Copa do Mundo: Como era gostoso o meu comentaristês! - 22/07/2026 - Sérgio Rodrigues - Folha

Quebra linhas, entrega gols, gera jogo, quebra pro ataque, ataca os espaços, ataca a profundidade, acha o passe, tem muita qualidade, jogador diferente, consegue machucar o adversário, faz bloco baixo, alarga o campo, joga entre linhas, faz o facão, dá uma fatiada, gesto técnico perfeito, desmonta a defesa, pisa na área, chapa no canto.

Há uma linguagem codificada dos comentaristas de futebol —em parte criada por jogadores e nem tão nova, mas de todo modo recente no tempo histórico— que teve sua apoteose na Copa do Mundo de 2026: o comentaristês.

Antigamente —tempo vago que a maioria de nós situa no século passado, o velho vintão—, se uma pessoa dizia que fulano entregava gols, ninguém que a ouvisse teria dúvida: estava falando de um goleiro inclinado a engolir frangos ou, no máximo, de um zagueiro trapalhão. Entregar gols era concedê-los.

O uso do verbo "entregar" no sentido daquilo que um goleador faz ao marcar gols, ou um time ao obter vitórias, é uma contaminação do inglês "deliver", com seus ares corporativos de triunfo profissional, de tarefa bem-cumprida.

Naquele tempo, vale notar ainda, machucar o adversário era assunto para o juiz —às vezes convocado a punir o agressor com o cartão vermelho, dependendo do caso— e, claro, para o departamento médico.

Alguns torcedores também machucavam e eram machucados na saída dos estádios, em escaramuças de hostes rivais. O sentido de agredir, mas esportivamente, é extensão figurada de um verbo antes associado apenas a danos infligidos por violência física.

Acredito que a ideia tivesse sua beleza quando começou a circular. A repetição a tornou cansativa: metáfora velha se cristaliza, vira chavão. E só algumas vezes se sedimenta em linguagem comum, como em asa de xícara, dente de alho e pé de mesa.

Esses são eventos raros. Com a possível exceção da chapada no canto, a maioria dos tiques, expressões, imagens, bordões —numa palavra, jargão— dos comentaristas de futebol de hoje vai morrer, virar pó, sumir, quando o seu tempo passar e outra geração vier, com novas palavras e sentidos.

A história da linguagem do futebol tem muitas camadas geológicas. Escavando fundo, vamos encontrar quípers, centerfors e córners fossilizados. Se o sabor era de anglofilia, hoje mal se disfarça certo viés tecnocrático.

Quebrar linhas? Não, isso ninguém sabe o que evocaria a ouvidos antigos. Provavelmente nada —não na língua do futebol. Mudando o contexto, talvez pudesse querer dizer "destruir a marretadas trechos de linha férrea" ou coisa parecida.

Durante a Copa —que procurei assistir ao máximo e que achei estupenda, mesmo com todos os senões—, esse patoá de locutores e comentaristas me incomodou bastante. Registrar seu espalhamento pelo vocabulário de trabalho de tantos profissionais virou uma fonte de fascínio e irritação.

Agora que a Copa acabou, vejam só, me pego quase com saudade desse sabor específico de trololó, o comentaristês, que por tantas semanas me embalou tardes e noites. Vou ali atacar uma profundidade para ver se passa.

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