"Está a pôr-se na fila": como Centeno regressa aos holofotes socialistas sem se filiar nem confrontar Carneiro

“Se se parece com um pato, nada como um pato e grasna como um pato, então é um pato.” Aplique-se o famoso “teste do pato” a Mário Centeno: se fala, age e se posiciona como um político com ambição, então provavelmente é exatamente isso — um político que quer contar no tabuleiro. Desde que saiu do Banco de Portugal, o ex-governador assumiu um espaço de comentário televisivo, tem sido estrela em alguns eventos do PS — e nem só por iniciativa de José Luís Carneiro –, faz a defesa do seu legado das “contas certas”, pesa avisos ao PS e críticas ao Governo. Já disse que não está aqui para “este ciclo político”, mas nem por isso deixa de ser visto dentro do partido ao qual (ainda?) não pertence como um ativo político com peso e potencial de futuro.

Ainda no último domingo, Centeno entrou pelo Pavilhão do Centro Comunitário das Caxinas, em Vila do Conde, para encerrar o congresso federativo do PS-Porto. José Luís Carneiro tinha lá estado no dia anterior, mas não esteve disponível para o encerramento e o líder da federação decidiu chamar Mário Centeno para fazer as honras. Sentou-o mesmo na Mesa do Congresso e deu-lhe palco para uma intervenção. O gesto não teria relevo de maior se o presidente federativo fosse outro dirigente. Mas trata-se de Nuno Araújo, um dos líderes mais influentes na máquina socialista — preside a uma das principais federações do PS, foi diretor de campanha (e é amigo) de Pedro Nuno Santos e não está alinhado com Carneiro (foi um dos subscritores da moção setorial que, no último congresso do PS, criticou a postura do líder).

Quando confrontado pelo Observador com esta escolha, Nuno Araújo afasta interpretações conspirativas e diz que apenas quis ter no congresso da federação para a qual acabara de ser reeleito líder “uma figura com reconhecimento junto da sociedade civil e do PS. Com capacidade política”. Lembra que Centeno, nas semanas anteriores, tinha até sido chamado pelo próprio secretário-geral para estar noutros dois eventos do partido. O ex-ministro esteve nas Jornadas Parlamentares do PS e também vai colaborar na plataforma de políticas públicas “Solução para um Futuro Melhor”, o grupo que Carneiro juntou para preparar a proposta política do PS para futuras legislativas.

“Está a pôr-se na fila”, diz ao Observador um destacado socialista atento aos passos de Centeno. “É claramente o elefante dentro da sala”, atira um antigo governante no mesmo sentido: “Como Passos Coelho, no PSD, está a passar a mensagem do ‘eu estou aqui’.” Mas no topo do partido garante-se que ainda que Centeno “seja novo” e se admita que “ainda queira fazer outras coisas na vida”, “no encadeamento atual não será primeiro-ministro”.

O que tem dito Centeno e a semente que está a ser regada por alguns costistas

Quanto ao conteúdo das intervenções que tem feito, Mário Centeno regressa sempre à década 2015-2025: a que ajudou a desenhar quando colaborou na Agenda para a Década de António Costa, para as legislativas de 2015 e em que foi responsável pelas Finanças durante seis anos. Nas Jornadas Parlamentares sublinhou que “entre 2015 e 2025 os salários pagos às famílias portuguesas duplicaram” e que “o sucesso da economia portuguesa é ímpar e único, não há outro momento da história em que tenha existido”.

Já no espaço de comentário televisivo semanal, na CNN-Portugal, Centeno tem concentrado a artilharia nos avisos ao Governo. Na semana passada, por exemplo, o antigo ministro das Finanças e ex-governador do Banco de Portugal disse que a despesa pública “não está controlada”, apresentou indicadores para mostrar que as previsões do Governo falharam “por defeito”, que o Banco de Portugal foi mais certeiro e que “o país tem excedido todos os anos aquilo que é o limite com que se comprometeu” em Bruxelas. Recomendou “muita atenção a isto” e alertou que se está a “pôr uma pressão orçamental muito grande em 2027, ano em que vai ter de se corrigir os desvios deste ano”. Concluiu reforçando a sua marca: “Não foi este o caminho que nos trouxe às famosas contas certas.”

Esta semana manteve a carga, ao dizer que o desvio da despesa face ao compromisso assumido já é de 12 mil milhões de euros e que, para o controlar, há apenas três opções: “Ou aumentamos os impostos, a partir de uma carga fiscal que já é máxima, ou cortamos despesa ou fazemos ambos”. É um discurso que “pisca muito o olho ao eleitorado do centro, com a narrativa das contas certas, este é um capital muito bem visto pelo eleitorado central”, analisa um antigo governante socialista que conhece bem Centeno e lhe segue os passos. “Está a tentar ultrapassar a mancha política do partido e vai ver o que o futuro dá”, acrescenta, lendo cálculo político nas intervenções públicas do antigo ministro.

A maioria dos vários socialistas com quem o Observador conversou não vê outra coisa senão posicionamento político nas aparições e comentários do antigo ministro que já foi até apontado como hipótese para primeiro-ministro — quando Costa o propôs a Marcelo Rebelo de Sousa, na sequência da demissão de 2023, para evitar antecipar eleições e preservar a maioria absoluta socialista. A ideia não vingou, mas deixou a semente em Centeno e ultimamente ela tem sido regada por alguns elementos do costismo insatisfeitos com a liderança de Carneiro.

