Édipo vira tecnocrata em peça no Masp; entenda - 14/07/2026 - Mise-en-scène - Folha

Um relógio digital em contagem regressiva domina a cena. São 110 minutos cravados, em tempo real, para que um tecnocrata veja o castelo de cartas de sua reputação desmoronar. É sob esse ritmo de thriller que se constrói o "Édipo" em cartaz no Auditório do Masp. Dirigido por Clara Carvalho a partir da transposição de Robert Icke, o espetáculo transforma a clássica tragédia grega em um gabinete de gerenciamento de incertezas dentro de um processo eleitoral.

A operação de Icke é precisa: a peste de Sófocles, um fenômeno sobrenatural, se transforma em crise de imagem pública. O oráculo dá lugar ao arquivo. Tirésias não profetiza o futuro, revela o passado. O protagonista descobre que não caminha em direção à ruína, mas já habita nela desde o momento em que cruzou o caminho de Laio. O texto seculariza o miasma tebano. A ameaça agora é o vazamento de dados, a perda de controle sobre a narrativa, a exigência de lisura em um sistema que só funciona enquanto as aparências se sustentam.

A direção de Carvalho explora a arquitetura do espaço. O auditório no subsolo do museu estabelece uma relação direta com o enredo: o espectador atravessa a superfície da Avenida Paulista para descer às profundezas do edifício, onde o topo do poder é desmontado. A cenografia de Chris Aizner incorpora o brutalismo do concreto e sua memória de manifestações e disputas ideológicas.

Sergio Mastropasqua encarna um Édipo cuja soberba deriva da confiança cega na racionalidade instrumental. A cena em que ele toma conhecimento da profecia — já na casa dos 50, pai e marido de Jocasta — revela uma inversão fundamental: o herói não foge do destino, ele simplesmente o desconhecia.

Clarisse Abujamra constrói uma Jocasta que foge da passividade sentimentalista. A adaptação de Icke confere à personagem uma inteligência pragmática e um conhecimento íntimo das engrenagens do Estado. Ela sobreviveu ao casamento com Laio, conhece as regras do jogo e não se ilude com a retórica da transparência. Sua anagnórise, no ápice da tensão, traduz o horror em um silêncio gélido de quem vê o edifício da estabilidade ruir sem possibilidade de reparo. É a baliza da montagem.

Mas há um limite na operação do dramaturgo britânico: ao traduzir os símbolos do inconsciente freudiano em provas factuais de um dossiê investigativo, o texto por vezes flerta com o didatismo. O drama corre o risco de se reduzir a uma equação policial resolvida com precisão cronométrica. A condução de Clara Carvalho, embora tecnicamente exemplar, adota um desenho de encenação linear que oferece poucos momentos de desestabilização formal.

Por outro lado, o espetáculo funciona com eficácia redobrada para uma plateia imersa no ruído contemporâneo de campanhas manipuladas por algoritmos. O público reconhece o homem público que busca a integridade das instituições sem perceber que o espelho que segura diante de si revela sua própria monstruosidade. O esvaziamento físico do palco — assessores que empacotam caixas, desmontam computadores, retiram cartazes — acompanha a derrocada psicológica das personagens. O que resta é a constatação de que, mesmo sem deuses, a tragédia humana persiste.

Três perguntas para…

… Clarisse Abujamra

A adaptação de Robert Icke retira a profecia do futuro e a coloca no passado. Como é interpretar uma mulher que descobre que seu presente inteiro foi construído sobre uma mentira que ela mesma ajudou a sustentar?

Ela construiu sua vida pela força de seu amor por Édipo, uma leoa a cuidar do dia presente. Dia a dia viveu vencendo dores do passado e vivendo o maior amor de sua vida. Quebrando tabus. Em suas palavras: "Eu sobrevivi."

Sua Jocasta tem sido comparada a Lady Macbeth — uma mulher que conhece o poder por dentro e não se ilude com suas promessas. Essa leitura faz sentido para você? Ou há algo na personagem que escapa a essa comparação?

Tem muito a ver com Lady Macbeth. Conheceu o poder! Viveu a violência de um mundo machista e os horrores cometidos às mulheres – comento aqui a opção de Icke claramente, explicitamente contra o machismo e horrores do poder.

O espetáculo acontece em tempo real, sob a pressão visível de relógios digitais que correm durante 110 minutos. Como essa contagem regressiva e a precisão cronométrica da direção de Clara Carvalho afetam o seu ritmo de interpretação?

Para lhe dizer a verdade não penso nisso, a cena é sempre senhora absoluta e com certeza o ritmo criado em três meses de ensaio está entranhado em nossas emoções.

Auditório do Masp – Avenida Paulista, 1.578, Bela Vista. Sexta e sábado, 20h. Domingo, 18h. Até 6/9. Duração: 110 minutos. Classificação indicativa: 16 anos. A partir de R$ 60 (meia-entrada) em sympla.com.br

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