Congresso Livre. Partido quer "refundar a esquerda" e já vê como inevitável uma chegada ao poder

"Ouvimos muitas pessoas a clamar por uma refundação da esquerda, que pedem à esquerda que pense no que tem que fazer para conseguir singrar. Ora bem, está aqui a refundação da esquerda", proclamou Isabel Mendes Lopes, no arranque dos trabalhos do 17.º Congresso do Livre que decorreu este fim de semana no Hockey Club de Sintra, em Lisboa.

A mensagem que o partido quis passar nesta reunião magna foi clara: assume-se como "o futuro da esquerda", "veio para ficar" e até já sonha em governar, considerando que esse cenário é mesmo "inevitável".

"É inevitável que o Livre chegue ao poder. Queremos ser poder, não ser por ser, mas para mudar a vida das pessoas", antecipou Jorge Pinto, logo na sua primeira intervenção perante os cerca de 300 congressistas presentes na reunião magna, às quais se juntaram mais duzentas participações online.

No encerramento, já depois de ter sido eleito porta-voz numa lista que conquistou uma larga maioria na direção, com 67,9% dos votos e 11 de 15 lugares, Jorge Pinto concretizou este objetivo: o Livre deverá chegar ao poder "no próximo ciclo eleitoral", ou seja, se tudo correr como previsto, em 2029.

Os dois novos porta-vozes quiseram ainda pressionar o PS, um dos principais aliados do partido quer no parlamento, quer em coligações autárquicas. No primeiro dia, Jorge Pinto acusou os socialistas de "passarem cheques em branco" ao Governo PSD/CDS-PP no que toca à aprovação do Orçamento do Estado e no encerramento, com dirigentes do PS na plateia, foi a vez de Isabel Mendes Lopes desafiar os socialistas a travar uma revisão constitucional à direita, ameaçando chumbar o próximo Orçamento, de forma a forçar um recuo dos sociais-democratas.

Apesar destes reparos, o tom crítico do congresso foi sobretudo dirigido ao Governo PSD/CDS-PP e à extrema-direita, com a revisão constitucional prevista para o final do ano a ser um dos principais temas das intervenções.

O partido chegou a Sintra embalado por um ciclo de dois anos marcado por várias conquistas eleitorais, que se traduziram no reforço da sua presença na Assembleia da República, elegendo seis deputados, mas também a nível local, com várias dezenas de autarcas eleitos, e com o número de membros e apoiantes a duplicar, chegando a cerca de cinco mil.

A saída de Rui Tavares do cargo de porta-voz, depois de quatro anos em que foi a principal figura mediática do partido, já fazia antever uma reunião magna de mudança de ciclo, apesar de ser expectável que o dirigente, que se mantém na direção, continue envolvido nas decisões do núcleo duro do partido.

Isabel Mendes Lopes alertou para a necessidade de cimentar o crescimento conquistado, avisando que o Livre não pode "correr o risco de se fechar" nos seus próprios processos nos próximos dois anos.

Sem divergências ideológicas ou programáticas, o tom do congresso foi maioritariamente sereno, com os membros e apoiantes a manifestar apenas discordâncias na gestão de processos internos, num claro sintoma de um partido em crescimento.

Uma das principais dificuldades abordadas na reunião foi o crescimento do partido a nível local, com diversas moções específicas a pedir maior autonomia e articulação dos núcleos territoriais, muitos ainda recentes.

A rede de autarcas foi ainda outro dos temas "quentes" do congresso, depois de o seu funcionamento ter sido criticado por um membro durante os trabalhos de sábado. Esta crítica foi logo rejeitada por alguns dirigentes do núcleo duro, que defenderam que a rede ainda está a ser desenvolvida.

Foi também abordada a necessidade de rever os estatutos, que não são alterados de forma significativa desde a fundação do partido, em 2014. O facto de não estarem previstas eleições nos próximos dois anos foi um facto realçado por vários dirigentes como uma oportunidade para atualizar o funcionamento do partido e melhorar a sua organização interna, preparando-o para um ciclo que o Livre sonha ser de maiores responsabilidades.