Depois desse episódio, Centeno ainda teve um tumulto no Banco de Portugal, com a oposição a levantar dúvidas sobre a independência do governador. O assunto foi mesmo analisado pela Comissão de Ética do regulador, o órgão que fiscaliza a aplicação do código de conduta interno. Reformou-se este ano, saiu do BdP, com uma indemnização já negociada com o seu sucessor, não conseguiu apoio para ser eleito, como pretendia, vice do BCE e, neste momento, está dedicado à vida académica (no ISEG) e ao comentário televisivo e também para lá da pantalha.

Um antigo governante socialista vê a derrota no BCE como “pesada” e até reveladora de perda de influência em Bruxelas, onde foi presidente do Eurogrupo, e que isso pode mostrar como se estreitou o caminho das saídas internacionais para Centeno. E, aos 59 anos, o antigo ministro das Finanças que ficou “viciado” na “adrenalina da política”, garante quem trabalhou com ele, pode estar a virar-se para outros tipos de saídas — desta vez, dentro do tabuleiro doméstico. “É demasiado novo, vaidoso e talentoso para ficar quieto”, ouve o Observador de um dirigente socialista.

“Centeno gosta de pensar em si como uma hipótese”, diz o mesmo elemento do partido que, tal como muitos outros que falaram com o Observador, acredita que essa ideia atravessa alguns espíritos socialistas. “Sobretudo dos que não alinham com Carneiro, que acreditam que com ele o PS não vai lá e que a imagem pública de Centeno é melhor do que a de todos” os socialistas que vão aparecendo como alternativas ao atual líder (Duarte Cordeiro ou Fernando Medina, por exemplo). “Os órfãos do costismo”, resume um outro socialista, que diz que esse grupo tem até explorado a ideia de que o PS pode ter um candidato a primeiro-ministro que não seja o líder do partido — até porque Centeno não é militante e, se quiser ser líder, tem de se inscrever.

Entrar no partido e atirar-se na rota da carne assada?

A militância até pode ser uma porta que não está fechada para o antigo ministro, mas um movimento nesse sentido nesta fase “teria leituras”, comenta um socialista. “Filiar-se agora era dar um sinal. Se queria já o devia ter feito”, comenta um antigo governante. Certo é que o próprio já disse não ter intenções para o atual ciclo político, que termina nas legislativas. A afirmação, numa entrevista na CNN, confirma que a ambição política futura está lá, embora também revele que não pretende percorrer um caminho de confronto. E, por agora, “até tem colaborado com José Luís Carneiro, sinal de que não está numa corrida com ele”, comenta o mesmo ex-colega de Governo.

No PS — mesmo entre críticos de Carneiro — tem-se consolidado a ideia de que é o atual líder que deve ir às próximas legislativas. E isto muito por causa do crescimento que o partido tem revelado nas sondagens nos últimos meses. “Não há nenhuma circunstância de um líder à frente nas sondagens ser alvo de um golpe interno. Se alguém tentar destrói o partido“, comenta um socialista distante da atual direção. É o mesmo que diz que Centeno “se vê a chegar lá, mas só num cenário de apelo conjunto do partido ao político melhor colocado” para ser líder “e numa conjuntura muito específica”: Carneiro perder as legislativas e o partido precisar de uma figura com notoriedade e capacidade de agregar. “E não numa contenda interna contra o secretário-geral em funções”, afirma.

“Não o vejo a fazer o périplo, o roteiro da carne assada e dos caciques”, diz um dirigente do PS numa referência ao trabalho pelo país que qualquer candidato a líder de um partido tem de fazer para conquistar o apoio das estruturas. “Não me parece que esteja nos objetivos mais imediatos de Centeno qualquer intromissão no espaço político partidário. Ou já teria dado sinais: almoçado com este, jantado com o outro e tomado o pequeno almoço com aquele”, acredita um dirigente do partido.

A reserva de Centeno para um futuro pós-Carneiro até pode fazer algum caminho, já a ideia de que alguém possa ser o candidato a primeiro-ministro, mas não o líder do partido já é bem menos popular entre socialistas. “Isso não existe no PS. O PS é um partido de militantes e o líder dos militantes é o líder da proposta política”, argumenta um dirigente. “O líder do PS tem de ser o candidato a primeiro-ministro”, comenta outro que acredita que a intervenção pública de Centeno tem apenas como objetivo “aproveitar a notoriedade para valorizar a carreira profissional.”

No topo do partido garante‑se que, neste momento, existe mesmo “cumplicidade” entre Centeno e o secretário‑geral e que a chamada para o grupo de especialistas que vão colaborar na elaboração da proposta política do PS coloca o antigo ministro “na primeira linha de contacto com o secretário‑geral”. Se o próprio “tivesse outra intenção, ter‑se‑ia escusado a participar” — como fez Duarte Cordeiro, ao recusar integrar sequer a Comissão Política do partido nesta fase. A frente de Carneiro vai, assim, tentando contrariar a lógica do pato.