Na coluna 3miltoques deste domingo, o jornalista Marcos Araújo apresenta uma reflexão sobre a violência no ambiente escolar, a valorização da docência e o papel da educação

O que se tornou a sala de aula? Essa é uma pergunta fundamental em um tempo em que alunos do oitavo ano são capazes de colocar um pedaço de vidro em um copo de água da professora. O risco que essa docente correu é um alerta sobre a normalização da violência, a falta de respeito e de limites e a vulnerabilidade do ambiente escolar. O caso, investigado como crime de lesão corporal, aconteceu em uma escola municipal da cidade de São José dos Campos, no interior de São Paulo.
A professora fez um desabafo nas redes sociais, relatando quase ter ingerido água com vidro. Ela percebeu o perigo somente depois de notar um comportamento incomum entre os estudantes. Muito abalada, a profissional já afirmou não querer mais voltar à escola. É possível imaginar o tamanho da dor a ponto de uma professora, que se formou para exercer a docência, sentir medo de retornar ao ambiente que escolheu para trabalhar?
Ou, ainda, outra pergunta que tem repercutido bastante entre profissionais da educação: e se quem colocasse um pedaço de vidro no copo de uma criança fosse a professora? Uma punição severa lhe seria aplicada de forma imediata. No episódio em questão, três alunos foram suspensos por envolvimento e, após a repercussão do caso, as famílias de dois deles solicitaram a transferência para outras escolas. Especialistas em Direito do Trabalho aplicado ao servidor público afirmam que a professora pode responsabilizar tanto os alunos quanto seus pais ou responsáveis, nas esferas criminal e cível.
Mas este texto não é para avaliar qual punição seria mais adequada para esse caso. Seu propósito é provocar uma reflexão sobre o tipo de sociedade que estamos construindo e sobre a posição que a escola e tudo o que faz parte do universo da educação têm ocupado neste cenário cada vez mais preocupante.
Se não há como negar que a educação é um dos caminhos viáveis para que tenhamos, no Brasil, uma sociedade mais justa, professores e demais trabalhadores da educação precisam de valorização, remuneração decente, aperfeiçoamento profissional e reconhecimento da importância do trabalho que desenvolvem. Para uma nação que deseja avançar, é imperdoável tratar aqueles que ensinam como trabalhadores dispensáveis. É preciso lembrar que o desenvolvimento de um país vai além dos avanços tecnológicos e econômicos. Ele também se constrói na sala de aula, por meio de um ensino de qualidade e de aprendizagens significativas.
Uma das consequências de uma sociedade que naturaliza a desvalorização da docência é a violência contra professores, que passam a ser tratados como inimigos. Sem autoridade e prestígio, fica muito fácil agredir moral e fisicamente quem trabalha, muitas vezes lidando com os mais variados obstáculos, para formar as próximas gerações.
A educação nunca foi nem será apenas sobre ensinar conteúdos disciplinares. Ela também trata da formação de cidadãos que valorizem a vida, respeitem a dignidade humana e exerçam a empatia nas relações com o próximo.
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