Uma infiltração lenta e dispendiosa revela a persistência do Kremlin, mas as elevadas baixas para conquistar Kostyantynivka mostram outra realidade
Trata-se do destino de apenas uma cidade, ao longo de um ano, mas proporciona uma visão rara sobre a malfadada guerra que a Rússia escolheu travar.
A infiltração lenta e dispendiosa em Kostyantynivka, fundamental para o avanço de Moscovo no Donbass, no leste da Ucrânia, e que o Ministério da Defesa da Rússia afirmou ter sido ocupada a 3 de julho, revela a persistência das forças do Kremlin e as baixas devastadoras que estas estão dispostas a tolerar para alcançar até mesmo os objetivos mais modestos.
A 3 de julho, o Ministério da Defesa publicou uma série de vídeos de tropas russas em vários pontos no centro da cidade, a agitar bandeiras russas, para reforçar a sua afirmação de que tinham tomado a cidade. Esta alegação falsa — contrariada por vídeos recentes, testemunhos de tropas ucranianas e mapeamento independente das linhas da frente — foi uma das várias feitas nos últimos meses pelos líderes russos, com o objetivo de sugerir que o seu progresso no campo de batalha era maior do que realmente é, talvez para persuadir o seu público interno, ou os seus homólogos na Casa Branca, de que a sua campanha militar não tinha estagnado.
O presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelensky, aproveitou-se rapidamente dessa falsidade e instou o presidente russo, Vladimir Putin, a encontrar-se com ele na cidade para discutir a paz, caso esta estivesse, de facto, sob o controlo de Moscovo.
A CNN, que realizou reportagens em Kostyantynivka ou nas suas imediações por duas vezes ao longo do último ano, recorreu a vídeos geolocalizados e a testemunhos para mostrar o custo terrível e o ritmo lento dos avanços russos que conduziram à falsa alegação da captura da cidade. O destino da cidade revela tanto a natureza obstinada e implacável do ataque de Moscovo como a natureza relativamente insignificante das vitórias que esta reivindica, mesmo que falsamente.
Gráfico: Lou Robinson, CNN
29 de julho de 2025
O mapeamento realizado pelos analistas ucranianos independentes do Deep State mostra as forças russas nos arredores da cidade, a tentar avançar para o seu interior. A estrada de acesso à cidade já está ladeada por redes de pesca, para proteger o tráfego dos drones de ataque russos. Os carros circulam em segurança pela cidade e o mercado, no seu centro, continua movimentado, apesar da ameaça ocasional dos drones.
Uma equipa da CNN que visitou a localidade em julho do ano passado encontrou ruas repletas de civis, embora alguns se mostrassem relutantes em ser filmados, talvez por receio de uma futura ocupação russa e de serem sancionados por "cooperarem" com os meios de comunicação ocidentais.
Novembro de 2025
Nos primeiros meses de inverno, o mapa mostra a chamada "zona cinzenta" de território disputado a aproximar-se cada vez mais do centro da cidade. O ataque da Rússia com bombardeamentos aéreos tinha-se intensificado. Vídeos publicados pelas forças ucranianas mostram blocos de apartamentos no sudoeste da cidade em chamas e um drone russo capta os danos causados por um ataque aéreo, a apenas algumas ruas de distância.
Mas os ucranianos continuam confiantes no centro da cidade, com o Estado-Maior a publicar um vídeo de um oficial em pé, descontraído, na Praça da Vitória, em novembro.
Imagens russas publicadas nessa altura mostram o que parece ser o ponto de vista da sua infantaria a partir do interior do pátio de um complexo de apartamentos, junto à Rua Gromov, novamente na periferia sudoeste da cidade.
Janeiro de 2026
É nos últimos dias do ano que a Rússia parece dar os seus maiores passos em frente, conforme registado pelo Deep State na primeira semana de 2026. A zona cinzenta chegou à cidade e duas frentes russas distintas aproximam-se das suas principais vias de acesso.
Dois fatores-chave determinam a extensão do avanço de Moscovo. O alcance dos drones de ataque — quer sejam os minúsculos drones com visão em primeira pessoa que têm como alvo indivíduos ou veículos, quer sejam as máquinas com maior carga útil que atingem edifícios — aumenta mensalmente, afastando lentamente a zona segura em torno de Kostyantynivka e complicando a sua defesa pela Ucrânia. Mais significativamente, nesta altura, os responsáveis ocidentais começaram a fazer eco das alegações ucranianas de que a Rússia registava até 35 mil mortos ou feridos no campo de batalha todos os meses.
