 anos — Foto: Arquivo pessoal

Por sua vez, Elizabeth Redivo, mãe da vítima Ana Caroline Redivo, também relatou sentimento de revolta e criticou a cultura da Voepass sobre a manutenção das aeronaves.

"Aquela aeronave era sucateada, ela não poderia estar no ar, ela já deveria estar no ferro-velho e continuava. Foi jogando, foi jogando, por ganância, negligência, dinheiro, enfim, ene coisas. E falta de fiscalização também", criticou.

Elizabeth ainda cobrou os órgãos fiscalizadores por uma atuação mais efetiva em relação à manutenção dos aviões. "Não adianta só ter lei, tem de ter fiscalização para essas leis", disse.

Elizabeth cobrou fiscalização de aeronaves — Foto: Reprodução/EPTV

O relatório final reúne as conclusões da investigação técnica conduzida pela Força Aérea Brasileira (FAB) para identificar os fatores que contribuíram para o acidente.

Em nota, a Voepass disse que a empresa vai se manifestar posteriormente, depois que tiver acesso à íntegra do documento.

'Início de um ciclo de luta'

A mãe da médica e vítima Arianne Risso, Fátima Albuquerque, afirmou que a divulgação do relatório final significa o "fim de um ciclo", mas também o "início de um ciclo de luta". Na avaliação dela, o documento confirmou falhas da Voepass.

"Mais revoltados, mais indignados, mas também mais firmes para lutar por justiça. Principalmente uma obrigação moral, cristã, de usarmos nossa dor para que novamente essa tragédia não aconteça", comentou.

"Aquela empresa vinha reiteradamente cometendo crimes, então tinha muitas multas. A gente precisa fortalecer a Anac no sentido de ter mais fiscalização, então precisa de mais dinheiro, precisa de mais profissionais, precisa de mais capacitação", completou.

Fátima Albuquerque pediu para que o trabalho da Anac seja reforçado — Foto: Reprodução/EPTV

"As investigações conduzidas pelo Cenipa têm caráter exclusivamente preventivo e não se destinam à atribuição de culpa ou responsabilização, mas à identificação de fatores que contribuíram para o acidente e de recomendações para aprimorar o sistema de segurança operacional da aviação civil". destacou.

Como foi o processo do relatório final

Avião da Voepass teve panes em voos antes de acidente que matou 62 pessoas

Avião da Voepass teve panes em voos antes de acidente que matou 62 pessoas

Ao longo da investigação, o órgão fez dezenas de perícias para reconstruir o voo e entender a sequência de eventos que levou à queda da aeronave.

➡️ Entre os principais trabalhos realizados estão:

  • análise das duas caixas-pretas (gravador de voz da cabine e gravador de dados de voo);
  • reconstrução completa do voo, incluindo comandos feitos pelos pilotos e alertas emitidos pela aeronave;
  • exames nos motores e nos sistemas de degelo e de proteção contra estol;
  • análise das condições meteorológicas registradas no dia do acidente;
  • entrevistas com pilotos, mecânicos, despachantes e familiares dos tripulantes;
  • estudo de mais de 15 mil voos realizados por aeronaves da mesma frota da companhia;
  • testes em simuladores e um voo experimental com outro ATR 72-500;
  • análise de registros de manutenção, certificados médicos dos pilotos e outros documentos técnicos.

Segundo o Cenipa, também foram analisados equipamentos responsáveis pelo controle de diferentes sistemas da aeronave e até as lâmpadas dos painéis do avião para verificar quais estavam acesas no momento da queda.

Escombros de avião em Vinhedo (SP) neste sábado, dia 10 de agosto de 2024 — Foto: Nelson Almeida/AFP

Revisão internacional

O documento foi analisado:

  • pelo Bureau d'Enquêtes et d'Analyses pour la Sécurité de l'Aviation Civile (BEA), da França, país responsável pelo projeto e fabricação do ATR 72-500;
  • e pelo Transportation Safety Board (TSB), do Canadá, responsável pelo projeto dos motores da aeronave.

O relatório aponta culpados?

Não. A investigação do Cenipa tem caráter preventivo e busca identificar os fatores que contribuíram para o acidente, além de emitir recomendações para aumentar a segurança da aviação.

O relatório não define responsabilidades civis nem criminais.

Caixa preta da aeronave que caiu em Vinhedo (SP). — Foto: Divulgação/FAB

Investigação criminal também está na reta final

Paralelamente ao trabalho do Cenipa, a Polícia Federal conduz um inquérito para apurar se houve crimes e eventuais responsáveis pela tragédia.

Segundo os advogados que representam os familiares, a expectativa é que a Polícia Federal conclua o inquérito em breve e encaminhe o caso ao Ministério Público Federal (MPF). O relatório poderá embasar eventuais indiciamentos.

Ação judicial

Segundo o advogado Leonardo Amarante, a medida não substitui as ações individuais de indenização já em andamento. A intenção é buscar a responsabilização de empresas, pessoas físicas e eventuais instituições que tenham contribuído, por ação ou omissão, para a tragédia.

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Protesto de familiares das vítimas da queda de avião em Vinhedo — Foto: Gabriella Ramos/g1

Relembre o acidente

O acidente aconteceu em 9 de agosto de 2024.

O ATR 72-500, matrícula PS-VPB, fazia o voo entre Cascavel (PR) e o Aeroporto Internacional de Guarulhos (SP) quando caiu no quintal de uma casa em um condomínio de Vinhedo (SP).

Foi o acidente mais grave da aviação brasileira desde o desastre com o voo da TAM, em 2007.

Infográfico - Como era o avião que caiu em Vinhedo — Foto: Arte g1

O que diz a Voepass

Em nota, a Voepass afirmou que a queda do voo 2283 foi "o episódio mais difícil" da história da companhia e disse seguir prestando apoio psicológico às famílias das vítimas.

A empresa declarou que colaborou com as investigações desde o início, reafirmou que sua frota "sempre esteve aeronavegável e apta a realizar voos", conforme os padrões internacionais, e sustentou que apenas o relatório final do Cenipa poderá apontar, de forma conclusiva, as causas do acidente.

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