Um homem da Flórida, nos Estados Unidos, avançou com um processo contra a OpenAI, esta quarta-feira, 23 de julho, alegando que os conselhos médicos fornecidos pelo ChatGPT o levaram a adiar a procura de ajuda hospitalar para sintomas que acabaram por anteceder uma embolia pulmonar potencialmente fatal.
Scott Winters, antigo pastor, apresentou a ação no Tribunal Superior do Condado de São Francisco contra a empresa e o seu diretor-geral, Sam Altman, defendendo que o chatbot fez recomendações incorretas que colocaram a sua vida em risco.
Segundo o processo, o ChatGPT ultrapassou o papel de uma ferramenta de informação e passou a atuar como se fosse um profissional de saúde, apesar de não ter qualificações para tal. A ação judicial acusa ainda a OpenAI de privilegiar o envolvimento dos utilizadores e o lucro em detrimento da segurança pública, ao não criar mecanismos suficientes para impedir que os utilizadores seguissem aconselhamento médico incorreto.
“O ChatGPT-4o avaliou repetidamente a condição física de Scott, transmitindo a autoridade e a confiança de um profissional de saúde que faz uma avaliação clínica e recomenda um tratamento, apesar de não ter qualificações para isso”, pode ler-se no documento.
Winters, que conta com o apoio jurídico da organização sem fins lucrativos Tech Justice Law, acusa também a OpenAI de explorar as suas crenças religiosas durante as conversas mantidas com o chatbot.
De acordo com a queixa, tudo começou em 2025, quando o norte-americano recorreu ao ChatGPT-4o para tentar perceber a origem de episódios frequentes de tonturas e de oscilações na tensão arterial. O chatbot terá desvalorizado os sintomas, classificando-os como pouco preocupantes, e aconselhado Winters a permanecer em casa e quse imóvel numa cadeira reclinável.
Alegadamente, disse-lhe ainda que a situação só seria considerada grave caso sofresse entre oito e dez novos episódios — recomendação que o utilizador decidiu seguir. Algumas semanas mais tarde, em julho de 2025, Scott Winters sofreu uma embolia pulmonar de grandes dimensões, provocada por coágulos sanguíneos, que, segundo o processo, o deixou “à beira da morte”.
Um dos médicos que o acompanharam terá mesmo atribuído parte da responsabilidade à imobilidade aconselhada pelo ChatGPT, considerando que essa indicação contribuiu para o desenvolvimento da embolia.
“Scott Winters quase morreu porque o ChatGPT agiu como uma autoridade médica sem assumir qualquer responsabilidade”, afirmou Matthew P. Bergman, fundador do Social Media Victims Law Center, em comunicado. “Se o ChatGPT fosse um médico a dar aconselhamento clínico, seria culpado de negligência médica.”
A ação refere ainda que, no próprio dia da emergência médica, Winters voltou a recorrer ao chatbot para perguntar se uma dor na virilha justificava uma deslocação ao hospital. Na resposta, o ChatGPT terá recorrido à espiritualidade do utilizador, dizendo-lhe que “Deus não desenhou o teu corpo para falhar continuamente”. Horas depois, descobriu-se que essa dor era, afinal, um dos primeiros sinais da embolia pulmonar que quase lhe custou a vida.