Este número impressionante — resultado aparente tanto da estratégia ucraniana de matar o maior número possível de soldados com os seus drones como do uso contínuo de táticas brutais de assalto em "ondas" por parte de Moscovo — expõe o provável custo humano dos pequenos avanços da Rússia em torno de Kostyantynivka.
Os vídeos publicados em janeiro mostram, no entanto, que as forças de Kiev continuavam firmemente no centro, perto da estação ferroviária sitiada, no final do mês.
Em fevereiro, o fósforo branco — uma munição terrível cuja utilização em combate sobre zonas residenciais é considerada ilegal pelo direito humanitário — chove sobre os blocos de apartamentos do sudoeste, sugerindo que os arredores são palco dos combates mais intensos.
Apesar disso, os ucranianos publicam vídeos que mostram que ainda se encontram na zona centro-sul da cidade.
Nesta fase, é evidente que grande parte da população civil já partiu e que a cidade está lentamente a ser reduzida a escombros. Um vídeo publicado em abril mostra que o local onde as tropas ucranianas se encontravam tranquilamente em novembro foi reduzido a destroços de edifícios e ruínas, levantando a questão do valor económico das áreas pelas quais a Rússia luta.
Maio de 2026
A CNN testemunhou em primeira mão a alteração no alcance dos drones russos em maio, numa extenuante viagem de regresso de cinco horas a pé ao longo da estrada de acesso principal a Kostyantynivka, que um ano antes era acessível em segurança sob a cobertura de redes de pesca. Em maio, as redes ainda lá estavam, mas a estrada estava repleta de restos carbonizados de carros, atingidos por drones, e de robôs automatizados utilizados para entregar mantimentos à linha da frente.
A caminhada de cinco quilómetros ao longo daquilo que ficou conhecido como a "Estrada da Vida", desde a cidade principal mais próxima, Druzhkivka, até aos arredores de Kostyantynivka, foi feita na sua maior parte a pé, uma viagem durante a qual as tropas ucranianas tiveram de se esconder constantemente entre a vegetação e esperar que os drones de ataque russos que sobrevoavam a zona passassem por elas sem as atingir. Os veículos na estrada tinham-se tornado alvos e a equipa passou pelo carro incendiado onde um oficial da unidade tinha sido morto apenas alguns dias antes.
O aumento do perigo na estrada, apesar de as tropas ucranianas ainda se encontrarem no centro da cidade, refletia o facto de os drones russos terem desenvolvido um maior alcance nos últimos meses e os avanços tecnológicos de ambos os lados que reconfiguram constantemente o campo de batalha. O mapa mostra a zona cinzenta agora bem no interior da cidade e as forças russas efetivamente no seu sudoeste.
Julho de 2026
Dois meses depois, as forças armadas russas alegariam que a cidade era sua e publicariam vídeos como prova aparente disso. No entanto, é evidente no mapa de 3 de julho que ainda têm de exercer controlo sobre partes significativas da mesma.
Uma semana após a alegada captura, o 19.º Corpo de Exército da Ucrânia publicou um vídeo no Telegram a mostrar os seus drones a atacar as forças russas entre os escombros da cidade, matando um "ocupante". A publicação diz: "O inimigo pinta vitórias nos ecrãs, mas, na prática, é destruído pelas nossas unidades. A cidade mantém-se de pé. A defesa continua."
Esta é a lição de Kostyantynivka: a Rússia pode estar a conquistá-la lentamente, a um custo enorme. Mas a cidade abrange apenas 66 quilómetros quadrados, enquanto o território da Rússia ascende a 17 milhões de quilómetros quadrados.
Não se sabe ao certo quantas vidas russas ou ucranianas foram perdidas neste combate. Mas as imagens da cidade mostram-na reduzida a escombros.
A cidade tem alguma importância estratégica, na medida em que a sua captura permitiria às forças de Moscovo aproximarem-se dos últimos grandes centros populacionais da região do Donbass que Putin tanto cobiça — Kramatorsk e Sloviansk. Mas a captura destas duas cidades implicará provavelmente uma luta igualmente sangrenta e prolongada, o que faz com que, mesmo numa avaliação otimista, a concretização deste objetivo-chave da guerra de Moscovo esteja, no mínimo, a um ano de distância.
Um ano de violência horrível em Kostyantynivka corrói a fraqueza no cerne do plano de guerra de Putin: por quanto tempo conseguirá ele manter a confiança do público russo num conflito em que as mais pequenas conquistas têm de ser falsamente reivindicadas e, na realidade, permanecem fora de alcance?