Distrito da Confusão (Crônicas de Odylo Costa, filho)

Em Distrito da Confusão publico crônicas (ou extratos de crônicas) de meu Pai, Odylo Costa, filho. Nem todas datam de tempos de censura

25/07/2026 11:09

Getty Images
Foto colorida de patos - Metrópoles

O episódio da curicaca (Tribuna da Imprensa — 12/12/ 1955)
Perdoe-me o leitor que não use, para poder escrever nestes duros tempos de censura branda, dos processos em moda, apólogos sutis, a história de Brucutu ou o caso do sr. Meirelles. Sou homem de pouca imaginação e já nem lembro que tive dezoito anos e fiz versos. Meu problema é o fato, quando não o fato presente, pelo menos o fato histórico. Neste plano tive uma decepção, escrevi sobre Floriano e Saldanha, não pôde sair. Paciência.

Não falarei, pois, de homens, presentes ou passados. Nem de ideias, mesmo as do futuro. Vou me limitar a um assunto particularíssimo, numa esperança talvez vã:  a de encontrar, entre os que se debruçarem, descuidados, neste peitoril da página 4, algum dos meus vizinhos de Santa Teresa, a quem devo desculpas. Eu sou aquele morador de uma casa com muitos meninos e alguns bichos; e a minha explicação versa justamente sobre um dos bichos.

Havia no começo jurarás (que paraenses e amazonenses teimam em denominar “muçuans” contra toda a lógica verbal que neles indica precisamente a figura de jurarás), um quati, alguns paturis, várias marrecas, uma galinha d’água e uma curicaca. Havia, também, um papagaio, que atendia pelo nome de Picolé e assobiava. Falava também algumas graças, o que não o impediu de entristecer e morrer, fazendo-se o enterro com grande acompanhamento. E um jabuti, de que ia me esquecendo, revelava as tendências humanitárias da casa, dada à circunstância de que sendo, além de capenga, mudo e preguiçoso (passava larga parte do tempo desaparecido), foi sempre tratado com exclamações quando aparecia. Ainda agora verificamos que está largando o casco: eu quis mandar matá-lo (as soluções radicais são, às vezes, do meu agrado), mas os meninos se opuseram sob o pretexto de que não é doença o que o bicho tem: foi água quente que um deles (sem saber nem querer) jogou nele, escondido no capim, com o programa inocente de matar formigas.

O jabuti não é, porém, o problema. As desculpas aos vizinhos eu as devo pela galinha d’água.

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Essa eu a trouxe de São Luís, comprei no largo do Carmo, sempre acreditei que tivesse vindo da baixada maranhense, quem sabe se dos lagos que neste tempo… Mas não me desviarei do assunto. Conhecereis decerto a ave arisca, com seus reflexos de cobre e sua ligeireza feminina no andar elegantíssimo. Aqui pelo Sul chamam-na também de saracura. E lá pelo Norte nós também temos outro nome: três-potes, tradução modesta e onomatopaica da cantiga com que amanhece e entardece: tré-pot, tré-pot, tré-pot, tré-pot, pot, pot, pot, pot (o sr. Eurico Santos, que tão saborosamente escreve sobre os bichos do Brasil, me ensina que as fêmeas é que são assim pleonásticas: os machos entoam discretos: “pôt”, mais ou menos um pôt apenas). O canto sobe alto; e Já Fernão Cardim o definia “cantar estranho, porque quem o ouve cuida ser de uma ave muito grande, sendo ela pequena, porque canta com a boca e juntamente com a traseira faz outro tom sonoro, rijo e forte, ainda que pouco cheiroso, que é para espantar”. Não era exata a teoria do jesuíta; mas buscava uma solução racional para um grito tão desproporcionado. Toquei agora no ponto, não o deixarei escapar: é sobre isto que devemos desculpas aqui por perto. A nossa galinha d’água tem um capricho: não canta à tarde. Corre de um lado para outro, bica o chão, descobre minhocas, em silêncio; mas é raiar nos horizontes a luz da antemanhã, que digo eu? — anunciar-se a despedida da primeira sombra, e já ela invade o espaço do quarteirão inteiro com seu repetido e espantado aviso. Pensamos em matá-la: seria injusto. Que culpa tem ela? Os vizinhos que nos desculpem, se me lerem. Ainda nos mudaremos.

Se a galinha d’água é, sobretudo, um problema para os vizinhos, a curicaca acaba de criá-lo para nós. É um pernalta de bico comprido, também conhecida por maçarico. Não tem grandes novidades na cor, e o cantar, desgracioso, mas com uma ponta de saudade do sertão, se caracteriza pelos extremos: ora se queda horas em silêncio, ora cai numa loquacidade espantosa, desanda a exprimir — eu ia dizer pelos cotovelos mas em tempo retifico — pelo comprido bico uma cantoria monótona, que às vezes pode irritar. Depois de algum tempo de convivência (trouxe-a do Piauí e foi presente do meu amigo Alcobaça, que anda a ensinar espanhol por aquelas bandas), verificamos que tinha um jeito especial para a guarda do poleiro. Nas horas da sesta, habituamo-nos a vê-la coçando as penas das galinhas que se submetiam dóceis a essa carícia, parecia conversa de ministro com deputado. Fiscalizava também as fugas e houve casos em que reconduziu alguns recalcitrantes do jardim para o quintal, debaixo de vara. Creio que isso é que a estragou: verificou quanto podia, pode ver que mandava mesmo, e agora estamos nós com o problema em casa. Deu para matar as galinhas, às bicadas. Será que alguma resistência a impacientou? Outro dia, assisti quando agredia as partes costais de uma pintada que atravessava a quarentena higiênica entre a compra e a morte. Surrou tanto que matou. E já ontem, uma outra — que minha mulher não quis sacrificar porque era a mais bela e estava pondo — não sei que desinteligência teve com a curicaca que a encontramos de oveiro quebrado.

Que estranho fenômeno terá acontecido com a ave, até agora tão útil? Desde quando se convenceu ela de que, em vez de encantar a imaginação dos meninos e provocar estados melancólicos nos donos da casa (a melancolia da saudade), sua função é governar o galinheiro, ditar ordens às galinhas e agredi-las no caso de dizerem “não”?

Admito que queira ficar sozinha, fechar o galinheiro, talvez por ciúmes. Não sei bem. Dr. Eurico Santos que me acuda, a curicaca quer ter o quintal só para ela, o quintal e os olhos da criançada. E não são coisas más.

Quem não dá a menor confiança são as marrecas. Continuam alegres e cantadeiras, tomam banho de gamela (à falta de lagoa ou riacho) e sua conversa cordial, que é um aviso e uma saudação, nos diz, à noite, quando voltamos do cinema, que a casa é nossa e dorme em paz.

Odylo Costa, filho