E também a Europa pode ter muito a perder
O bloqueio do estreito de Bab al-Mandeb pelos houthis não podia ter acontecido em pior altura para o mercado petrolífero.
Os aliados do Irão no Iémen ameaçaram bloquear uma importante rota alternativa ao Estreito de Ormuz, onde o tráfego de petroleiros diminuiu drasticamente nos últimos dias.
Até agora, os houthis não conseguiram – ou não quiseram – impor o bloqueio anunciado por este grupo militante na passada terça-feira. Ainda assim, a simples ameaça já levou alguns navios a abandonar os seus planos de sair do Mar Vermelho em direção ao sul.
Um bloqueio eficaz no Estreito de Bab al-Mandeb pelos houthis criaria uma nova frente na guerra com o Irão, com potencial para espoletar uma intervenção militar dos EUA, o que poderia prejudicar a capacidade americana no que respeita a ajudar os navios a sair do Estreito de Ormuz. Além disso, poderá impedir os sauditas de enviarem gasóleo para a Europa, neste que é um momento crucial para o mercado dos combustíveis.
O preço do barril de petróleo já subiu mais de 20 dólares este mês, depois de ter sido retomada a guerra no Médio Oriente. Esta quarta-feira chegou a ultrapassar os 95 dólares, pela primeira vez desde o início de junho. A subida poderá ser ainda maior caso a solução alternativa deixe de funcionar.
Bab al-Mandeb
Tal como o Estreito de Ormuz, Bab al-Mandeb é uma via navegável extremamente estreita e por onde transita uma parcela significativa da economia global. Tem apenas 22,5 quilómetros de largura no seu ponto mais estreito, entre a Arábia Saudita e o Djibuti, ou seja, é cerca de 40% mais apertado do que Ormuz.
Bab al-Mandeb não é tão crucial como o Estreito de Ormuz, através do qual costumavam transitar 20 milhões de barris de petróleo – 20% do abastecimento diário mundial – antes do início da guerra. Ainda assim, Bab al-Mandeb não deve ser desconsiderado: cerca de 6,2 milhões de barris de petróleo passaram todos os dias por este estreito no último mês, segundo a plataforma Kpler.
Uma parte significativa deste petróleo teria como destino o Golfo Pérsico. Contudo, em vez disso, a Arábia Saudita enviou-o através do seu enorme oleoduto Este-Oeste para o principal porto de Yanbu, no Mar Vermelho. Os sauditas desviaram aproximadamente 4 a 5 milhões de barris de petróleo por dia do Golfo Pérsico para Yanbu, segundo Helima Croft, responsável pela área de estratégia global da RBC Capital Markets.
“Se esta rota se tornar inoperável, a interrupção no fornecimento de petróleo acabará por se tornar mais grave e voltaremos a falar de uma situação sem saída”, nota Croft.
Podemos comprar a retirada de quatro milhões de barris do mercado àquilo que aconteceu quando a China deixou de importar durante a guerra – uma ação que, segundo os analistas do setor petrolífero, ajudou a manter os preços da energia relativamente baixo, apesar do choque recorde na oferta de petróleo.
Um bloqueio completo do estreito de Bab al-Mandeb poderá fazer com que o preço do petróleo ultrapasse esse teto, subindo pelo menos 5 a 10 dólares por barril – para mais de 100 dólares por barril, segundo Dan Pickering, diretor de investimento da Pickering Energy Partners.
O(s) maior(es) perdedor(es)
Se os navios não puderem, ou não estiverem dispostos a, atravessar o Mar Vermelho em direção ao sul, a única rota disponível seria para norte, através do Canal do Suez. Contudo, isso deixá-los-ia no Mar Mediterrâneo, em vez do Oceano Índico, o que não é propriamente uma grande rota para levar o petróleo saudita ao seu maior cliente: o sudeste asiático.
Segundo Andy Lipow, presidente da Lipow Oil Associates, cerca de 2,5 a 3,5 milhões de barris de petróleo saudita saem diariamente de Yanbu através do estreito de Bab al-Mandeb. Os países asiáticos, que não produzem muito petróleo, foram os mais afetados pela crise de abastecimento de crude durante a guerra com o Irão.
A capacidade de a Arábia Saudita teve para escoar o petróleo por uma via alternativa aliviou grande parte desta pressão.
A Europa também não tem motivos para ficar satisfeita com a ameaça dos houthis. A Arábia Saudita exporta cerca de 230 mil barris de gasóleo através do Canal do Suez, provenientes de refinarias próximas do Iémen, o que as coloca em risco de ataques houthis, segundo Homayoun Falakshahi, responsável pela área de análise de crude da Kpler.
O preço do gasóleo subiu mais de 40 cêntimos por barril nas últimas semanas, depois do início de uma nova guerra no Médio Oriente e de ataques de drones da Ucrânia contra refinarias russas.
Trabalho em curso
Os militantes houthis fizeram, na terça-feira, uma transmissão para os navios sauditas, alertando-os para evitar o Mar Vermelho. Algumas embarcações levaram a mensagem a sério – e com razão: os houthis atacaram navios na região no início da guerra.
Segundo a Windward Intelligence, houve cinco petroleiros a dar meia-volta após o anúncio. Um petroleiro que partiu de Yanbu, carregando petróleo para a China, regressou à fronteira com o Iémen devido às ameaças dos houthis, disse à CNN um gestor de risco de uma empresa da Fortune 500. O gestor de risco pediu anonimato por se tratar de matérias comerciais confidenciais.
O presidente Donald Trump afirmou na Sala Oval, também na terça-feira, que as forças armadas norte-americanas poderiam intervir caso os houthis tomassem medidas mais drásticas.
“Até agora, não aconteceu nada. Pode acontecer, mas nós tratamos das coisas”, afirmou. “Já o fizemos com os houthis antes. Não tivemos notícias deles desde que o fizemos”.
A Marinha dos EUA está, todavia, ocupada a bloquear os portos iranianos e a lutar para persuadir as companhias de navegação a transitarem pelo Estreito de Ormuz. O Irão atingiu vários petroleiros nos últimos dias, reduzindo o tráfego no estreito a apenas algumas travessias – uma queda drástica em relação às cerca de 50 a 70 por dia logo após o Irão e os Estados Unidos terem assinado um memorando de entendimento em meados de junho.
Se as forças armadas americanas precisarem de combater nesta nova frente de batalha, poderão ampliar a sua capacidade de ajudar a conduzir o crude através de qualquer um dos pontos de estrangulamento.
Davis Winkie, da CNN, contribuiu para este artigo