Aos 17 ou 18 anos pede-se aos jovens uma das decisões mais consequentes da sua vida, que curso seguir, num momento em que ninguém sabe que profissões existirão daqui a uma década. É uma exigência quase injusta. E é por isso que os conselhos habituais, “segue a tua paixão” ou “escolhe o que tem saída”, se tornaram perigosamente insuficientes. A paixão muda. E as “saídas” de hoje podem ser os empregos automatizados de amanhã.
Vale a pena olhar para quem estuda o trabalho à escala global. O Future of Jobs Report 2025 do Fórum Económico Mundial, construído a partir das respostas de mais de mil grandes empregadores em 55 economias, projeta que até 2030 serão criados 170 milhões de empregos e destruídos 92 milhões. O saldo é positivo, mas muito desigual entre áreas. O mesmo relatório estima que 39% das competências hoje essenciais terão mudado até 2030 e que 59 em cada 100 trabalhadores precisarão de requalificação. Para 63% dos empregadores, a falta de competências adequadas é a principal barreira à transformação dos negócios.
Perante estes números, a tentação é correr atrás da competência da moda. Hoje é a inteligência artificial, ontem foi a programação, amanhã será outra coisa. Mas o dado mais interessante do relatório está nas competências que permanecem nucleares apesar da disrupção: o pensamento analítico surge como a competência mais valorizada pelos empregadores, seguido da resiliência, da flexibilidade, da curiosidade e da capacidade de aprender ao longo da vida. O que melhor resiste à mudança não é um conhecimento técnico específico, é a capacidade de pensar com rigor e de voltar a aprender.
A OCDE chega a conclusões semelhantes por outro caminho. No Skills Outlook 2025, conclui que a adaptabilidade, assente em competências fundacionais e transversais, vale mais do que a especialização ocupacional estreita. As âncoras de uma carreira longa são conhecidas: literacia, numeracia, competência digital, resolução de problemas e o hábito de continuar a aprender. Exatamente as competências que uma formação de base em ciências exatas e naturais treina de forma sistemática e exigente.
Nada disto é desdém pelas humanidades, pelas artes ou pelas formações aplicadas, indispensáveis à nossa sociedade. Nem é uma promessa de realização garantida. É algo mais modesto e mais honesto: num mundo em que requalificar-se ao longo da vida deixou de ser acidente para ser norma, o melhor que uma formação inicial pode oferecer não é uma resposta definitiva, mas a capacidade de continuar a fazer perguntas, mesmo aquelas que irão exigir os problemas que ainda não existem.
Quero ser claro quanto ao lugar de onde falo. Lidero uma Escola de Ciências numa universidade pública portuguesa e tenho, portanto, um interesse evidente no que defendo. Reconheço-o sem rodeios, e é por isso que prefiro apoiar-me em instituições imparciais e não em retórica própria. O argumento, porém, não depende do meu cargo. Depende de uma observação simples: é mais fácil evoluir de uma formação geral, ancorada nas ciências basilares, para disciplinas mais focadas e aplicadas do que percorrer o caminho inverso.
A matemática, a física, a química, a biologia ou a geologia ensinam uma gramática. Quem domina o raciocínio quantitativo, o método experimental, a abstração e a modelação aprende depois a aplicá-los a domínios específicos, da bioengenharia à ciência de dados, da gestão de risco à saúde. O movimento contrário é muito mais penoso. Ninguém aprende cálculo, estatística inferencial ou pensamento causal de um momento para o outro. O conhecimento de base não fecha portas: multiplica-as. A especialização precoce faz o oposto, pode dar vantagem imediata à entrada, mas à custa de maior rigidez num contexto em rápida mutação.
Esta lógica é ainda mais pertinente entre nós. Em Portugal, o mestrado tornou-se etapa natural de muitos percursos. Segundo a Direção-Geral de Estatísticas da Educação e Ciência, a proporção de licenciados que prossegue estudos no ano seguinte subiu de 38% em 2017/18 para 42% em 2023/24, e é mais elevada nas universidades. Num inquérito do Conselho Científico da Escola de Ciências da Universidade do Minho, em 2025, 78% dos estudantes do secundário consideraram o mestrado parte do percurso natural no ensino superior. Quem entra hoje no ensino superior deve escolher a licenciatura não como destino, mas como plataforma sobre a qual construirá, mais tarde, uma especialização. E uma plataforma quer-se sólida e ampla, não estreita.
Estas escolhas têm consequências no emprego, mas não se pressionem excessivamente, se sentirem que não acertaram à primeira, podem sempre corrigir o caminho mais à frente. Os dados nacionais mostram que os diplomados em áreas científicas têm taxas de desemprego próximas ou abaixo dos 2%, claramente abaixo da média nacional, e que os detentores de mestrado registam taxas cerca de 40% inferiores às de quem tem apenas o secundário. Uma base científica robusta, reforçada por uma especialização ao nível do mestrado, é hoje uma das apostas mais seguras com que um jovem pode construir o seu próprio futuro.
A quem hesita à entrada do ensino superior, o meu conselho é este: não escolham o curso que parece mais útil hoje, escolham o que mantém mais portas abertas. A vossa vida será longa o suficiente para passar por muitas delas.